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Empresas gerem mal o talento feminino

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Relatório da consultora Mercer revela que embora haja cada vez mais mulheres em cargos de topo, esta tendência pode ser invertida pelo tratamento que elas recebem nas empresas. Em Portugal, os números mostram que ainda há um longo caminho a percorrer

Estamos em 2016, mas as notícias que nos chegam sobre a igualdade de género não são as melhores. Os últimos dados sobre as mulheres no mercado de trabalho são revelados pelo estudo anual "When Women Thrive", da consultora Mercer, e mostram que embora as mulheres marquem cada vez mais presença nos quadros superiores das empresas, outros erros que estão a ser cometidos podem revelar-se fatais para que a tendência se mantenha.

Vamos traduzir os números de forma clara: daqui a dez anos, se as políticas de emprego se mantiverem, a América Latina é a única região a nível global que vai atingir a paridade em todos os níveis, técnicos e superiores, das empresas.

Em 2025 o número de cargos executivos ocupados por mulheres, que atualmente se situa apenas nos 20% a nível global, vai crescer até aos 37%, mas na Europa deve ficar-se pelos 33%. No resto dos níveis de trabalho, a representação das mulheres também não atinge a paridade e em 2025 poderá situar-se globalmente nos 40%.

Promover é só o primeiro passo

O estudo aponta para que o número de mulheres em cargos de topo, que nos últimos anos tem crescido, comece a abrandar devido a erros que estão a ser cometidos agora e que têm a ver com a forma como o talento feminino é gerido. É que há um longo – e até agora desbravado – caminho que separa o recrutamento e promoção das mulheres da sua retenção dentro das empresas: embora as mulheres tenham 1,5 mais possibilidades de serem contratadas para funções executivas do que os homens, elas abandonam as funções de topo a uma velocidade 1,3 vezes superior, o que anula os ganhos obtidos durante os últimos anos.

Ao Expresso, a diretora da Mercer Portugal, Nélia Câmara, explica onde andamos a errar: "A forma de trabalho não se alterou. Um conselho de administração composto maioritariamente por homens não absorve, não ganha com a experiência e a diversidade e não se adapta. Em vez disso, uma mulher quase tem de ser masculina e adaptar-se".

Por isso, explica Nélia Câmara, sistemas como os de quotas, muito implementados a nível global e europeu seja na legislação ou dentro das próprias empresas, não chegam. "O ideal não seria termos quotas, porque são vistas como uma falta de performance e de mérito. Como medida isolada, não resolvem o problema; é preciso uma abordagem integrada". A conclusão é fácil: "Se não houver adaptação, não estamos a ganhar com esta diversidade".

Não há mulheres para suceder às líderes de hoje

Outra das conclusões do relatório vem confirmar que à medida que os níveis das carreiras vão subindo nas empresas, cada vez se encontram menos mulheres. Ao Expresso, Nélia Câmara confirma que embora haja desde o ano passado mais mulheres "em lugares de topo, mas também na direção de primeira linha" nas empresas portuguesas, o país continua a registar números baixos de liderança feminina, com apenas 14% dos cargos de topo a serem ocupados por mulheres (a nível global, o número cresce para 20%).

A presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, Fátima Duarte, adianta ao Expresso uma das razões que pode explicar estes números nos níveis mais elevados de carreira, já que existe "uma representação baixa de mulheres nos níveis mais elevados das carreiras, mormente em lugares de direção, cujo recrutamento é geralmente feito por escolha".

No entanto, Fátima Duarte relembra que em Portugal há processos em curso que "não têm, no geral, efeitos imediatos", como a resolução do Conselho de Ministros do ano passado que visa garantir que até 2018 os conselhos de administração das empresas cotadas em bolsa sejam compostos por pelo menos 30% de mulheres.

Mas o problema não reside apenas no topo, onde os números parecem estar a melhorar. A diretora da Mercer Portugal explica que apesar de os números parecerem "boas notícias", um dos problemas é precisamente o facto de o foco estar apenas nos níveis de carreira superiores: "Não se cria uma bolsa de talento feminina, e não há mulheres para suceder a estas mulheres dentro da empresa".

"Pay gap" continua por resolver

No caso português, por "questões culturais", há pelo menos motivos para celebrar uma das conclusões do estudo: é que em Portugal "as mulheres e os homens têm paridade na força de trabalho", enquanto a nível global continua a haver subrepresentação.

Não é de espantar: segundo o estudo da Mercer, apenas 57% das organizações e empresas – destas, a maioria situa-se nos Estados Unidos ou Canadá - refere que os seus líderes seniores estão envolvidos em iniciativas de diversidade e inclusão. Já a respeito da equidade salarial, continua a não haver boas notícias: na Europa apenas 28% das empresas oferecem processos formais a este respeito, e não há melhorias desde 2014 – um panorama negativo com que Portugal está alinhado, confirma Nélia Câmara.

Se dúvidas houvesse sobre as vantagens de incluir cada vez mais mulheres no mercado de trabalho, este estudo vem deitá-las por terra, esclarecendo que as mulheres têm características únicas e necessárias no mercado atual, incluindo a flexibilidade e capacidade de adaptação (presente em 39% delas, contra 20% dos homens), capacidade de gestão de equipas (43% das mulheres e 20% dos homens) e inteligência emocional (fator em que as mulheres vencem por 24% contra 5%).