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Bomba relógio

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d.r.

Há sempre uma primeira vez para tudo. Este fim de semana os utilizadores de computadores Macintosh tiveram uma pequena demonstração do que sofrem todos os que estão no “mundo Windows”. Peritos em segurança informática detetaram um malware (software criado com intenções criminosas) desenhado para atacar em específico os Mac. O KeRanger, como foi batizado, tinha por objetivo entrar no computador, ficar adormecido durante três dias e, depois, tratar de encriptar (codificar) toda a informação guardada na máquina. Desta forma, o utilizador do computador ficaria sem acesso aos dados e para os desbloquear (descodificar, entenda-se) teria de pagar uma Bitcoin (a moeda virtual exigida habitualmente pelos hackers para o pagamento de resgates), que vale pouco mais de 400 euros na cotação atual.

O Ransonware, nome dado ao software maligno que atua desta forma, é uma das principais ameaças atuais aos sistemas eletrónicos. O mês passado, hackers recorreram à mesma estratégia para bloquear o acesso aos sistemas de um hospital privado norte-americano. O ataque foi de tal maneira eficaz que o diretor do estabelecimento, o Hollywood Presbyterian Medical Center, localizado na Califórnia, acabou por pagar cerca de 15 mil euros para voltar a ter o hospital a funcionar normalmente (pode ler mais AQUI).

Este tipo de criminalidade informática foi, durante muito tempo, direcionado apenas a organizações. Mas, tal como aconteceu este fim de semana com os Macintosh, o Ransonware tem entrado de forma eficaz no quotidiano do utilizador comum. Normalmente, este tipo de ameaça é disseminada em softwares ilegais. Aliás, o tal KeRanger escondeu-se no Transmission, um programa para Bit Torrent (serviços usados maioritariamente para descarregar conteúdos piratas) muito popular.

Uma tática habitual dos piratas é esconder estes programas malignos dentro de aplicações que ajudam à pirataria ou, mesmo, mascará-los de conteúdo. O utilizador pensa que está a descarregar o mais recente “Star Wars” quando, na realidade, o ficheiro que descarrega para o computador é um vírus.

Mas estamos a olhar para a árvore. É preciso recuar e ver a floresta. E a vista deste ponto mais alto não é nada bonita. Conseguimos ver que, no que toca aos ataques informáticos, o mundo está em ciberguerra.

Em dezembro do ano passado, um ataque informático não reivindicado colocou parte da Ucrânia às escuras. Foi a primeira vez que uma central elétrica foi atacada eletronicamente com sucesso. É assustador pensar que, remotamente, os piratas conseguiram cortar o fornecimento de eletricidade.

Em julho do mesmo ano, hackers conseguiram roubar 22 milhões de números de Segurança Social de cidadãos dos Estados Unidos. Um ciberataque nunca visto, que também deu aos piratas acesso a mais de um milhão de impressões digitais. Aliás, o ano passado foi muito profícuo em ataques eletrónicos a entidades norte-americanas. Nem a Casa Branca escapou, quando os piratas conseguiram intercetar uma série de e-mails trocados entre algumas das mais destacadas figuras do Estado.

Esta ciberguerra entre EUA, China, Rússia, Israel – só para referir os casos mais conhecidos – decorre sem nenhum cessar-fogo aparente. Aliás, há duas semanas o Departamento de Defesa dos Estados Unidos admitiu ter lançado vários ciberataques contra o Estado Islâmico (pode ler mais AQUI) de forma a manietar a organização terrorista de usar as redes sociais e a Internet para recrutar e inspirar possíveis militantes para esta causa.

Tic-Tac, Tic-Tac…

A ciberguerra que decorre neste momento tem os mais variados propósitos. O intuito pode ser o de parar a tal estação elétrica, o hospital ou lesar uma empresa - a Sony foi atacada quando se preparava para lançar um filme que ironizava o regime norte-coreano.

O assustador é verificarr que a nossa dependência crescente de sistemas eletrónicos vai expor-nos cada vez mais a este tipo de ameaça. Consideremos. A consultora Gartner diz que em 2020 vão existir 25 mil milhões de dispositivos ligados à Internet. É a Internet das Coisas, que se materializa na capacidade de dar conectividade aos equipamentos que hoje nos rodeiam, mas que ainda estão mudos. É assim que o frigorífico vai mostrar se é necessário comprar leite, que vai ser possível colocar a máquina de lavar a roupa a funcionar remotamente ou abrir a porta de casa mesmo quando estamos do outro lado do mundo. É também assim que as autoridades vão controlar de forma inteligente o trânsito nas cidades, a produção de eletricidade e a movimentação das pessoas.

Não é preciso grande imaginação para antever que, tal como são usadas para nosso benefício, estas tecnologias podem ser utilizadas contra nós.

E isto não é uma visão “Orwelliana” do futuro. Aquilo que George Orwell preconizou em “1984” já acontece, em parte, hoje. Basta relembrar o que Edward Snowden revelou sobre a ação da NSA para o constatar. O cenário que nos preparamos para enfrentar é igualmente assustador. Imaginar que hackers podem controlar barragens, centrais elétricas, fábricas, hospitais… é algo para o qual temos de nos preparar. Aliás, o responsável máximo pelo US Cyber Command, Michael Rogers, disse, na passada terça-feira numa conferência sobre cibersegurança: “É apenas uma questão de tempo, e não se vai acontecer, para ver uma nação, um grupo ou alguém a ter uma atitude destrutiva contra uma das infraestruturas críticas dos Estados Unidos”. Rogers tem a noção que será um ciberataque o próximo grande ataque aquele país.

Neste momento, podem existir bombas relógio adormecidas nos mais variados sistemas eletrónicos. Esperam pela ordem que as vai despertar e colocar em funcionamento. E, nessa altura, pode não existir a capacidade para reagir em tempo útil. Se calhar vai constatar-se o mesmo que o diretor do tal hospital californiano concluiu: mais vale a pena pagar o resgate do que tentar debelar a ameaça. O pior é se os atacantes não estiverem à procura de dinheiro…
É este o paradoxo da transformação digital que está a mudar o mundo. Sim, é essencial abraçar a evolução tecnológica mesmo com todos os prejuízos inerentes. É bom que estejamos preparados para esta realidade.