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A luta olímpica de Yousif

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João Lima

Atleta de taekwondo chegou há dois meses a Portugal como refugiado, depois de o genocídio do Darfur lhe ter matado a família e o sonho desportivo. Em Sintra, luta por um lugar nos Jogos do Rio de Janeiro

“Pus na minha cabeça um sonho grande. Queria ser campeão. Mas no Sudão os sonhos existem para serem destruídos. Só se pensa em matar. Vi muita morte. Mas quando treinava ou competia não havia mais nada. O taekwondo era, é, tudo para mim. É o sangue que me corre nas veias”. E Yousif Khatir mostra as veias sob a pele escura. Sudanês muçulmano do Darfur, 30 anos, chegou há pouco mais de dois meses a Portugal, a 17 de dezembro, integrado no primeiro grupo de requerentes de asilo recolocados pela União Europeia.

“Fui a muitos campeonatos, à Coreia do Sul, Líbano, Nigéria. Cheguei a cinto negro, 1.º dan. Fui dirigente e treinador. Perdi tudo. Por mais pontapés ou socos que desse, o meu sonho não avançava, ia para longe, mas em vez de desistir corri atrás. Fugi do meu país, atravessei a Líbia, foi tão duro, passei o mar, sem colete, nove horas para cima para baixo, para cima para baixo”. E os braços magros, secos, para cima e para baixo, a simular os picos das ondas que enfrentou com a mulher Hmenot, 19 anos, cristã da Eritreia, e duas primas.

“No barco éramos 55, não cabia mais ninguém. Havia medo. Tive medo. Quando vimos terra era uma ilha, Lampedusa, em Itália. Estivemos lá treze dias. Estávamos todos doentes, a pele cheia de borbulhas. Deram-nos vacinas, fizeram muitas perguntas e um dia na Sicília os senhores da EASO [Agência Europeia para o Asilo] falaram-me de ir para Portugal. Disse logo que sim. Se o Cristiano Ronaldo é português e conseguiu ser o melhor jogador do mundo, eu também vou para Portugal e vou ser campeão.”

Yousif e a família foram acolhidos num andar na linha de Sintra, com o apoio do Conselho Português para os Refugiados (CPR). “Desde o primeiro momento percebemos que ele trazia um plano muito bem delineado: queria ser integrado num clube, voltar a treinar e a competir. Não falava de mais nada. Era como uma necessidade básica que queria resolver e que estava a reprimi-lo, a desmotivá-lo”, conta Cláudia Soares, a assistente social do CPR que acompanha os migrantes.

Aulas de dia, treino à noite

Por ele, mudou-se o projeto-base de integração dos refugiados, que dura 18 meses. A prática de um desporto ou o retomar de um hóbi só costumam ser abordados após a apreensão das competências de português e de trabalhada a integração laboral. No caso de Yousif sobrecarregou-se a agenda. Aulas de manhã, taekwondo à noite, todos os dias. Não há tempo a perder. O objetivo é grande e urgente: atingir os mínimos para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, que se realizam este verão, entre 5 a 21 de agosto.

Pela primeira vez na história de ums Jogos Olímpicos, haverá uma equipa constituída apenas por refugiados, que participarão sob a bandeira do Comité Olímpico Internacional. Serão entre cinco e dez atletas, não mais. A seleção ainda não está fechada e enquanto houver vagas Yousif vai recuperar o tempo, a técnica e o físico perdidos para tentar lá chegar.

Na procura de ajudas, todas as portas se abriram. Para encontrar um clube, o CPR pediu ajuda à junta de freguesia da área de residência, que se lembrou da Escola de Taekwondo Hwarang-do (Sportdo), que tem um programa comparticipado para crianças carenciadas. Adaptou-se o conceito e o sudanês começou a treinar com Hugo Pereira, cinto negro 5.º dan e instrutor com vários alunos campeões distritais e nacionais e primeiros lugares em competições internacionais.

O Comité Olímpico Português (COP) juntou-se ao esforço e através do programa “Viver o desporto — Abraçar o futuro”, que visa integrar a prática desportiva no acolhimento aos refugiados, vai comparticipar a aquisição do material necessário para a prática profissional da modalidade, os treinos diários e as deslocações a provas de qualificação. “Esperemos que para a semana já seja possível ao Yousif treinar com tudo. Falta um mês para a primeira prova importante, o Open Internacional de Peniche. A classificação será crucial”, explica o diretor-geral do COP João Paulo de Almeida.

Taekwondo hi-tech

Por enquanto treina de calças de fato de treino e T-shirt. E com proteções emprestadas. O treinador vai-lhe corrigindo os movimentos e os impulsos. Foi longa a paragem, há muita coisa esquecida. “Ele perdeu os melhores anos de atleta e ficou limitado na sua corrida desportiva. Era um competidor e isso nota-se, mas entretanto a modalidade mudou muito com a introdução de sensores e coletes eletrónicos, é mais pensada, mais estratégica, e ele não acompanhou. Ainda combate com muita agressividade e contacto. A chegada do material vai fazer toda a diferença”, explica Hugo Pereira.

Sem documentos que atestem o seu percurso na alta competição, ou sequer o seu número na Kukkiwon (a organização que processa todas as certificações dan do taekwondo), o currículo de Yousif faz-se de memória. Foi o tio que lhe ensinou os primeiros movimentos era ele ainda um miúdo, na aldeia de Abgamra, no Darfur. Quando acabou a primária, a continuação dos estudos e do taekwondo obrigou-o a mudar-se para Cartum, a capital. Foi sozinho. Não havia telefones. Para a família escrevia cartas. Esteve sete anos fora. E quando voltou já não havia nada.

“Bombardearam a aldeia e depois as milícias mataram toda a gente. Perdi toda a família”, recorda com dificuldade. As lágrimas saltam, os olhos vão para longe. Foi só um dos milhares de episódios sangrentos do genocídio do Darfur: morreram 400 mil pessoas e 350 mil abandonaram o Sudão. “A minha única ligação à vida passou a ser o taekwondo”.

Yousif voltou à capital, treinou até cinto negro, estudou até à Universidade — desporto, claro. Com vinte anos já tinha criado um clube onde treinava 600 meninos órfãos como ele. O Governo sudanês reconheceu-lhe mérito e tornou-o diretor desportivo da associação distrital. Mas a corrupção nunca deixou que os patrocínios chegassem às escolas. Era altura de partir.

A mulher Hmenot foi com ele. Estiveram quase um ano na Líbia, seis meses presos, mais quatro a trabalhar para pagar os 2000 euros por pessoa da viagem de barco para a Europa. Sempre juntos. Nem a diferença de religião os afasta. Nem o taekwondo. Hmenot juntou-se na modalidade a Yousif. Não falta a um treino. Aos 19 anos começa a construir-se uma campeã.