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Embaixador dos EUA sobre “Spotlight”: “Chorava todas as noites depois de ouvir as vítimas”

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Bob Sherman, o embaixador dos EUA em Portugal, esteve envolvido, como advogado, no escândalo de abusos sexuais na Igreja que inspirou "O Caso Spotlight"

Ana Baião

Bob Sherman, o embaixador dos EUA em Portugal, negociou pessoalmente as indemnizações de 90 das vítimas de abusos sexuais por membros do clero que inspiraram o filme “O Caso Spotlight”. Depois, tentou bloquear as memórias de “pessoas e famílias destruídas” e resistiu a ver o filme que venceu o Oscar mais desejado, para o qual contribuiu. Esta sexta-feira decidiu finalmente conhecê-lo numa sessão privada em Lisboa

Bob Sherman, o embaixador dos Estados Unidos em Portugal, está sentado numa cadeira da sala VIP dos cinemas NOS Amoreiras, com uma lágrima tímida a brilhar-lhe nos olhos e a voz a sair entrecortada pela emoção. Sherman está aqui a convite do escritório de advogados de Pedro Rebelo de Sousa, irmão de Marcelo, o Presidente eleito, e amigo de longa data do americano, para ver, pela primeira vez, "O Caso Spotlight", que venceu esta semana o Oscar de Melhor Filme. O diplomata emociona-se porque esta história sobre a investigação jornalística a um escândalo de abusos sexuais por membros do clero em Boston é também um pouco dele. Enquanto advogado, ele representou quase uma centena de vítimas nas negociações com a Igreja e colaborou com a equipa do "Boston Globe" na denúncia do caso, um trabalho premiado com um Pulitzer e que viria a servir de argumento ao filme. Depois, vergado pelo fardo pesado das dilacerantes histórias que ouviu, quis arrumá-las numa gaveta da memória. Sem grande sucesso, percebe-se.

Sherman está aqui, admite, porque chegou a hora de "sair do seu esconderijo emocional". Veio ver o filme e falar da sua participação no caso perante uma sala composta por sócios do escritório de advogados, clientes e membros do corpo diplomático de alguns países. É Pedro Rebelo de Sousa, que rivaliza com o irmão no bronzeado, quem apresenta o ilustre convidado. Para que não restem dúvidas sobre a participação dele nesta história, lê um email que lhe foi enviado na manhã a seguir aos Oscars por Walter Robinson, o editor da equipa que investigou o escândalo. Merece ser reproduzido na íntegra:

"Em 2001, quando começámos a investigar o abuso sexual de crianças por padres católicos, fomos contra uma parede. Os responsáveis da Igreja não atendiam as nossas chamadas. As vítimas estavam relutantes em falar. Os padres que sabiam o que se tinha passado tinham medo de falar. Muitos advogados que tinham representado vítimas que fizeram acordos com a Igreja mantinham a boca fechada.

Mas quando telefonei ao Bob Sherman, ele ofereceu-se de imediato para ajudar. Ele e o seu sócio [Eric MacLeish] tinham representado muitas das vítimas uma década antes. Percebia como a Igreja transferia os padres abusadores de uma paróquia para outra e ajudou-nos a perceber como e porque é que isso acontecia. Sentiu que o problema era muito mais extenso do que os casos que a sua firma tinha gerido. Estava desejoso de nos ajudar a encontrar a verdade.

Ao longo de vários meses, o Bob ofereceu frequentemente a sua opinião e o seu aconselhamento sensato à medida que a nossa investigação revelava que dezenas de padres tinham abusado de centenas de crianças.

Quando o Globe começou a publicar as revelações chocantes em janeiro de 2002, centenas de vítimas contataram a Arquidiocese [de Boston] para denunciar os abusos que tinham sofrido. A Igreja virou-lhes as costas e recusou-se a ajudar. Então, o Bob e os seus sócios intervieram e representaram muitas das vítimas [quase 400]. Forçaram a Igreja a oferecer apoio psicológico e deram eles mesmo esse apoio na empresa deles. Apresentaram múltiplos processos contra a Igreja e forçaram-na a tornar públicos os registos de dezenas de padres [abusadores] - registos que provaram que o Cardeal Bernard Law e os seus subordinados tinham encoberto os crimes de muitos padres, colocando-os em novas paróquias sabendo que teriam acesso a crianças que não suspeitariam deles.

A ajuda do Bob Sherman ajudou a tornar possível e percetível a investigação da equipa Spotlight. No entanto, ele sempre resistiu ao reconhecimento público pelo papel que desempenhou, preferindo ao invés trabalhar discretamente para conseguir justiça para os sobreviventes de abusos horrendos".

Ana Baião

"NÃO QUERIA FAZER RESSURGIR ALGO QUE ESTAVA FECHADO CÁ DENTRO"

Esta é apenas a segunda vez que Sherman fala publicamente sobre o período mais marcante da sua vida. A primeira foi em janeiro à revista E, depois de Walter Robinson, que trata carinhosamente por Robby, ter contado a um jornalista do Expresso que o Embaixador dos EUA em Portugal tinha tido um importante papel na investigação da equipa Spotlight. É inevitável perguntar-lhe porque só agora decidiu ver o filme, com o qual aliás colaborou.

"Quando negociamos as indemnizações para as vítimas, em 2003, eu fiz a arbitragem de 90 casos, dois por dia. E chorei todos os dias. Não é exagero. Foi todos os dias", confessa com a voz embargada pela emoção. Quando acabou a última arbitragem, numa noite fria de dezembro, saiu para a rua e desabou. "Comecei a chorar histericamente. Percebi nessa altura o fardo emocional que aquela tragédia humana representava para mim, com tantas histórias de pessoas e de famílias desfeitas".

Mas o caso tinha terminado. Queria seguir em frente, apagar todas aquelas imagens da memória. Se, ao menos, fosse assim tão simples...

Cerca de uma década depois, recebeu uma chamada de Walter Robinson. Ficou a saber que estava a ser preparado um filme sobre o caso e que o realizador (Tom McCarthy) e um produtor queriam encontrar-se com ele. Acedeu, por respeito ao editor da equipa Spotlight. "Ele foi o verdadeiro herói, o filme não lhe faz justiça. Merece todos os elogios. É o exemplo perfeito do que um jornalista deve ser. Falei com eles porque acredito que este trabalho dos repórteres do Globe representa o melhor do jornalismo. Foram eles que montaram o puzzle da história".

Pedro Rebelo de Sousa, irmão do Presidente eleito, convidou o embaixador dos EUA para ver, pela primeira vez, "O Caso Spotlight" e falar da sua participação no processo

Pedro Rebelo de Sousa, irmão do Presidente eleito, convidou o embaixador dos EUA para ver, pela primeira vez, "O Caso Spotlight" e falar da sua participação no processo

Ana Baião

Sherman, McCarthy e o produtor falaram durante três horas no escritório do agora diplomata, amigo de Barak Obama. Quando lhe pediram que contasse um par de histórias de abusos, desatou a chorar de novo. "Percebi que isto ainda estava dentro de mim. Por isso, quando o Robby me mandou o trailer, não o vi e disse-lhe que provavelmente também não veria o filme. Não estava certo que não fizesse ressurgir algo que estava fechado cá dentro". Se agora aceitou este convite, foi porque achou que estava na hora de enfrentar estes fantasmas emocionais.

"A VIDA REAL FOI MUITO MAIS COMPLICADA"

Em conversa com a audiência no final do filme, o embaixador dos EUA em Portugal começou por alertar que, apesar de ter muitos pontos de contacto com a realidade, este "não é um relato histórico" do que aconteceu. "Há uma razão para ter ganho o Oscar de Melhor Filme e não de Melhor Documentário. Algumas das personagens são compostas, o que torna difícil retratar a complexidade da situação enfrentada por muitos na altura. A vida real foi muito mais complexa. Mas fico feliz por este filme fazer justiça a alguns verdadeiros heróis nesta história", disse.

O diplomata, que é judeu, quis também deixar claro que o caso nunca foi um ataque à Igreja Católica. "Tratou-se sim de trazer justiça para pessoas que eram os filhos, e em alguns casos as filhas, da Igreja. Foi sobre as falhas de homens. Não houve nenhuma instituição na história que alimentou mais gente e deu abrigo a mais pessoas do que a Igreja Católica".

Depois da resignação do Cardeal Law, responsável por encobrir muitos dos casos de abusos, o seu sucesso no cargo, Sean P. O'Malley, organizou uma missa especial para as vítimas do clero em Boston. Bob Sherman foi convidado a receber a benção do Cardeal, para o qual só tem elogios. Quando se aproximou dele, disse-lhe apenas: "Cardeal, preciso de toda a ajuda possível".

Leia a entrevista completa com o Embaixador dos EUA em Portugal esta segunda-feira no Expresso Diário

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