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Cais do Sodré: a noite a caminho do rio

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O iminente fecho de espaços icónicos da noite do Cais do Sodré volta a colocar questão: vão os espaços de diversão noturna mover-se para junto do rio?

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

O Cais do Sodré passou de bairro abandonado e devoluto a meca da movida noturna da capital. O novo lifting passa por aquilo a que Gonçalo Riscado, dirigente da Associação Cais do Sodré, chama de “especulação imobiliária”. Surgem novos hotéis e novos prédios de habitação destinados a uma gama média-alta que a prazo afastarão dali o “ruído” da diversão noturna.

Aliás, “o novo projeto de regulamentação de horários convida os empresários a investirem mais na zona ribeirinha”, lembra ao Expresso o vereador Duarte Cordeiro. Devido aos problemas de ruído ambiente, que em parte se devem à concentração de pessoas na rua, a Câmara obrigou a maioria dos bares do Cais do Sodré a fecharem às 2h durante os dias de semana, podendo permanecer abertos mais uma hora ao fim de semana. Mas discotecas como o Jamaica têm licença até à 6h e este espaço com 45 anos é um dos que deverá continuar no local.

O convite a que os espaços de diversão noturna se mudem para a beira do Tejo não convence por enquanto. Segundo Fernando Pereira, sócio do Jamaica “os armazéns junto ao rio são espaços descaracterizados, com condições distintas das que existem na Rua Nova do Carvalho”. Para o empresário, levar ao abandono da movida no Cais do Sodré e transferi-la para uma espécie de parque de diversões externo é “condenar o bairro a ficar moribundo como a Baixa”.

Também Gonçalo Riscado, que além de dirigente da Associação Cais do Sodré é sócio do bar O Povo e do Musicbox, considera que “espaços com perto de meio século não se substituem, nem se mudam de sítio porque esta ‘patine’ não se cria noutro local”.

Em tempos, José Queirós Carvalho - sócio da Mainside e dono de espaços como a Pensão Amor e a Casa de Pasto, entre outros edifícios no Cais do Sodré - idealizou para o bairro lisboeta uma espécie de megaresort ou mega condomínio que concentrava habitação, hotelaria, restauração, espaços de divertimento e outros serviços. Inicialmente, a ideia não foi aceite pelo grupo imobiliário a quem fez a proposta, contou ao Expresso numa entrevista publicada na Revista em outubro de 2015. Mas com o desenvolvimento da movida do bairro, os investidores terão começado a mudar de ideias e a especulação imobiliária disparou.

Certo é que “as cidades evoluem e daqui a meia dúzia de anos o Cais do Sodré não será o que é hoje”, admite Gonçalo Riscado. Mas salienta: "Se retirarmos os conteúdos históricos da cidade, sejam os culturais ou os de entretenimento, deixamos de ter identidade e de ser interessantes para nós e para os turistas que nos visitam".