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Rali das tascas em versão maratona

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Tiago Pais escreveu um livro sobre as 50 melhores tascas de Lisboa. Interessado...?

Katya Delimbeuf (texto), Gonçalo Santos (fotos)

BOM E BARATO Na definição do autor, tascas são estabelecimentos com comida caseira, tradicional, a preços “honestos”

BOM E BARATO Na definição do autor, tascas são estabelecimentos com comida caseira, tradicional, a preços “honestos”

GONÇALO SANTOS

No próximo dia 9, os comensais que gostam de molhar o pão no ovo ou no molho no fim da refeição sem que ninguém fique a olhar para eles têm razões para ficar satisfeitos. Vai ser lançado um livro, da autoria de Tiago Pais e com fotografias de Gonçalo Santos, que sugere as 50 melhores tascas onde comer em Lisboa. O autor, um jornalista de 31 anos que trabalhou na "Time Out" seis anos e está no "Observador" há um, garante que não engordou muito a trabalhar para a obra, mas confessa que o colesterol, esse sim, ressentiu-se.

A ideia do livro não era de agora – a sua experiência profissional guiou-o sempre para as viagens do palato (até a sua candidatura à "Time Out" foi um texto sobre bolo de chocolate...). Quando saiu da publicação, em 2015, decidiu, com a editora Zest, arregaçar as mangas e pôr as mãos na massa – ou o guardanapo ao pescoço. Das 100 tascas que conhecia bem, selecionou e recomendou as 50 melhores, com as suas especificidades e idiossincrasias.

AUTOR. Tiago Pais é jornalista especializado na área da gastronomia. Na hora os talheres, troca os restaurantes com estrela Michelin por um bom tasco onde possa lamber os dedos

AUTOR. Tiago Pais é jornalista especializado na área da gastronomia. Na hora os talheres, troca os restaurantes com estrela Michelin por um bom tasco onde possa lamber os dedos

Gonçalo Santos

Para ele, tasca não tem necessariamente de ser um estabelecimento “em que o dono está a grelhar bifes na montra, ou em que há ovos cozidos com sal na vitrina”. Tiago quis falar de “restaurantes económicos, com comida tradicional e com muita qualidade, por um preço acessível”. Ou “honesto”, como gosta de dizer. Isto significa um valor médio de €10, €11, que inclui refeição completa – com prato, bebida, café e sobremesa.
Especializado na área da gastronomia, Tiago tem acesso aos melhores restaurantes do país, onde trabalham os melhores chefes, e costuma sentar-se a mesas com “três conjuntos de talheres”. Tiago, porém, garante que nunca tem tanto prazer como “no final de uma refeição num tasco”, onde acaba a lamber os dedos ou a roer os ossos do entrecosto.

Informalidade bem temperada

Este livro nasce de um gosto pessoal por tascas e pelo seu ambiente descontraído e informal. “Tenho um gosto particular pela cozinha tradicional, que virá provavelmente dos pratos que a minha avó fazia, como língua estufada ou arroz com os miúdos do cabrito, com pulmões e tudo. Para outras pessoas, estes pratos podem ser estranhos, mas eu gostava muito.” Também gosta da informalidade do ambiente numa tasca, de se poder “meter” com as pessoas que estão a servir. Vai mais longe: “Gosto de donos de tasca carrancudos, quando são competentes e isso não influencia o serviço”. Finalmente, gosta de “comida bem temperada”. Tudo isto tornava-o um excelente candidato para esta prova.

SEGREDOS. Na grelha e nos tachos, como nos ingredientes escolhidos, encontram-se alguns dos segredos das melhores tascas lisboetas

SEGREDOS. Na grelha e nos tachos, como nos ingredientes escolhidos, encontram-se alguns dos segredos das melhores tascas lisboetas

gonçalo santos

Palitos de Ouro

E o que tem que ter um “tasco” que se preze? “Toalhas e guardanapos de papel, pratos do dia, barulho, copos sem pé, e de preferência, uma cozinheira avantajada, que se perceba que gosta de comer.” Tiago acredita que as tascas deveriam fazer parte do património da cidade, porque “são parte da sua identidade”, e muitas correm o risco de desaparecer - não por falta de público, mas por falta de dinheiro que as mantenha. A maioria são “negócios familiares, que passam de pais para filhos, com donos nos seus 60, 70 anos, que estão no negócio há muito tempo, às vezes há mais de três décadas”.

Das 50 tascas eleitas com as melhores de Lisboa, Tiago Pais premiou as melhores sete, segundo os seus critérios. Os 7 “Palitos d'Ouro” que destaca são: a Adega da Bairrada, em Alvalade (especialidades: enchidos com grelos e bacalhau à Braz); o Stop do Bairro, em Campo de Ourique (especialidades: arroz de cabidela e arroz de tamboril); o Maçã Verde, em Sta Apolónia (especialidades: peixe grelhado e choco frito); a Imperial de Campo de Ourique, especializado em comida minhota - Cabrito da Serra Amarela, no Gerês, lampreia e sável durante a época; o Zé Pinto, em Benfica (especialidades: pernil no forno e entrecosto com arroz de feijão); o Zé da Mouraria, conhecido pelo bacalhau; e o Zapato, perto de S. Bento, que tem uns “filetes de polvo com açorda que são um mimo. A simpatia não abunda mas a cozinha compensa. E muito”, considera.

TEMPERO APURADO. Nas tascas escolhidas por Tiago Pais, os pratos do dia atraem normalmente clientes específicos

TEMPERO APURADO. Nas tascas escolhidas por Tiago Pais, os pratos do dia atraem normalmente clientes específicos

gonçalo santos

No capítulo das sobremesas, Tiago destaca “o arroz-doce da Adega do Tagarro” (Bairro Alto) ou a tarte de chocolate do Forninho Saloio (Travessa das Palmeiras).
O livro conta ainda com um pormenor engraçado, digno do tema: um encarte com um mapa das 50 melhores tascas, desenhado numa toalha em papel – que poderá dobrar e guardar no bolso ou na mala, para servir de guia quando a fome aperta.

ONDE COMER O QUÊ

Lançámos um desafio ao autor, sobre qual a melhor tasca para determinado prato, e este foi o resultado:

Lombinhos de Porco - Restaurante O Abrigo, nos Anjos
Dobrada - Tasca do Gordo, em Pedrouços
Cozido à Portuguesa - Mariposa, em Campolide, ou Stop do Bairro, em Campo de Ourique
Carne de porco à Alentejana - Escadinhas da Cruz da Pedra, em Benfica
Bacalhau à Brás (o prato preferido de Tiago) - Antiga Casa Faz Frio, no Príncipe Real
Bolo de chocolate - Stop do Bairro (É caseiro, mas “feito por uma senhora de fora, que lá vai entregar”)