Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Ladram, miam, posam para a fotografia e fazem (muito) dinheiro

  • 333

BUB tem 1,2 milhões de seguidores no Instagram e uma linha de produtos de sucesso

MARK RALSTON

Sabia que há agências dedicadas exclusivamente a promover as carreiras de estrelas com quatro patas? Que há concursos para decidir qual o cão mais popular da internet? Que alguns têm mesmo uma companhia aérea oficial ou lojas dedicadas a si? Bem vindo ao mundo dos animais que são estrelas no Facebook e no Instagram – e dos seus donos, que encontraram assim uma nova profissão

"Esmagado pela emoção". Assim se sente Manny na passadeira vermelha, instantes antes de receber o devido prémio por ser uma estrela das redes sociais. Parece sorrir, com o laço preto às bolinhas brancas a decorar-lhe o pescoço, mas não consegue emitir qualquer som – não é todos os dias que se é ofuscado pelos flashes das câmaras, mesmo quando somos instagrammers populares e as pessoas anunciam que votaram "como loucas" para nos dar o prémio.

Quando o anúncio é feito, a sala vibra, a câmara do canal norte-americano CW foca Manny, os aplausos devem desorientá-lo. No entanto, Manny não sobe ao palco sozinho – com ele estão os seus donos, que o levam por uma trela e lhe pegam ao colo antes de fazerem os agradecimentos "que o Manny quer fazer".

O prémio que Manny acaba de ganhar é o de cão mais popular nas redes sociais, um título oficial que vem confirmar o que a biografia do seu Facebook reivindica: que Manny é "o buldogue francês mais seguido na internet". Os números também comprovam este posto: no Instagram, Manny está quase a chegar ao primeiro milhão de seguidores (e é descrito como "um filantropo de quatro anos proveniente de Chicago"); no Facebook esmaga a concorrência, com 1,6 milhões de fãs dedicados.

No seu Facebook, há vídeos de outros donos de cães famosos que lhe dão os parabéns; nos comentários, um fã garante que "é bem mais importante o Manny ganhar este prémio do que o Leonardo Dicaprio ter ganho o Óscar". No topo da página, ao lado de fotografias amorosas do pequeno cão com os "irmãos" Liam, Frank, Philip e Sheila, há uma lista de almofadas estampadas com fotografias de Manny que os utilizadores podem comprar por 24,99 dólares (quase 23 euros).

Manny não nasceu famoso. "Ele era o último da sua ninhada e estava prestes a ser entregue a um abrigo quando ficámos com ele. Ele foi um sortudo por nós aparecermos na altura certa e nós somos uns sortudos por termos ficado com ele" explica ao Expresso a dona, Amber, que defende que a fama deste pequeno buldogue francês chegou por ele ser "um cão com muita personalidade": "Tudo aconteceu de forma completamente orgânica: os seus seguidores no Instagram começaram a crescer aos milhares diariamente e pouco tempo depois de criarmos a página, ele já tinha mais de 15 mil seguidores".

Um negócio em expansão

Quando percorremos o nosso feed do Instagram e nos aparecem milhares de páginas de cães e gatos fofinhos (ou às vezes até animais mais exóticos – há quem adote ouriços ou guaxinins e faça deles estrelas das redes), a primeira coisa em que pensamos é no pelo fofo e no focinho cómico, mas há muito mais para além disso na nova indústria de animais no Instagram. Mais do que tirar fotografias giras aos companheiros de quatro patas, quando o número de seguidores começa a aumentar os donos fazem o que fariam se as contas fossem suas: negociar.

"Temos algumas parcerias com marcas e empresas, e quando viajamos com ele voamos sempre pela Southwest. Eles contactaram-nos pedindo para ser a sua companhia aérea oficial". Sim, Manny tem uma companhia aérea oficial; mas além das almofadas com o seu focinho – às vezes decorado com uma coroa, outras por corações cor de rosa – a loja online de Manny exibe meias, T-shirts (a evolução do buldogue francês, mostra uma delas) e até anéis.

Os donos e as empresas de relações públicas que gerem as contas – porque isto é um trabalho a sério – dos animais mais famosos do mundo não saltam de alegria quando lhes perguntamos quanto ganham por fotografia patrocinada. Mike Bridavsky, que adotou BUB no verão de 2012, arrisca dizer ao Expresso: "A quantidade de dinheiro oferecida pelas marcas varia imenso. Normalmente oferecem-nos de umas poucas centenas a vários milhares de dólares por post, mas raramente aceitamos patrocínios".

A Quartz calcula que os números sejam semelhantes aos que são cobrados por contas de humanos no Instagram, o que significa que cada post de uma publicação com mais de 100 mil seguidores – como na maior parte das contas que contactámos –pode valer ao seu dono cerca de dois mil dólares (1800 euros). O dono de BUB adianta um número – só no ano que passou, "a BUB conseguiu 170 mil dólares (154 mil euros) para animais que precisavam, entre eventos e venda de merchandise". Este sucesso não é de espantar, uma vez que a pequena gata já é seguida por 1,2 milhões de instagrammers.

Os produtos de BUB, semelhantes aos de Manny, são "muito populares", mas não são a única fonte de receitas: "O merchandise é muito popular e já foi comprado por dezenas de milhares de pessoas de todo o mundo. Também criámos o primeiro fundo nacional para animais com necessidades especiais, o LIL BUB's Big Fund for the ASPCA. Só este fundo já deu mais de 200 mil dólares [181.400 euros] para abrigos em todos os Estados Unidos".

Instagram

Um trabalho a tempo inteiro

"Gerir a sua conta do instagram não leva muito tempo. Mas gerir a empresa inteira, que envolve sete contas nas redes sociais, entrevistas como esta, gerir a loja online, desenhar merchandise, supervisionar a mercadoria, o inventário, marketing, viajar para eventos – acabam por ser 80 a 90 horas de trabalho por semana, e faço-o há três anos", explica Mike. A dona de Manny confirma: "Tornou-se um emprego a tempo inteiro gerir as suas contas nas redes sociais, emails de clientes e produção do produto".

O tempo que as contas das novas estrelas consomem é tanto que por vezes o melhor é mesmo levar o assunto para as mãos dos profissionais. Loni Edwards, representante da agência nova-iorquina The Dog Agency, explica ao Expresso que esta é "a primeira agência a focar-se exclusivamente em dog influencers. Está a ocupar um nicho de mercado e a ajudar os cães que representa a navegar neste meio – ajudá-los a pensar a longo prazo, alimentar a sua marca (tudo, desde imprensa e aparições pessoais a colaborações com marcas e acordos para livros) e aconselhá-los regularmente".

Edwards, que defende que "as pessoas têm uma afinidade inata com os cães", assegura que não basta ter um focinho giro para se ser representado pela The Dog Agency: "Somos altamente seletivos quanto aos dog influencers com quem trabalhamos. No mínimo têm de ter 20 mil seguidores nas redes e criar conteúdos com qualidade. Depois, fazemos uma entrevista telefónica para perceber os seus objetivos e perceber o que é mais indicado para eles".

O método parece vencedor: além de representar alguns dos animais mais famosos das redes – na sua maioria cães, porque "são mais requisitados" -, a agência consegue pôr as estrelas peludas a promover os sapatos da Jimmy Choo ou a cerveja da Budweiser.

O fenómeno Tufão

Não é só lá fora que os animais se tornaram protagonistas e passaram a causar reações eufóricas cada vez que saem à rua, precisando agora de ajuda profissional para gerir as suas "carreiras". Em Portugal, um caso destaca-se de forma clara: Tufão, o cão da atriz Raquel Strada, arranca suspiros não só nas redes mas também na televisão, para onde saltou depois de começar a ganhar popularidade no Instagram da dona. Agora, Tufão tem o seu próprio Instagram, Facebook e até a sua agência.

Instagram
Instagram

Pouco depois de o pelo branco de Tufão ter chegado às páginas da “Time” na qualidade de um dos animais mais influentes da internet (na altura tinha 14 mil seguidores no Facebook, onde tem o cargo de "Oficial do Governo"; agora tem quase 90 mil), Tufão tornou-se a nova contratação da agência portuguesa Glam.

Mesmo que o nome de Tufão não pareça dizer-lhe nada, é provável que já o tenha visto por aí. Como conta Vanessa Palma, da Glam, ao Expresso, "o Tufão já fez um anúncio para a marca de vernizes Inoeh, fez duas campanhas para os óculos de sol da Well’s, uma campanha de seguros Continente e alguns posts na sua página de Facebook, sempre para marcas e serviços para animais. Também desfilou no Portugal Fashion com a Raquel Strada".

Quanto a aparições na comunicação social, a lista parece infindável, de programas na RTP e na SIC ao Café da Manhã, da RFM, ou revistas como a Caras ou a E, do Expresso.

"O objetivo não é ganhar dinheiro com um cão", garante Vanessa Palma, que nos assegura que a Glam é "a primeira agência em Portugal a ter um cão como agenciado". Por isso, tenta-se que o Tufão só participe "nas campanhas que proporcionem as melhores condições logísticas e de conforto". E como o cão pode ser o melhor amigo do homem mas continua a ser um cão, "se o Tufão não colaborar de imediato, espera-se que ele tenha vontade".

Quando as coisas se tornam de loucos

Primeiro, o dono repara numa característica engraçada, como um traço físico invulgar, por exemplo. Depois mostra aos amigos e família, os primeiros fãs, que tiram fotografias e acham graça. Daí a partilhar as imagens em plataformas com mais alcance é um passo.

"Em dezembro de 2012, uma das fotografias ficou viral. E na mesma altura, o meu amigo David tinha feito uma T-shirt do seu gato e da BUB para os nossos amigos por diversão, por isso anunciei na foto viral que tínhamos T-shirts no blog, e pessoas de todo o mundo encomendaram. Uma das pessoas que encomendou a T-shirt trabalhava no Buzzfeed, e pouco depois de encomendar escreveu um artigo que se tornou viral. Fomos convidados para ir ao Good Morning America. Foi aqui que as coisas se tornaram de loucos". A história é relatada por Mike, dono da gata BUB, mas as oportunidades de ascender a verdadeiras estrelas das redes sociais não costumam variar muito – no caso de Bodhi, o cão que protagoniza as fotografias da conta de Instagram Menswear Dog, tudo aconteceu por acaso.

Quem o explica é o seu agente Patrick Leonard, que faz a ponte entre o Expresso e os verdadeiros donos de Bodhi, Yena e Dave: "Era um fim de semana chuvoso e estavávamos aborrecidos em casa, e achámos que seria engraçado vestir o cão com a roupa do Dave. Esperávamos que fugisse, mas não: ele sentou-se direito e sorriu para nós, como se soubesse quão bem ficava com aquelas roupas. Inspirou-nos para tirarmos as fotografias e nós partilhámo-las, esperando dar algumas gargalhadas".

Instagram
Instagram

Arrancaram muitas. O cão mais estiloso da internet conta agora com 252 mil seguidores no Instagram e patrocínios como o da marca de roupa de homem coreana Comodo Square, para não falar da geladaria australiana dedicada a si (o focinho de Bodhi está estampado no logótipo e no interior da loja). Para os donos, é tudo resultado de uma receita vencedora: "O Bodhi representa as duas coisas que as pessoas mais gostam de ver: cães e moda. Nós vestimo-lo com as melhores roupas de homens e ele combina com o outfit fazendo expressões maravilhosas".

Há muito que as fotografias de Bodhi deixaram de ser tiradas à socapa enquanto os donos tentam que o animal esteja quieto. "Nós funcionamos como um estúdio completo, em vez de apenas vestirmos um produto ao nosso cão para uma fotografia rápida. Isto faz dele uma personagem mais interessante e dá-nos fotografias óptimas".

"Gerir a conta é um trabalho a tempo inteiro. Publicamos fotografias pelo menos três vezes por semana, e cada uma requer uma sessão fotográfica. Bodhi senta-se e faz de modelo de cinco a dez minutos, mas pode levar horas a preparar a roupa e a sessão". Tudo porque as fotografias dos animais que somam milhares ou milhões de seguidores nas redes sociais podem parecer descontraídas e espontâneas, mas exigem muito trabalho e preparação, ou não estivessem eles, como diz Edwards, "a tomar o palco principal do marketing nas redes sociais".