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Lesados do Banif dizem que foram vítima de “um roubo descarado”

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Marta Caires

Os lesados do Banif terão perdido à volta de 330 milhões de euros e o número ainda é provisório. Esta sexta-feira voltaram à baixa do Funchal para um protesto que acabou à porta do Banco de Portugal a pedir o dinheiro perdido em ações e obrigações

Marta Caires

Jornalista

Trouxeram cartazes e partilharam as histórias à frente da sede do Santander no Funchal, enquanto esperavam pela hora da manifestação. Da África do Sul ou da Venezuela, das muitas horas de trabalho, da idade que já não dá para pensar em começar do novo e o mesmo fim: o dinheiro sumiu-se nas ações e obrigações do Banif. A esperança é agora a Associação de Lesados do Banif, acabada de formar, onde muitos já se inscreveram.

Conceição Fernandes, 61 anos, 47 como emigrante na Venezuela, foi dos muitos clientes que fizeram fila para levantar o dinheiro ainda em Dezembro e assim que se soube da situação do banco. “Levantei os dólares que tinha, mas as obrigações ficaram lá. Quanto? Olhe dava bem para um apartamento”. Agora a única esperança para reaver o dinheiro é a associação, onde já se inscreveu. “Vamos lutar, é a única coisa que podemos fazer agora”.

Um eventual regresso à Venezuela está posto de parte. “Há muita insegurança, não há sequer comida e o meu marido já não pode trabalhar, fez uma operação de coração aberto”. Conceição limpa as lágrimas ao lembrar-se dos anos e anos de trabalho nos restaurantes que tinham em Los Teques, na área de Caracas. “Era de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Tudo o dinheiro que se amealhava era para mandar para cá a pensar numa reforma folgada”.

Marta Caires

“Queremos o nosso dinheiro!”

“Isto não tem outro nome: foi um roubo descarado das autoridades políticas e financeiras aos clientes do Banif”. Sentada num banco, Maria, gestora, venezuelana, explica que perdeu mais de 250 mil euros, o resultado de oito anos de trabalho. “O dinheiro investido desapareceu, mas o empréstimo para a casa não, esse o banco não esquece e cobra a prestação”. O dinheiro que a família tinha no banco era para lançar um negócio.

“O meu marido, que é lusodescendente, tem um curso de oceanografia feito na Venezuela e a única forma de ser reconhecido em Portugal foi fazer um mestrado. Enquanto não o concluía, decidimos investir o dinheiro de modo a arranjar capital para lançar uma empresa, que deveria ser nessa área de oceanografia ou aquacultura”. O dinheiro desapareceu, o mestrado ainda não acabou e agora o apartamento está à venda, a casa da sogra também e a família equaciona a possibilidade de deixar a Madeira.

Por enquanto, coloca as esperanças na Associação de Lesados do Banif e participa na manifestação que atravessa a baixa do Funchal com cartazes a pedir o dinheiro e a comparar o Banco de Portugal a “ladrões e corruptos”. Pacíficos, são menos do que na primeira manifestação, a 15 de Fevereiro, juntam-se à porta da sede do Banco de Portugal, levantam os cartazes e repetem as palavras de ordem: “queremos o nosso dinheiro!”

Marta Caires

Tia vacinada

À frente de todos, está Jaime Alves, o presidente da Associação, que de megafone em punho convoca todos para uma reunião da associação. À cautela, entre os que estão ali, há quem faça perguntas e queira saber exactamente o que é associação, que compromissos representa. Lucília Jardim, ex-emigrante na África do Sul, pede os formulários, mas avisa que não vai assinar nada ainda. “Eu tenho que mostrar primeiro à minha sobrinha que é deputada na Assembleia Legislativa. Ela já me avisou: a tia não assina nada sem me mostrar antes”.

E Lucília está vacinada, foi assim, por confiar no que lhe diziam, que meteu o dinheiro em obrigações. “O gestor de conta telefonou-me no ano passado a dizer que o juro era mais alto, que devia investir em obrigações. Fiquei a saber agora que desde 2014 que não pagavam juros a essas obrigações. Já viu isto? O meu marido já avisou o irmão que está na África do Sul para não mandar o dinheiro para aqui, para esta desgraça”.

Segundo Jaime Alves, entre accionistas e obrigacionistas, os lesados do Banif terão perdido 330 milhões e este será ainda um valor provisório. Estes clientes são, conforme explicou, idosos, pessoas que perderam as poupanças de uma vida apenas porque confiaram no que disseram os responsáveis políticos e nos gestores de conta já que o Banif era um banco de proximidade. “Os responsáveis políticos portugueses, sempre que iam em visita às comunidades no estrangeiro, faziam apelos ao investimento em Portugal. Onde estão agora, o que têm a dizer às pessoas que seguiram o conselho e perderam tudo?”