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Amamentar num congresso: sim ou não? Ou porque não?

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Uma mulher com uma bebé de 5 meses viu a sua entrada barrada no maior congresso mundial de tecnologia, o Mobile World Congress, em Barcelona. A sua presença era profissional e a bebé ainda mamava. O ato gerou uma onda de indignação

No continente mais envelhicdo de todos, a Europa, repete-se há décadas a lengalenga de ser vital aumentarmos a taxa de natalidade. Mas na hora da verdade, na altura de conciliar vida profissional e familiar, ou de facilitar a vida das famílias, os mesmos decisores assobiam para o lado, como se não estivessem a falar do mesmo tema. No Facebook e nas redes sociais, há um 'post' a pegar fogo desde finais de fevereiro. Partilhado mais de 18.000 vezes (no Twitter, debaixo do hashtag #MarinaEntraAlCongreso), fala de um casal que viu a sua entrada num congresso mundial em Barcelona barrado... por irem acompanhados pela sua bebé de 5 meses. O casal espanhol, composto por Francisco Hernandez-Marcos (que trabalhou na consultora McKinsey e se formou em Finança na London Business School) e Esther Yuste, diretora de estratégia e parcerias numa empresa espanhola de Business Intelligence (com um MBA na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, e experiência profissional em multinacionais como a Accenture, JP Morgan e McKinsey), viram-lhes negada a entrada por quererem levar a filha de 5 meses, Marina. Quando explicaram que estavam ali em trabalho, e que tinham levado a filha porque ainda era amamentada, uma supervisora chegou a acusar Esther de ter um "comportamento pouco profissional" (já agora, fica o lembrete: a Organização Mundial de Saúde recomenda a amamentação exclusiva dos bebés até aos seis meses).

O marido de Esther, Marcos, decidiu esperar à entrada do recinto com a bebé, para que a mulher pudesse ir à sua reunião de trabalho. Uma pessoa ligada à organização foi ter com ele e num tom pouco simpático, relata, disse-lhe que não podia ficar ali com a bebé. Na altura, Marcos não reagiu, mas hoje arrepende-se de não ter feito queixa à polícia, que se encontrava por perto. A organização do Mobile World Congress defende-se explicando que era necessário pedir autorização prévia para entrar com menores de 16 anos, e a GSMA, associação que regula a indústria móvel mundial, pediu desculpa ao casal pelos problemas ocorridos. "Apesar de se tratar de um evento orientado para os negócios, temos consciência que algumas famílias possam necessitar de apoio no decurso do mesmo", escreveram.

Mas este não é um ato isolado. Na véspera, Caroline Ragot, responsável de Estratégia de Telemóveis na Schibsted Spain e cofundadora da Women in Mobile, viu a sua entrada barrada às portas do 4YFN, um congresso paralelo ao MWC, dedicado a start-ups, em Barcelona, por estar com a filha bebé. Maria Berruezo, cofundadora de uma aplicação dedicada à amamentação, a Lactapp, que responde a mais de 2300 dúvidas relacionadas com a temática, passou três dias nessa feira. E garante: nesse tempo, não viu uma única mulher de bebé ao colo na assistência.

Depois disto, Francisco Hernandez Marcos contou a sua história no seu blogue, que teve mais de 100.000 visualizações. A atenção do público foi chamada para que episódios como este não se repitam no futuro. Não basta apregoar a necessidade de uma suposta política de natalidade - é preciso passar do discurso à prática e criar condições reais na vida das famílias (reais), para que estas consigam manter a família e o trabalho em pratos equilibrados.