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Português na lista do Daesh já morreu

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Site sírio revela que radical de 38 anos vivia no Reino Unido antes de ter partido para a Jihad

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Os dados vieram do interior do autodenominado Estado Islâmico (Daesh). Um dissidente passou numa simples pen milhares de fichas de combatentes da organização terrorista à cadeia de televisão Sky News que estão a ser analisadas pelas polícias e serviços de informação de vários países, incluindo Portugal. A confirmarem-se os dados, trata-se de uma fuga de informação sem precedentes no coração da organização terrorista, que já é apelidada de JihadLeaks. “A investigação está a ser demorada já que os documentos estão escritos em árabe e só os recebemos na última quinta-feira”, revela uma fonte ligada ao processo que lembra ainda que “a veracidade desta base de dados está também a ser testada”.

Além disso, “há muitas, mas mesmo muitas fichas repetidas”, diz um outro responsável. É por isso que o número avançado inicialmente, o da existência de 22 mil nomes de radicais ligados ao Daesh nestes ficheiros, é considerado “excessivo” por todas as fontes contactadas. “Esse número não é real. Refere-se às fichas e não ao total de nomes”, acrescenta. Mas até ao momento não é possível saber um número mais exato.

Segundo uma das responsáveis do site sírio Zaman al-Wasl, que colocou online quase duas mil destas fichas pessoais, de um total que ainda está por definir, existe um formulário de um cidadão português. “Tem nacionalidade e origem portuguesa”, assegura Ethar Abdulhaq, diretor-adjunto do site, que enviou ao Expresso o documento relativo ao suspeito.

S., cuja identidade o Expresso opta por omitir, mas que usava o nome de guerra de Abu Yamina Elbourtugali, é oriundo da Grande Lisboa e vivia no Reino Unido, antes de ter partido para a Síria. Faz parte do contingente de combatentes abatidos pela aviação da coligação ocidental. A ficha revela que era casado, tinha um filho e era motorista em Londres. Depois de atravessar a fronteira com a Turquia, ficou alojado em Tel Abyad, uma cidade no Norte da Síria. O português referiu no formulário ter passado pelo Reino Unido, Espanha, Tanzânia e Turquia. Escreveu na alínea 16 que queria ser combatente e não kamikaze, como grande parte dos jiadistas que preencheu estes formulários.

Foi recomendado ao Daesh por um jiadista britânico conhecido como Yaakhoub al Britani, que terá sido morto em combate contra o exército sírio de Bashar al-Assad em 2015. Foi o primeiro britânico a participar na batalha de Alepo, em 2012, no mesmo ano em que se alistou no Daesh. Nascido na Tanzânia, converteu-se ao Islão em 2007 na zona Este de Londres, onde morava, tal como S.

O Expresso contactou as autoridades portuguesas responsáveis pela investigação que durante a tarde de ontem diziam desconhecer a existência deste português na lista. Na última quinta-feira, Constança Urbano de Sousa, a ministra da Administração Interna, garantia que as polícias portuguesas estavam a analisar a lista com dados de elementos ligados ao Daesh a que a Sky News teve acesso. Contactado na última sexta-feira, o gabinete de comunicação do MAI preferiu não fazer comentários sobre o assunto.

Bilal, o marroquino

O Expresso, que teve acesso a uma parte destes formulários, detetou uma outra referência a Portugal. Numa das fichas surge o nome do Abu Bilal, um marroquino de 23 anos que diz ter passado pelo território português antes de se ter alistado no Daesh, em 2013. O suspeito faz também referência a Espanha e França na mesma alínea do formulário, que tem no total 23 questões. Umas linhas mais abaixo, Abu Bilal diz estar disposto a morrer em nome da organização como kamikaze, demonstrando um elevado grau de empenhamento pela causa terrorista. Há outros recrutas que perante a mesma questão respondem que preferem ser “combatentes” ou “fazerem parte da logística”.

Ao contrário do que acontece nas outras centenas de formulários, Abu Bilal não fornece os contactos pessoais e é omisso em relação à pergunta se já tinha matado alguém. Além do nome, nacionalidade e idade, o único dado mais pessoal que revela é o estado civil: o marroquino é solteiro. Ou era, à data das respostas.

A falta de informações mais concretas sobre o jiadista está a complicar a vida à Polícia Judiciária, serviço de informações e Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, que estão a tentar perceber de quem se trata e se de facto viajou até Portugal. “Não é pelo facto de dizer que esteve no nosso país que assumimos a informação como sendo verdadeira”, explica um responsável.

Bilal está longe de ser o único cidadão marroquino identificado até ao momento na lista do site sírio “Zaman al-Wasl” cujos nomes batem certo com a lista mais vasta obtida pela Sky News. A acreditar nas informações disponíveis, Marrocos é o terceiro país mais representado até ao momento nesta base de dados: 140 radicais partiram daquele país em direção ao ‘califado’.

Os primeiros dois países nas listas são a Arábia Saudita (485) e a Tunísia (375). Depois de Marrocos, o Egito (110), a Turquia (57), a Líbia (54), a Indonésia (32) e a Síria (30) são os países com mais homens identificados nestes ficheiros. Da Europa Ocidental, a França (35) é quem lidera. Depois segue-se a Alemanha (18) e o Reino Unido (16). Também há seis canadianos e quatro norte-americanos na extensa base de dados. Há 40 países referenciados no site.

Entre os jiadistas já identificados estão alguns que nos últimos anos foram notícia no Reino Unido, como Ruhul Amin, Junaid Hussain e Abdel Bary. Os dois primeiros foram abatidos por drones na Síria nos últimos meses. O último, um rapper de 26 anos que se chegou a pensar ser Jihadi John, estará em parte incerta. Poderá ter regressado a Londres na clandestinidade.

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