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Fast food para a mente: 100 retratos de escritores cozinhados em livro

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Um Shakespeare feito de pêra, Charles Dickens cozinhado em pato, Fernando Pessoa a partir de um cachorro quente. São estas a novas receitas do editor norueguês Christian Kjelstrup para promover a literatura da Noruega e do mundo, compiladas n' “O Livro de Receitas do Desassossego”

O editor norueguês lançou “O Livro de Receitas do Desassossego” para promover e divulgar a literatura, de forma simples e despretenciosa. Na fotografia, Lev Toastoy (Lev Tolstoy, feito de tostas)

O editor norueguês lançou “O Livro de Receitas do Desassossego” para promover e divulgar a literatura, de forma simples e despretenciosa. Na fotografia, Lev Toastoy (Lev Tolstoy, feito de tostas)

Paal Audestad / Fotografia cedida por Christian Kjelstrup

É nas situações, lugares e com os ingredientes mais improváveis que normalmente surgem os momentos de inspiração: com uma pitada de sorte, olhar atento e alguma descontração vêm-nos à mente, como num relâmpago, imagens ou ideias 'fora da caixa'. Que o diga Christian Kjelstrup.

Tudo se passou numa sexta-feira igual a tantas outras. O editor norueguês estava na fila da cafetaria do seu local de trabalho, à espera do almoço, quando se viu assaltado por uma imagem mental. Como manda a tradição à sexta-feira, era dia de polse (espécie de cachorro quente, na Noruega). “Estávamos no início de 2015, um novo ano, e tinha deixado para trás um 2014 no qual tinha aberto a Livraria do Desassossego em Oslo e Lisboa, uma grande experiência. Depois disso regressara ao trabalho, às minhas obrigações, estava de novo de volta a uma rotina mais sossegada. Mas dentro de mim havia desassossego. Pensava em Pessoa, em novos projetos.” Foi esse pensamento que o acompanhou até chegar a sua vez na fila: quando se aproximou dos cachorros (“eu sei que isto soa a loucura completa”) viu a cara do poeta português, num ápice, feita com estes ingredientes. “Eu vejo Pessoa em todo o lado, por que não num cachorro quente?”, brinca o norueguês, que considera o “Livro do Desassossego” o melhor do mundo.

Uma imagem que lhe surgiu na mente e que acabaria por decidir materializar. Desde o momento em que a viu, a pairar na cabeça, até ao que a concretizou, Christian não esperou muito tempo: ainda na cafetaria, comprou os ingredientes, levou-os para o escritório, fechou a porta e - voilà! - em 15 minutos tinha feito Fernando Polsoa. Um trocadilho com o nome do poeta e o ingrediente que lhe deu forma.

Fernando Polsoa (Fernando Pessoa, feito de polse)
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Fernando Polsoa (Fernando Pessoa, feito de polse)

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José Saramango (Samarago, retrato de manga)
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José Saramango (Samarago, retrato de manga)

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Margaret Spinachwood (Margaret Atwood, a partir de espinafres)
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Margaret Spinachwood (Margaret Atwood, a partir de espinafres)

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Jellenin (Lenine de gelatina)
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Jellenin (Lenine de gelatina)

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William Shakespear (Shakespeare retratado com pêra)
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William Shakespear (Shakespeare retratado com pêra)

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Charles Duckens (Dickens, cozinhado em pato)
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Charles Duckens (Dickens, cozinhado em pato)

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Christian Ketsjup (Christian Kjelstrup, desenhado com ketchup)
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Christian Ketsjup (Christian Kjelstrup, desenhado com ketchup)

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Mais uma vez, o escritor português serviu de ponto de partida para mais uma das suas aventuras. Para quem não se recorda, Christian lançou-se há alguns anos numa importante missão de divulgação de Fernando Pessoa na Noruega – e depois em Portugal. Começou por declamar poemas ou ler excertos do “O Livro do Desassossego” porta a porta até que, em 2014, decidiu abrir uma livraria pop-up durante uma semana em Oslo: a Livraria do Desassossego. Escusado será dizer o nome do único livro que lá se vendia... Vendeu mais de 1600 exemplares numa semana e chegou ainda a organizar uma “Noite Pessoa” num estádio na capital norueguesa, onde reuniu 700 pessoas. Mas não ficaria por aí: depois disso, rumaria à cidade do poeta para abrir a mesma loja, durante uma semana, em Lisboa.

Tostas, pêras e espinafres

Quando Christian moldou Fernando Pessoa, fotografou-o e decidiu colocar a imagem na sua página de Facebook. “As reações foram extraordinárias.” Por isso, na sexta-feira seguinte publicou um novo food portrait de um escritor norueguês e, mais uma vez, “o feedback foi gigante”. Foi assim que descobriu um novo mundo, o “mundo da food art”. “Nem toda a comida é boa para fazer arte, mas a maioria é. Muitos ingredientes são flexíveis, têm cores lindas, podemos fazer surgir quase tudo a partir deles. Eu escolhi criar escritores, porque adoro literatura.”

O lançamento do livro teve lugar na Livraria de Receitas do Desassossego, do editor norueguês

O lançamento do livro teve lugar na Livraria de Receitas do Desassossego, do editor norueguês

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Publicar retratos todas as sextas-feiras tornou-se assim um hábito, tal como comer polse. O motivo? “Era um desafio à minha imaginação. Como podes reparar não era indiferente que ingredientes usava.” Christian seguiu, aliás, um conceito bastante rigoroso: os retratos apenas podiam utilizar ingredientes que soassem de forma parecida ou rimassem com o nome dos escritores. E foi assim que surgiu José Saramango (José Saramago, feito de manga ou mango, em inglês), Shakespear (Shakespeare feito de pêra/pear), Charles Duckens (Dickens, feito de pato/duck), Margaret Spinachwood (Atwood, de espinafres/spinach) Pestoevsky (Dostoevsky com pesto) ou Lev Toastoy (Tolstoy, a partir de tostas). Cem escritores reconhecidos internacionalmente seriam reunidos num livro publicado na Noruega, em dezembro passado.

“O Livro de Cozinha do Desassossego” (“The Cookbook of Disquiet”) é, em primeiro lugar, um livro que pretende entreter Christian e entreter os outros (e já conseguiu fazê-lo com pelo menos 2 mil pessoas, tendo em conta o número de exemplares vendidos). “Existe tanta miséria no mundo neste momento que precisamos também de algumas gargalhadas”, explica. E é também uma forma de promover literatura de qualidade e, ainda, uma homenagem a Fernando Pessoa. “Tudo isto começou com ele. Primeiro, a loja pop-up, depois este projeto de food art. 'O Livro de Cozinha do Desassossego' é leve e pouco profundo – fast food para a mente.”

Cozinhar retratos

Um a um, de semana em semana, os ingredientes foram sendo cozinhados em novos retratos de escritores. Metade deles noruegueses, os restantes das mais distintas nacionalidades. Dois portugueses: Pessoa e Saramago.

O livro foi lançado na Noruega em dezembro, mas Christian Kjelstrup (ou Ketsjup, segundo o autorretrato do editor norueguês, com ketchup) já está a ser contactado por várias editoras fora do país - e quer levar o livro ao mercado português

O livro foi lançado na Noruega em dezembro, mas Christian Kjelstrup (ou Ketsjup, segundo o autorretrato do editor norueguês, com ketchup) já está a ser contactado por várias editoras fora do país - e quer levar o livro ao mercado português

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A maioria foram cozinhados em casa, à noite, quando a mulher e os três filhos já estavam a dormir e “havia sossego e escuridão do outro lado da janela da cozinha.” Christian utilizava sempre uma fotografia do escritor para 'desenhar' à vista. “Depois, os ingredientes ditavam a técnica ou equipamento de cozinha que usava.” Podia ser uma faca, tesouras ou até as próprias mãos a moldar os escritores durante 30 minutos, duas ou três horas.

“O Saramago foi feito muito rapidamente”, recorda. Estava em casa com a filha mais nova, que estava esfomeada. Christian tinha uma manga no frigorífico que tinha planeado guardar para o Saramago, mas filha queria comê-la. Chorava. “Fiz o Saramago em cinco minutos e ela comeu-o num minuto. Sem ofensa, espero, para os portugueses.”

Já a escritora sueca Karin Boye foi um parto bem mais difícil. “Criei-a a partir de O'boy, um chocolate em pó sueco.” Teria que usar uma faca, empurrando ou cavando o pó ao longo do prato até que ficasse mais ou menos com o aspeto que queria. Mas, de repente, Christian espirrou e lá se foi o desenho e “a pobre cara de Boye voou do prato em todas as direções. Tive que começar tudo outra vez do início”: eram 2h da manhã e só terminaria a obra uma hora depois.

Desafios de um empreendedor. No final, todos estes retratos foram fotografados e imortalizados no livro, para que chegassem a mais pessoas. Mas, afinal, o que lhes aconteceu? “Foram todos comidos pelos meus filhos. Eles não gostaram de todos, especialmente daqueles feitos de peixe e vegetais. Mas adoraram Franz Kaka (kake é a palavra norueguesa para cake/bolo) e Jellenin (Lenine de gelatina). “Existe aquela frase conhecida, 'A revolução devora os seus filhos'. Bem, os meus filhos devoraram Lenine.”

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