Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Turismo nas cidades: problema ou oportunidade

  • 333

O geógrafo do Porto, Álvaro Domingues, diz que “o turismo é uma máquina de transformação urbana”

Porto e Lisboa vivem tempos de euforia em torno do turismo, com o surgimento de inúmeras atividades ligadas à hotelaria, transportes, restauração, lazer, cultura e serviços, e hordas de cidadãos estrangeiros que demandam os portos e os aeroportos das duas principais cidades portuguesas. Uma Grande Reportagem para ver esta quarta-feira no “Jornal da Noite” da SIC

Carlos Rico

Porto e Lisboa vivem tempos de euforia em torno do turismo, com o despontar de inúmeras atividades ligadas à hotelaria, transportes, restauração, lazer, cultura e serviços, e hordas de cidadãos estrangeiros que demandam os portos e os aeroportos das duas principais cidades portuguesas.

O modelo de desenvolvimento do sector levanta sérias reticências à investigadora Raquel Varela, do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa. Já Álvaro Domingues, docente na Faculdade de Arquitetura do Porto, acredita que são os turistas e os chamados “city users” que garantem a prospriedade das cidades.

Para o geógrafo do Porto, “o turismo é uma máquina de transformação urbana e é bom que se perceba quais são as várias dimensões dessa transformação, seja no mercado imobiliário, seja no espaço público, seja na revalorização de determinadas áreas”.

Em entrevista à Grande Reportagem, que a SIC emite esta quarta-feira, Álvaro Domingues não se mostra particularmente preocupado com o processo de descaracterização da Baixa do Porto, cada vez mais ocupada por hotéis, hostels, autocarros turísticos e tuk-tuks. “Aqui há uns anos só se falava em desgraças, ruínas e desertificação da Baixa; de repente, surgem vozes muito críticas a achar que há uma overdose de visitantes e que o Porto se está a transformar numa Disneylândia. Nem tanto ao mar nem tanto à terra”, conclui o docente.

Olhando para o que se passa em Lisboa, Raquel Varela tem uma visão diferente da do geógrafo portuense. Acredita que a capital vive um processo de gentrificação (termo que designa a valorização de determinada zona urbana com o consequente afastamento dos habitantes locais) irreversível “com ruas inteiras da zona da Madragoa, Mouraria, Bica e Alfama que neste momento são hostels e, portanto, os turistas veem outros turistas, deixaram de ver pessoas residentes nos locais”.

No ensaio “Para onde vai Portugal?”, lançado em maio do ano passado, a historiadora reflete sobre o modelo económico em que assenta o turismo das nossas cidades. É um modelo “perigoso”, diz, porque assenta na debilidade económica dos portugueses.

“Já que os de cá não têm dinheiro para comprar, vamos vender isto tudo aos de fora, seja na forma de quartos de três dias, seja na forma de vistos gold. Parece-me um erro estratégico”, declara Raquel Varela.

A investigadora mostra-se também preocupada com o empobrecimento cultural inerente à turistificação dos lugares. “Viajo, por motivos profissionais, por diferentes cidades da Europa e verifico que as lojas são todas iguais, entro nos táxis e a música é a mesma, a comida é idêntica em todo o lado, as pessoas vestem-se da mesma maneira”, lamenta.

Mais otimista, Álvaro Domingues acredita que é possível oferecer a quem nos visita aquilo que designa por “encantamento”, isto é, a capacidade de envolver o turista numa história que “despolete o interesse e a magia de um determinado momento ou experiência”. E conclui: “O Porto tem uma matéria-prima fabulosa para isso!”