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#Tecnologia. Telemóvel, o cigarro do século XXI

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VICIADOS. Não deixe que seja a tecnologia a servir-se de si

GETTY IMAGES

Ainda se lembra da última vez que esteve num jantar com amigos, numa reunião de trabalho ou num espetáculo sem que alguém pegasse no telemóvel para ver o Facebook ou colocar mais uma foto no Instagram? Se nasceu depois do 25 de abril de 74 e não pertence a um qualquer grupo de infoexcluídos sabe bem do que é que estou a falar. Já não vivemos sem deitar um olho à tecnologia, mesmo que isso, muitas vezes, incomode quem está connosco.

De certa forma, escreve Nir Eyal, autor de "Hooked" (Viciado), a tecnologia é o cigarro do século XXI, indispensável para muitos, mas olhada com desconfiança por outros, sobretudo em contextos sociais. "Verificar o email ou consultar o Facebook pode ser tóxico e desorientador. Os fabricantes de tecnologia concebem estes produtos usando a mesma psicologia que torna as slots machines viciantes", escreveu o autor num post no seu blogue, publicado também no site da revista "Psychology Today".

Eyal sabe do que fala. O seu livro é um guia para quem deseja criar produtos que criem hábitos como os conseguidos pelas redes sociais mais populares. Mas o problema de desenvolver melhor tecnologia, admite o autor, é que depois fica mais difícil as pessoas porem-na de lado. E sem "anticorpos sociais", na feliz expressão de Paul Graham, um dos mais famosos investidores do Silicon Valley, estas más maneiras tecnológicas podem tornar-se a norma.

Muitas pessoas já sabem que estar sempre a consultar o telemóvel em momentos sociais pode ser visto como má-educação, mas há sempre quem não se importe muito com isso, da mesma forma que antes acontecia com o tabaco. Como se resolve então esta situação? Não existe uma solução para todas as situações, considera Eyal, que escreve também para publicações como a "Forbes" e o "TechCrunch". Se uma abordagem mais explícita, como proibir os telemóveis nas reuniões de trabalho, pode ser produtiva para as empresas, entre amigos a gestão do conflito aconselha mais cautela. "Ao contrário do contexto empresarial, ninguém num jantar é o chefe, portanto ninguém tem o direito de impor uma refeição livre de dispositivos".

Repreender o transgressor, embaraçando-o à frente dos amigos, não é uma grande ideia, assumindo que querem continuar amigos. O autor propõe uma abordagem mais subtil: colocar-lhe uma pergunta, uma qualquer, que o "afaste" do telefone e depois fazer-se de desentendido: "Ah, desculpa, estavas ao telefone. Está tudo bem?". A técnica resulta na perfeição, garante. Se o assunto não é realmente importante, na maior parte das vezes "ele irá guardar o telefone no bolso e apreciar a noite".

Quanto melhor percebermos a psicologia por detrás da tecnologia, melhor nos podemos defender. Não se trata de diabolizá-la, mas sim de tirar o melhor partido dela. De não deixar que ela nos torne cada vez mais alienados. Em suma, remata Eyal, devemos servir-nos dela, e não servi-la.