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Debaixo do Porto há um rio

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No subsolo da baixa do Porto circula um rio e está em curso um projeto para o tornar visitável

MIGUEL NOGUEIRA

Está aberto concurso para a abertura de um museu e percurso subterrâneo a partir da estação de São Bento

Cláudia Azevedo Lopes

As cidades escondem mistérios. Espaços votados ao esquecimento, por vezes soterrados. Por baixo das ruas todos os dias calcorreadas há mundos desconhecidos. Nem todos saberão que outrora ali existiu outro lugar, outra cidade. São capítulos da história coletiva por descobrir. Por isso, quem passa pela estação de São Bento e segue em direção à Rua de Mouzinho da Silveira, no Porto, não imaginará estar a vaguear por cima do leito do rio da Vila, um importante curso de água que atravessa a cidade, sentenciado a uma existência subterrânea por uma questão de saúde pública. Agora, esse rio vai voltar a fazer parte da vida do município.

A empresa Águas do Porto está a desenvolver um projeto de musealização do rio subterrâneo. “Era um ativo que desconhecíamos, mas no local apercebemo-nos do seu enorme potencial, pelas condições de visita e pela história que nele está encerrada”, revela Frederico Fernandes, administrador da empresa.

A história é tão antiga como a própria cidade. O rio da Vila forma-se frente à estação de São Bento, na Praça de Almeida Garrett, com águas provenientes de dois mananciais. É mencionado pela primeira vez, com o nome “Canallem maiorum”, em 1120, no documento de doação do burgo portucalense ao bispo D. Hugo. Com o crescimento da cidade para fora da muralha primitiva são construídas as Muralhas Fernandinas, que impõem o encanamento do troço superior do rio da Vila, na atual Praça de Almeida Garrett. Mais habitantes significa aumento de detritos, e o rio, por atravessar o centro da cidade, torna-se local de eleição para o depósito de resíduos, desde carcaças de animais, sobras de produtos das feiras a detritos fisiológicos.

Por momentos, noutra época

Nas palavras do historiador Armindo de Sousa, transformou-se “em cloaca máxima, fétida e indecente” e numa fonte de doenças. “Não se inventara ainda a preocupação da saúde pública nem o luxo da higiene privada”, diz. A necessidade de o município resolver este problema, combinada com a vontade de estabelecer novas vias de circulação dentro da cidade, condenam o rio da Vila ao encanamento, primeiro com a construção da Rua de São João, em 1700, que dita a cobertura da parte final do rio, na Ribeira, e em 1872 com a construção da Rua de Mouzinho da Silveira, que cobre a parte central do rio e condena-o, definitivamente, ao subsolo.

É precisamente aí que nos encontramos, na Rua de Mouzinho da Silveira, quatro metros abaixo do nível do passeio e dentro de um túnel construído há mais de 140 anos. A descida é íngreme e acentuada. Lá no alto vê-se a claridade através da tampa de saneamento por onde entrámos. Em cima, a cidade continua agitada, mas naquele fundo não a conseguimos ouvir. Apenas o rio e o seu som contínuo, ouvido antes de ser visto. No leito, a água corre determinada e indica o caminho. São 350 metros no interior de um túnel com 2,50 metros de largura e 3 de altura, dimensões que permitem que se possa apreciar a beleza do espaço.

O leito do rio é delimitado pelas paredes de pedra granítica, que se estendem na vertical até culminarem em tetos abobadados. Por momentos, estamos noutra época e queremos partir à descoberta desta nova cidade e do que nela se encontra escondido. Será esse o trabalho dos arqueólogos envolvidos na equipa de execução do projeto, responsável por elaborar a proposta museológica do espaço. Terão de procurar resquícios, estejam eles enterrados no solo ou em documentos, fotografias e artefactos em arquivo, que ajudem a traçar a história do rio da Vila e da cidade que se construiu à volta (ou por cima) dele.

Numa época em que a proteção do património não era uma prioridade, a construção da Rua de Mouzinho da Silveira levou a muitas demolições, destino que também tiveram outras construções de períodos históricos anteriores. Património que a Águas do Porto quer ver resgatado e acessível ao público no Museu do Rio da Vila. “O propósito será mostrar aos visitantes o que era a cidade antes do entubamento do rio da Vila, o que se perdeu e a evolução que surgiu depois com a construção da Rua de Mouzinho da Silveira”, explica Frederico Fernandes.

A entrada para o Museu do Rio da Vila será feita pela estação de metro de São Bento. Aí, uma das paredes da entrada noroeste vai ser demolida e dar origem a uma antecâmara. Será esse espaço a acolher a bilheteira e uma sala de exposições, que albergará todo o conteúdo museológico recolhido. A visita, já no túnel, continua sobre um passadiço em aço-inox de 80 centímetros de largura, desenhado para ser o mais transparente possível.

Será ainda disponibilizado um dispositivo multimédia, como um tablet ou um telemóvel, que continuará a fornecer informação histórica durante todo o percurso. A saída é feita pelo Largo de São Domingos, mas a visita não acaba aí. Continua, à superfície, pelo trajeto do curso de água até à Ribeira, onde desagua no rio Douro. Este itinerário poderá ser disponibilizado em aplicação móvel ou em formato físico.

Estas são as linhas gerais de um projeto que ainda se encontra em desenvolvimento e que por isso conta com muitas incógnitas. “A verdade é que temos uma galeria que tem água, e por isso a existência de qualquer equipamento tem de ser pensada para situações em que o caudal aumente. Há também a questão da ventilação e do plano de segurança, porque são 350 metros enterrados e terá de haver pelo menos uma saída de emergência a meio do percurso”, revela o administrador da Águas do Porto.

Tudo dependerá das soluções apresentadas pelas propostas em concurso, ainda a serem avaliadas pela Águas do Porto e pelo pelouro da Cultura da Câmara Municipal do Porto.

Segundo Frederico Fernandes, vencerá quem conseguir incorporar todas as exigências do projeto pelo menor preço. “O concurso tem uma componente de preço e uma componente de valia técnica, desde as diretrizes da solução museológica ao cronograma e às tecnologias que serão implementadas. Vamos avaliar a solução no seu todo.” O financiamento do projeto, orçado em 820 mil euros, fica a cargo da Águas do Porto, embora não esteja excluída uma candidatura aos fundos comunitários.

O Museu do Rio da Vila deverá abrir as portas no segundo trimestre de 2018. É só seguir a corrente e deixar-se levar.