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Vice de Angola disponível para esclarecer suspeitas de corrupção. Só não diz como

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Manuel Vicente enviou um comunicado às redações a negar ter corrompido o procurador Orlando Figueira e garante estar “totalmente disponível” para o esclarecimento dos factos. Só não explica se aceitar vir a Portugal para ser interrogado

Rui Gustavo

Rui Gustavo

Editor de Sociedade

O vice-presidente de Angola quebrou o silêncio. E escreveu um comunicado enviado à redação do Expresso pelas 19h30. Manuel Vicente começa por negar ter corrompido o ex-procurador Orlando Figueira, que está preso preventivamente. "Sou completamente alheio à contratação de um magistrado do MP português para funções no sector privado", "bem como a qualquer pagamento de que se diz ter beneficiado".

Manuel Vicente garante igualmente que a empresa que pagou mais de 300 mil euros a Orlando Figueira, a Primagest, "não era nem nunca foi subsidiária da Sonangol" (o ex-procurador foi trabalhar para o BCP, cujo maior acionista é a Sonangol, depois de ter tirado uma licença de longa duração). O atual vice de Angola era, à data dos factos, CEO da petrolífera angolana.

Apesar de se mostrar "totalmente disponível para o esclarecimento dos factos na parte em que me dizem respeito", o governante angolano não esclarece se está disposto a vir a Portugal para ser ouvido pelas autoridades e eventualmente ser constituido arguido por corrupção ativa.

O procurador Orlando Figueira foi preso na semana passada pela Unidade anticorrupção da PJ. É suspeito de ter recebido 305 mil euros em luvas de Manuel Vicente para arquivar rapidamente um processo em que o vice de Angola era suspeito de branqueamento de capitais. "Ao que sei uma simples averiguação de origem de fundos relativos à compra de um imóvel", argumenta Manuel Vicente. O advogado que o representou nesse caso, Paulo Blanco, também foi constituído arguido.

Depois de ter sido ouvido por um juiz de instrução criminal, Orlando Figueira ficou em prisão preventiva na cadeia de Évora. É a primeira vez que um magistrado é preso por suspeitas de corrupção e que um governante de Angola é investigado pelos mesmos motivos.

O COMUNICADO DE MANUEL VICENTE NA ÍNTEGRA

Têm estado a ser veiculadas pela comunicação social notícias dando conta do meu suposto envolvimento em factos que estarão a ser objecto de uma investigação conhecida por “Operação Fizz”, conduzida pelas autoridades judiciárias portuguesas.

Desconheço se o veiculado pela comunicação social corresponde ou não àquilo que estará a ser efectivamente investigado. Porém, os relatos apresentados por diversos órgãos de comunicação a meu respeito, para além de não correspon­derem à verdade, atentam gravemente contra o meu bom nome, a minha honra, imagem e reputação.

Na verdade, sou completamente alheio, nomeadamente, à contratação de um magistrado do Ministério Público português para funções no sector privado, bem como a qualquer pagamento de que se diz ter beneficiado, conforme relatos da comunicação social, alegadamente por uma sociedade com a qual eu não tinha nenhuma espécie de relação, e que não era nem nunca foi subsidiária da Sonangol.

Quanto ao processo arquivado, ao que sei uma simples averiguação de origem de fundos relativos à compra de um imóvel, confiei a minha representação a um advogado, o qual apresentou comprovação cabal da origem lícita dos fundos, com o que o processo não poderia deixar de ter sido arquivado — comprovação essa que, se necessário, poderá ser renovada.

O envolvimento do meu nome na investigação ora em curso, não tem, pois, qualquer fundamento; não obstante, estou totalmente disponível para o esclarecimento dos factos na parte em que me dizem respeito, de modo a pôr termo a qualquer tipo de suspeições, e, com certeza, tudo farei para que sejam devidamente reparados os graves