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Jornal de Angola ataca justiça portuguesa. “Precisam de urgente tratamento psicanalítico”

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GETTY IMAGES

Editorial do jornal, intitulado “Vingança do Colono”, lança críticas duras às autoridades portuguesas. Em causa está a Operação Fizz, que liga o vice de Angola a um caso de corrupção

“Depois dos artifícios fracassados da desestabilização militar e da guerra, depois de perderem no campo das eleições e depois de falharem no domínio bancário e económico, os responsáveis da antiga metrópole colonial manipulam agora os corredores da justiça para tentarem conseguir os seus intentos de neocolonização.” Assim começa o editorial desta sexta-feira do "Jornal de Angola", titulado "Vingança de colono" e mais uma vez dedicado a Portugal pelos piores motivos.

Desta feita, o texto critica a investigação que implica o vice-presidente de Angola, Manuel Vicente, num caso de corrupção por suspeitas de que o governante tenha subornado um procurador português para encerrar uma investigação que visava perceber a origem do dinheiro usado por si para comprar um apartamento no Estoril-Sol Residence. Para o "Jornal de Angola", tudo se resume a uma forma de "atentar contra a honra, o bom nome, a imagem e a reputação do vice-presidente de Angola, procurando envolvê-lo em mais um escândalo de corrupção".

"Por cada novo escândalo e crise que rebentam em Portugal, a atitude quase pavloviana que se instalou na sociedade portuguesa (…) de estabelecerem uma ligação directa de Angola aos problemas que surgem parece doentia, fruto de recalcamentos não curados e a precisar de urgente tratamento psicanalítico", prossegue o jornal. O editorial refere ainda a "falta de pudor", o "sentimento egoísta e eurocêntrico" e o "revanchismo luso" que diz estarem na origem do caso, criticando "o sistema generalizado de clientelismo e no tipo de relações morais e culturais historicamente implantadas na vida portuguesa".

Sobre a cobertura mediática que tem sido feita sobre o caso, conhecido como "Operação Fizz", o jornal escreve que "ao director-adjunto do influente semanário português ‘Expresso’ Nicolau Santos, um angolano que nunca fez nada de especialmente construtivo pelo país onde nasceu (…) nunca o vimos levantar a sua voz para criticar nos jornais que dirigiu e onde trabalhou a injustiça que foi o Estado português suspender o pagamento a milhares de angolanos que fizeram descontos durante muitos anos de serviço e deixaram de receber as suas pensões apenas por não conseguirem provar a sua 'ascendência portuguesa'".

"Percebe-se que em Portugal é muito mais fácil exigir direitos do que respeitar os dos outros", conclui o jornal, referindo que Manuel Vicente está a mostrar uma "reação de grande dignidade face à nova campanha que contra si foi arremessada pela comunicação social portuguesa". Apesar de não ser a primeira vez que o jornal critica as autoridades portuguesas, esta reação surpreende pela demora a surgir, já que o caso eclodiu há cerca de duas semanas.

Vice não esclarece como vai cooperar

Esta quarta-feira, o vice-presidente de Angola enviou um comunicado às redações em que negava ter corrompido o procurador Orlando Figueira e garantia estar "totalmente disponível para o esclarecimento dos factos", mas não explicava se aceitava vir a Portugal para ser interrogado.

No âmbito da Operação Fizz, o antigo procurador do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) Orlando Figueira, que foi responsável até 2012 por investigar algumas figuras do regime angolano, foi detido na semana passada (tendo depois ficado em prisão preventiva) por indícios de corrupção passiva "na forma agravada". O magistrado terá recebido duas transferências bancárias no valor de 300 mil euros a 16 de janeiro de 2012, o mesmo dia em que arquivou um inquérito-crime sobre branqueamento de capitais relacionado com Manuel Vicente.

É a primeira vez na história do DCIAP, um departamento de elite do Ministério Público em Portugal dedicado às investigações mais complexas de crimes de colarinho branco e de criminalidade organizada, que um dos seus elementos é alvo de um processo-crime. E é também a primeira vez que um membro do governo de Angola é suspeito de corrupção em Portugal.