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Safety Uber alles?* (A segurança acima de tudo?)

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Tiago Miranda

Uma fuga de informação no sistema interno da Uber, nos EUA, lançou a polémica: uma busca na base de dados do sistema revelou a existência de mais de 6000 menções de assédio sexual, incluindo algumas de violação, entre 2012 e 2015. A empresa desvaloriza, e afirma que são "apenas" 175 as queixas por assédio, e 5 de alegadas violações. A polémica está instalada

Nos EUA, a empresa Uber (fundada em 2009, em S. Francisco), que permite o transporte privado de passageiros através de uma aplicação no smartphone, está a viver dias difíceis. Uma fuga interna de informação denunciou que a base de dados da empresa mostrava 5827 resultados se fazia uma busca pela palavra "rape" (violação), e 6160 com a keyword "assédio sexual", entre dezembro de 2012 e agosto de 2015.

A notícia foi dada pelo Buzzfeed, com base nas denúncias dum antigo representante da Uber, que fez as buscas no sistema de apoio ao cliente da Uber. Esta apressou-se a declarar que estes dados eram "enganadores", já que a busca incluía nos resultados palavras aproximadas que não eram "violação".

Argumentam que as imagens de ecrãs publicadas pelo Buzzfeed, assim como os dados da busca realizada com a palavra "rape" (violação) são "enganadores" porque acontece frequentemente "os motoristas escreverem mal a palavra "rate" (tarifa), e ela "transformar-se em "rape" (violação). Afirmaram também que palavras em que estas letras estejam contidas aparecem na busca. Contudo, a Uber EUA confirmou 175 mensagens com acusações de "assédio sexual", e 5 de alegada "violação".

Uma das imagens de ecrã publicadas no Buzzfeed, que demonstram uma busca na base de dados da Uber EUA com base na palavra "rape" (violação)

Uma das imagens de ecrã publicadas no Buzzfeed, que demonstram uma busca na base de dados da Uber EUA com base na palavra "rape" (violação)

A empresa minimizou os resultados, afirmando que os números representam "0, 0000009% das viagens no período de 3 anos, de dezembro de 2012 a agosto de 2015", no caso das violações, e "1 em cada 3,3 milhões de viagens" no caso do assédio sexual. Os executivos da Uber admitem que "nem sempre fizeram tudo bem", mas que "nenhum meio de transporte é 100% seguro hoje em dia".

O chefe das operações de segurança da Uber nos EUA, Joe Sullivan, o vice-presidente das Comunicações e Tim Collins, vice-presidente do Apoio Global, endereçaram uma carta à Buzzfeed, explicando que "um acidente é demais" e que a segurança dos passageiros é a sua prioridade. "Todas as viagens da Uber são seguidas por GPS e os passageiros podem partilhar a sua rota em tempo real com família e amigos".

O advogado norte-americano George Gascon acusou a empresa de não zelar convenientemente pela segurança dos clientes, na hora de recrutar os seus motoristas. "Há registos de motoristas que são agressores sexuais condenados, ladrões, raptores, e há até um assassino condenado – e isto só em Los Angeles", denuncia. Além dos EUA, também foram registadas queixas contra a Uber noutros países, como na China, Manila, Filipinas ou África subsaariana.

Porta-vozes da Uber garantiram que, em caso de haver denúncias de violação ou agressão, os representantes do serviço a clientes contactam o queixoso e encaminham o caso às autoridades competentes. Nessa altura, a empresa "desativa temporariamente o motorista ou o passageiro durante a fase de inquérito" e faz chegar aos passageiros "a matrícula, modelo e cor da viatura em causa, assim como a foto e nome do motorista".

A polémica estalou este mês na Uber EUA (uma empresa diferente da que opera em Portugal e na Europa)

A polémica estalou este mês na Uber EUA (uma empresa diferente da que opera em Portugal e na Europa)

© Eduardo Munoz / Reuters

Presente em mais de 200 países, a Uber opera em Portugal desde julho de 2015, tendo já esbarrado contra protestos sérios de taxistas e da sua representante, a ANTRAL. A Uber assume-se "não como um operador de transporte, mas sim uma plataforma de tecnologia que liga pessoas a prestadores de serviços de transporte". Em Portugal, a empresa que opera a Uber sublinha que pertence a uma empresa diferente, a Uber Europa, na qual se inclui o nosso país. Aqui, existem cerca de 1000 motoristas, e foram feitas cerca de 1 milhão de viagens desde que o serviço foi posto em prática. Os motoristas são entrevistados e sujeitos a vários crivos, e inclusivamente é-lhes pedida uma folha de cadastro limpa, clarifica Rui Bento, diretor-geral da Uber em Portugal.