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Ushuaia: uma viagem ao fim do mundo

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Ushuaia e o Glaciar Perito Moreno (nesta foto) são dois dos pontos turísticos mais emblemáticos da Argentina

É onde a terra acaba, o gelo começa e os sonhos se tornam realidade

Sempre quis ir ao fim do mundo. A ideia pode parecer estranha, se pensarmos que o planeta é redondo e que por mais que andemos esse fim será sempre uma miragem. Mas há uma terra bem distante, a quase 12 mil quilómetros de Lisboa, que ostenta o título de cidade mais austral do mundo e que tem feito dessa marca o chamariz para um fluxo de turistas em expansão. É lá que fica a “unidade postal do fim do mundo”, o farol do fim do mundo, o comboio do fim do mundo. Dá para perceber a ideia. Se andarmos muito, é ali que chegamos.

Para trás de Ushuaia fica o mundo habitado, começando pela Argentina. À frente, apenas o mar que separa a América do Sul da Antártida. São mil quilómetros desde o fim do mundo, seguindo em frente. E é essa “conquista geográfica”, como alguém lhe chamou, que cada vez mais turistas tentam alcançar. No posto de turismo é até possível carimbar o passaporte, atestando a passagem pela cidade mais a sul do planeta: 54°48’30”S de latitude, à beira do canal Beagle.

Não é que não haja locais mais habitados abaixo. Um pouco mais a sul fica Puerto Williams, uma pequena localidade, já na parte chilena do arquipélago da Terra do Fogo. Mas como numa espécie de acordo tácito entre os inquilinos do fim, foi Ushuaia, com os seus 60 mil habitantes, que se apropriou do título. E que me convenceu a fazer muitas horas de avião e mais dez de autocarro por estradas infindáveis não alcatroadas, com um céu infinito quase por única companhia, alguns guanacos (primos dos lamas) e ovelhas. Aviso à navegação: se alugar um carro, lembre-se de ver onde ficam os raros postos de abastecimento, confirmar que tem um pneu sobresselente e que o sabe mudar.

Demora tempo, mas a facilidade e o conforto com que se chega ao fim do mundo não é em nada comparável às viagens de exploração que Fitz Roy e Charles Darwin fizeram por aquelas paragens inóspitas há dois séculos. A admiração, essa, é a mesma. A bordo do navio “HMS Beagle”, que viria a dar o nome a um dos dois estreitos naturais que a sul permitem a passagem entre o Atlântico e o Pacífico — o outro, não menos famoso, fica uns quilómetros a norte e foi descoberto pelo português Fernão de Magalhães durante a sua viagem de circum-navegação —, o naturalista britânico deixou por escrito a beleza do que o rodeava: “É difícil imaginar algo mais belo do que o azul luminoso destes glaciares, sobretudo olhando para o contraste com o branco mortiço da neve” que se espalha nos cumes das montanhas, escreveu nos seus diários de viagem, quando navegava pelo extremo sul da América.

Duzentos anos depois, o cenário idílico mantém-se. Claro que hoje há cruzeiros a transportar turistas endinheirados até à Antártida — os preços chegam aos 10 mil euros. Há embarcações turísticas, bem mais em conta, que se ficam por passeios no canal de um par de horas, mas com direito a chegar perto de pinguins e leões-marinhos. Partimos em ritmo lento da baía da Ushuaia, deixando para trás as montanhas que rodeiam a cidade. E comprovamos as belezas descritas por Darwin.

O azul-escuro da água gelada, as montanhas do fim dos Andes que, por causa do tímido verão que ali se faz sentir, mantêm a neve nos cumes todo o ano, a vegetação colada à rocha impossibilitada de crescer mais pelos ventos e temperaturas que fustigam a região, o ar límpido e a sensação de se estar mesmo num local remoto compõem a experiência. No meu passaporte há um carimbo estranho. Não é mais um país, é um sonho tornado realidade. É o fim do mundo numa página de papel.

POSTAL

Glaciares e montanhas

Se quiser viajar até à região mais austral do mundo, não tenha pressa em lá chegar. Reserve o tempo que conseguir para caminhar entre os glaciares, lagos e montanhas da Patagónia e, sobretudo, pare no Perito Moreno, perto da cidade de El Calafate. Tecnicamente, estamos a falar de um glaciar, que se estende por 30 quilómetros e que acaba numa parede com 60 metros de altura. É um dos cenários que entra diretamente na lista dos sítios mais incríveis a visitar. Pelo branco azulado da massa de gelo a perder de vista e pelo espetáculo raro de assistir ao desprendimento de pedaços de glaciar, que provocam estrondos que parecem trovões. É difícil tirar os olhos da paisagem. Mas, quando partir, o mais provável é ir com um sorriso na cara.