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Já há um português e um lusodescendente na lista do Daesh. Ambos estão mortos

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Ismael Omar Mostefai, um dos terroristas do Bataclan, também se encontra entre os milhares de nomes da lista divulgada pela Sky News. É o segundo nome ligado a Portugal, depois de S., que o Expresso revelou este sábado

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

São dois os jiadistas com ligações a Portugal identificados para já nas listas de combatentes do Daesh, que têm sido reveladas aos poucos por toda a Europa. Um deles é Ismael Omar Mostefai, que matou 90 pessoas no atentado ao Bataclan em Paris e que, em seguida, se matou. Além de Mostefai, também os outros dois atacantes daquela sala de espetáculos, Samy Aminour e Foued Mohamed-Aggad, foram já referenciados nos formulários da organização terrorista, avançou a BBC.

Este sábado, o Expresso já tinha divulgado a existência de um radical português entre os nomes nas listas do Daesh. Trata-se de S. (cuja identidade o Expresso decidiu omitir), que terá sido morto em combate durante um ataque das forças ocidentais.

“Tem nacionalidade e origem portuguesa”, assegura Ethar Abdulhaq, diretor-adjunto do site sírio Zaman al-Wasl, que colocou online quase duas mil destas fichas pessoais, de um total que ainda está por definir.

S., que usava o nome de guerra de Abu Yamina Elbourtugali, é oriundo da Grande Lisboa e vivia no Reino Unido, antes de ter partido para a Síria. A ficha revela que era casado, tinha um filho e era motorista em Londres. Depois de atravessar a fronteira com a Turquia, ficou alojado em Tel Abyad, uma cidade no Norte da Síria. O português referiu no formulário ter passado pelo Reino Unido, Espanha, Tanzânia e Turquia. Escreveu na alínea 16 que queria ser combatente e não kamikaze, como grande parte dos jiadistas que preencheu estes formulários.

Foi recomendado ao Daesh por um jiadista britânico conhecido como Yaakhoub al Britani, que terá sido morto em combate contra o exército sírio de Bashar al-Assad em 2015. Foi o primeiro britânico a participar na batalha de Alepo, em 2012, no mesmo ano em que se alistou no Daesh. Nascido na Tanzânia, converteu-se ao Islão em 2007 na zona Este de Londres, onde morava, tal como S.

O Expresso contactou as autoridades portuguesas responsáveis pela investigação que durante a tarde de sexta-feira diziam desconhecer a existência deste português na lista. Na última quinta-feira, Constança Urbano de Sousa, a ministra da Administração Interna, garantia que as polícias portuguesas estavam a analisar a lista com dados de elementos ligados ao Daesh a que a Sky News teve acesso. O gabinete de comunicação do Ministério da Administração Interna preferiu não fazer comentários sobre o assunto.

Bilal, o marroquino

O Expresso, que teve acesso a uma parte destes formulários, detetou uma outra referência a Portugal. Numa das fichas surge o nome do Abu Bilal, um marroquino de 23 anos que diz ter passado pelo território português antes de se ter alistado no Daesh, em 2013. O suspeito faz também referência a Espanha e França na mesma alínea do formulário, que tem no total 23 questões. Umas linhas mais abaixo, Abu Bilal diz estar disposto a morrer em nome da organização como kamikaze, demonstrando um elevado grau de empenhamento pela causa terrorista. Há outros recrutas que perante a mesma questão respondem que preferem ser “combatentes” ou “fazerem parte da logística”.

Ao contrário do que acontece nas outras centenas de formulários, Abu Bilal não fornece os contactos pessoais e é omisso em relação à pergunta se já tinha matado alguém. Além do nome, nacionalidade e idade, o único dado mais pessoal que revela é o estado civil: o marroquino é solteiro. Ou era, à data das respostas.

A falta de informações mais concretas sobre o jiadista está a complicar a vida à Polícia Judiciária, serviço de informações e Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, que estão a tentar perceber de quem se trata e se de facto viajou até Portugal. “Não é pelo facto de dizer que esteve no nosso país que assumimos a informação como sendo verdadeira”, explica um responsável.

Bilal está longe de ser o único cidadão marroquino identificado até ao momento na lista do site sírio “Zaman al-Wasl” cujos nomes batem certo com a lista mais vasta obtida pela Sky News. A acreditar nas informações disponíveis, Marrocos é o terceiro país mais representado até ao momento nesta base de dados: 140 radicais partiram daquele país em direção ao ‘califado’.

Os primeiros dois países nas listas são a Arábia Saudita (485) e a Tunísia (375). Depois de Marrocos, o Egito (110), a Turquia (57), a Líbia (54), a Indonésia (32) e a Síria (30) são os países com mais homens identificados nestes ficheiros. Da Europa Ocidental, a França (35) é quem lidera. Depois segue-se a Alemanha (18) e o Reino Unido (16). Também há seis canadianos e quatro norte-americanos na extensa base de dados. Há 40 países referenciados no site.

Entre os jiadistas já identificados estão alguns que nos últimos anos foram notícia no Reino Unido, como Ruhul Amin, Junaid Hussain e Abdel Bary. Os dois primeiros foram abatidos por drones na Síria nos últimos meses. O último, um rapper de 26 anos que se chegou a pensar ser Jihadi John, estará em parte incerta. Poderá ter regressado a Londres na clandestinidade.

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