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Cancro aumenta mas é menos letal

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Luís Barra

Número de sobreviventes é cada vez maior, incluindo em dois dos tumores mais perigosos. Direção-Geral da Saúde apresenta esta quinta-feira os números mais atuais sobre a doença e cujas conclusões o Expresso já tinha antecipado num trabalho de 6 de fevereiro e que agora republicamos

Chegou um momento por que doentes, famílias e médicos esperavam: há mais portugueses a sobreviver ao cancro. Os dados nacionais mais recentes, de 2014, mostram que o número de novos casos aumentou mais do que o de mortos, indicando que a doença está menos letal. Nos tumores malignos do cólon e do pulmão, as vítimas mortais até foram menos.

A doença matou 26.158 pessoas em Portugal, apenas mais 238 do que em 2013. Os dados, da Direção-Geral da Saúde (DGS) e do Instituto Nacional de Estatística, mostram ainda que os homens continuam a ser mais vulneráveis e que os cancros com o maior número de vítimas mortais mantêm-se: mama, próstata, cólon e pulmão. E também aqui há surpresas encorajadoras.

"As subidas são as esperadas e não correspondem a aumentos da taxa de letalidade, porque a incidência também cresceu. A mortalidade aumentou menos do que a incidência, portanto temos mais novos casos de cancro e menos mortos", explica Nuno Miranda, diretor do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas da DGS. A boa notícia poderá ser explicada por vários fatores. "Tratamentos melhores é uma das hipóteses e mais diagnósticos precoces outra possibi- lidade, mas que ainda é preciso demonstrar", afirma.

Apesar de terem tirado a vida a mais homens e mulheres em 2014, as neoplasias da próstata e da mama, respetivamente, não foram tão mortíferas como em anos anteriores, por exemplo em 2012. O cancro da próstata matou 1786 homens em 2014, mais 69 do que no ano anterior, e o da mama 1681 mulheres, mais 22. Resultados melhores são apontados para o cólon e pulmão. Os óbitos por carcinoma do pulmão foram menos 83, num total de 3927, e os do cólon menos 38 (2687 no ano).

"Estes números são boas notícias. Cada vez está mais disseminada a perceção de que o diagnóstico de cancro não significa uma morte anunciada", afirma Manuel Sobrinho Simões, diretor do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto. O investigador salienta, ainda assim, que "continua a haver cerca de 40% de casos em que não conseguimos controlar a doença oncológica".

Celebrado a 4 de fevereiro, o Dia Mundial do Cancro teve este ano a vitória contra a doença como uma das mensagens centrais. "Quisemos mostrar a face da sobrevivência, porque as pessoas ainda têm medo do diagnóstico. Tenho mulheres que chegam já com tumores da mama em estado avançado porque mesmo quando já viam a lesão arrastaram-na com medo do que estava para vir", conta a presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO), Gabriela Sousa.

A Liga Portuguesa Contra o Cancro entregou no Parlamento 25 mil assinaturas para o país ter equidade no rastreio do cancro da mama. "O melhor é prevenir, sobretudo com o diagnóstico de lesões pré-malignas como os pólipos do cólon e reto", avisa Gabriela Sousa. Ao fazê-lo, "estamos a intercetar o curso da doença". Manuel Sobrinho Simões sublinha que "do lado da prevenção os progressos têm sido substanciais e é fundamental continuar a apostar nesta via, que tem sobretudo a ver com hábitos de vida e comportamentos, assim como com a utilização de técnicas sensíveis de rastreio".

Do lado do tratamento, há igualmente grandes progressos, mas também alguns desvios no caminho. "Houve grandes avanços terapêuticos, sobretudo nestas patologias referidas, e temos recuperado os tempos de espera, mas no campo da cirurgia e da inovação estamos atrás dos outros países", critica Gabriela Sousa.

Inovação demorada

"O Estado demora a decidir a comparticipação das inovações, que embora não sendo fármacos curativos dão qualidade de vida, e o acesso à cirurgia está muito dependente da disponibilidade dos meios técnicos e humanos, nos últimos tempos mais limitados pelas razões que todos conhecemos." A responsável pela SPO admite que a melhoria no acesso não implica gastar mais.

"Hoje, a maior parte da quimioterapia é feita com genéricos e uma parte dessa poupança poderia ser aplicada em mais inovação." Além disso, "gostaríamos que todos os casos fossem rastreados, que os doentes detetados tivessem qualidade de vida e que nas situações avançadas houvesse acesso a terapêuticas inovadoras, capazes de proporcionar menos tempo de internamento ou menos efeitos secundários".

Um dos exemplos de inovação é a imunoterapia - que estimula o sistema imunitário do próprio doente para travar as células cancerígenas. "Tem vindo a ganhar peso com novos medicamentos, muito caros, e com um papel relevante na terapêutica", diz Nuno Miranda.

O diretor da estratégia oncológica é cauteloso sobre a inovação. "Há anos que utilizamos terapêuticas para estimular o sistema imunitário. A primeira arma de imuno-oncologia foi a vacina BCG, administrada a doentes com cancro da bexiga." Manuel Sobrinho Simões é da mesma opinião: "Para já, a imunoterapia está a ser utilizada com sucesso em algumas situações de cancro avançado."

A sobrevivência de um número maior de doentes não impede, no entanto, que a doença seja uma ameaça cada vez mais presente. Os especialistas são unânimes no prognóstico de que dentro de poucos anos cerca de metade da população terá um tumor maligno.

A previsão sobre a evolução do cancro dá já vários sinais, por exemplo ao estar a aproximar-se da primeira causa de morte no país: as doenças cérebro-cardiovasculares, como o AVC e o enfarte. "O cancro está a uma distância de cerca de 5%. A mortalidade por doenças cérebro-cardiovasculares em 2014 foram acima dos 32 mil óbitos", adianta o médico Nuno Miranda.

[Texto publicado no Expresso de 6 de fevereiro de 2016]