Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Smartphones: e depois da quase perfeição?

  • 333

ESTÁ A VER? Visitantes analisam uma das novidades apresentadas na feira, o LG G5

TONI ALBIR/epa

Hoje é difícil construir um mau smartphone. Aliás, mesmo as empresas que não têm a estrutura necessária para fabricar acertam facilmente nas encomendas que fazem à China – embora, confesso, há empresas de montagem dos componentes (as tais que não desenham nem fabricam e só se preocupam com o marketing) que não acertam muito bem no binómio design-componentes

Este ano, no Mobile World Congress (a maior feira de telecomunicações da Europa, que decorreu em Barcelona a semana passada) comprovei, in loco, a boa qualidade dos dispositivos que vão chegar ao mercado este ano. Sim, não há smartphones maus. Os fabricantes (e as empresas de montagem dos componentes) atingiram um estado de Nirvana tal que começam agora, e bem, a experimentar. Estão a aproveitar um período de tranquilidade que advém da constatação de quais são os mínimos para fazer um telefone que vai receber o rótulo: “topo de gama”.

O desafio agora não é o de criar qualidade, isso já é fácil. A fasquia subiu para a disrupção. Por isso, vemos os fabricantes arriscar como fizeram no início. Como a Apple fez quando mudou o mundo (não, não estou a exagerar) ao revelar o iPhone, quando a Nokia colocou a primeira câmara num telefone ou quando a Blackberry trouxe o e-mail, definitivamente, para os terminais móveis. Aliás, há dispositivos que vieram antes do tempo. Os PDA aos quais faltavam as apps e a banda larga móvel são um excelente exemplo. Depois, há erros fatais. Um dos mais memoráveis é, certamente, a decisão que a Nokia tomou (ou que foi forçada a tomar) em não ir para o sistema operativo Android. Acredito que a empresa finlandesa ainda teria hoje um papel determinante no mercado dos dispositivos móveis caso tivesse sido comprada pela Google, e não pela Microsoft.

Mas regressemos às mais de 1900 empresas que rumaram a Barcelona para mostrar as suas novidades. O tal Nirvana de que vos falava há pouco deu origem a alguns conceitos realmente novos nos smartphones. O G5, da LG, é o primeiro telefone modular do mercado. O fabricante coreano antecipou-se ao Projeto Ara, da Google (pode ler mais AQUI http://www.projectara.com/) e apresentou um telefone ao qual é possível adicionar componentes.

Quer tirar fotos mais profissionais? Adicione um módulo só para esse efeito. E música? Quer melhor som? Junte um componente desenhado pela Bang & Olufsen. O G5 está muito bem desenhado e esta capacidade de ser artilhado vai, acredito, ser imitada por outros fabricantes. A resistência à água e as slots MicroSD (a possibilidade de aumentar a capacidade de armazenamento dos telefones) foram funcionalidades que voltaram em força.

E houve surpresas. A principal? Talvez o regresso da HP à linha da frente. A empresa norte-americana, que foi das primeiras a embarcar na mobilidade (sim, com PDA e com sistemas operativos para dispositivos móveis… antes do Android e do iOS dominarem o ecossistema) surpreendeu com o Elite X3, um telefone com ecrã de seis polegadas (grande, entenda-se) que usa o Windows 10 e a tecnologia Continuum – funcionalidade desenhada pela Microsoft que permite transformar um telemóvel num computador portátil tendo o Windows 10 como núcleo. Quer isto dizer que o novo dispositivo da HP quando colocado num acessório específico passa a mostrar o Ambiente de Trabalho que conhecemos do Windows. Um verdadeiro “dois em um” que representa mais uma (talvez a última) hipótese de a Microsoft conseguir ganhar relevância no mercado da mobilidade.

De resto, Barcelona foi dominada pela Realidade Virtual (RV). Os fabricantes abraçaram, de vez, as experiências imersivas e são muitos os que aproveitaram para mostrar novos óculos e mais conteúdos. Além da surpreendente apresentação da Samsung (sobre a qual escrevi a semana passada), o principal destaque vai para os VIVE, da HTC. Os óculos que permitem aquela que é a melhor experiência de Realidade Virtual do mercado chegam este ano às lojas a custar 799 dólares. A data ainda não está totalmente decidida, nem foi revelado a que mercados vai o dispositivo chegar primeiro.

No entanto, se tiver uma transição direta para euros, dar 800 euros por um sistema de entretimento que vai obrigar a mudar o computador lá de casa é um esforço demasiado elevado para a maioria dos consumidores que tenham no bolso um smartphone que já é capaz de entrar na Realidade Virtual por 20 euros – o preço de uns óculos cardboard, da Google (veja AQUI https://www.google.com/get/cardboard/get-cardboard/ ). Aliás, a estratégia dos fabricantes de telefones é diferente. A Samsung e a Alcatel, por exemplo, vão oferecer os óculos na compra de um novo terminal, topo de gama.

Os fabricantes deram mais um passo para completar o ecossistema da RV ao lançarem câmaras que permitem fazer vídeos em 360° e que, nas mãos dos utilizadores, vão ser o motor para a proliferação de conteúdos. E a questão dos conteúdos é central no possível sucesso da RV. Afinal, de que serve ter um televisor de Ultra Alta Definição se os filmes ainda não estão nesse formato? A analogia é a mesma para a RV. Por muito boa vontade que os fabricantes de telefones tenham, e têm, em fazer o push da Realidade Virtual, os utilizadores só vão embarcar se existirem conteúdos para ver. Caso contrário, os óculos não se justificam. E é esse o desafio que se segue aos produtores de jogos e de conteúdos de vídeo, que têm aqui uma grande oportunidade para ganhar dinheiro. Os fabricantes têm a parte mais fácil: continuar melhorar o desempenho dos terminais para que a experiência de visualização seja mais confortável e realista.

As pistas que o Mobile World Congress deixa este ano para a futura evolução do mercado das tecnologias móveis são muito boas. Além das duas que refiro (e que são as principais) foi reconfortante ver que os pagamentos digitais avançam a bom ritmo, que os wearables continuam a evoluir e que a próxima geração de comunicações móveis (o 5G) espreita ao fundo do túnel e que vai ser a estrada onde vai circular a Internet das Coisas.

Ao fazer um direto radiofónico para Portugal, perguntaram-me: “E depois do smartphone? Já se consegue ver em Barcelona qual o dispositivo que o vai substituir?” A minha resposta não podia ser mais assertiva: nada vai ganhar o lugar do “telemóvel” nos próximos anos. As grandes tendências tecnológicas dependem dele para a centralização da recolha da informação obtida pelos milhões de sensores que nos vão rodear. Sim, o smartphone vai evoluir, mas tão cedo não deixará de ser um retângulo com ecrã tátil para onde olhamos centenas de vezes ao dia.