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A importância de te chamares Apple

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ESTÁS A VER? Cinco mil lugares sentados, cinco mil óculos de realidade virtual. Em Barcelona, a Samsung fez uma das mais impressionantes apresentações dos últimos anos

ALBERT GEA/REUTERS

O Centro de Convenções Internacional de Barcelona estava a rebentar pelas costuras. Lá dentro, cinco mil convidados (entre imprensa e parceiros) esperavam para ver o que o maior fabricante mundial de smartphones - Samsung - tinha para apresentar. O evento, denominado Unpacked, antecede a abertura do Mobile World Congress, a maior feira de telecomunicações da Europa.

Entrámos e em cada um dos assentos repousavam uns óculos de Realidade Virtual (RV). Relembro: existiam 5 mil lugares sentados. Não me vou alongar sobre a complexidade técnica de ligar todos estes dispositivos e de garantir que estariam prontos a funcionar para os momentos-chave da apresentação que estava prestes a começar, mas quero que fique com a noção de que foi uma missão hercúlea. A Samsung foi (é) o primeiro fabricante a colocar a RV na linha da frente das suas prioridades, numa estratégia de futuro que é casada com outras tendências tecnológicas como a Internet das Coisas, por exemplo.

A sala ficou escura, a música começou e durante uma hora (talvez mais) assisti a uma das melhores apresentações a que tive o privilégio de assistir nos últimos anos. A empresa centrou as mensagens no papel que nós, utilizadores, temos na transformação da forma como vemos o mundo ou como interagimos com os outros. A tecnologia sempre como fio condutor. Houve poucas especificações e menos oradores.

A apresentação, que estava a ser emitida em vídeo a 360 graus para todo o mundo a partir da Web, era intercalada com momentos em que tínhamos de colocar os óculos de RV para aceder a alguns conteúdos. Foi assim que foram revelados os novos topos de gama da Samsung e foi assim que vimos uma pequena câmara que vai permitir a qualquer um fazer os seus próprios filmes imersivos. Numa destas interações, tirámos os óculos e fomos surpreendidos com a presença em palco do “Sr. Facebook”. Mark Zuckerberg veio dar o seu apoio à RV da Samsung que também é sua – os óculos da Samsung usam tecnologia da Oculus, empresa que pertence à Facebook.

PARCERIA Mark Zuckerberg com Dongjin Koh, presidente da Samsung Mobile

PARCERIA Mark Zuckerberg com Dongjin Koh, presidente da Samsung Mobile

ALBERT GEA/REUTERS

Com a clássica t-shirt cinzenta, Zuckerberg desfilou as razões pelas quais acredita e apoia a plataforma da Samsung (disse ele que já foram vistas mais de 1 milhão de horas de vídeos em 360⁰ nos óculos da empresa coreana). A cereja em cima do bolo, para a empresa coreana, foi o longo abraço que Mark trocou com o presidente da Samsung Mobile e que vale, acredito, mais do que centenas de campanhas de publicidade.

A apresentação terminou e fui experimentar os dispositivos apresentados dos quais se destaca, claramente a câmara, Gear 360 – já que os dois novos Galaxy S7 são, por fora, praticamente gémeos dos terminais que vêm substituir.

Os novos Samsung Galaxy S7

Os novos Samsung Galaxy S7

Falei com outros jornalistas presentes no evento e a sensação era geral: a apresentação da Samsung, apesar de não revelar novidades bombásticas em termos de dispositivos, tinha sido excelente.
Já no hotel (com um acesso à Internet bastante mais rápido) fui espreitar o que diziam os sites norte-americanos nas redes sociais. Queria apenas confirmar se, também desta vez, a abordagem se mantinha a mesma. Sim, o tom jocoso dos colegas do outro lado do Atlântico estava lá. Alguns diziam que não fez sentido nenhum ter usado os óculos de RV na apresentação. Outros consideravam a experiência pobre e, até, que o fabricante coreano tinha tão pouco para apresentar que lá teve de usar um truque de magia para que a apresentação fosse falada.

Não é de agora que a imprensa norte-americana tende, claramente, para a “equipa da casa”. A Apple, entenda-se. Aliás, não é só nos EUA que um novo iPhone tem direito a chamada na primeira página de jornais ou a peças televisivas no dia do lançamento. Em Portugal, o comportamento é similar. O endeusamento da Apple atinge níveis de ridículo quando as redações consideram que não é publicidade falar do lançamento do iPhone, mas já o é quando são outras marcas.

Se a Apple tivesse feito o que a Samsung fez esta noite, os jornalistas norte-americanos (e não só) inundavam as redes sociais de adjetivos superlativos relativos de superioridade.

Aliás, já nesta manhã de domingo, outro fabricante coreano, a LG, tinha apresentado uma câmara de 360⁰, um pequeno robô que é controlado com o telefone e, claro, o G5, o novo topo de gama da marca.

Estes fabricantes, por mais impressionantes que sejam as suas apresentações, nunca vão ter a goodwill que a imprensa reservou para a Apple. Vejamos: em termos de smartphone e do desenvolvimento de novas tecnologias, a empresa norte-americana está há dois anos a atravessar um deserto de ideias; iPhones e iPads são mais do mesmo e, além dos pagamentos eletrónicos e da entrada na música, a Apple (que é a empresa mais valiosa do planeta) vive de rumores: vai fazer um carro? Um televisor? Entrar na Realidade Virtual? O boato do televisor tem anos e, tal como os mais recentes, tarda em concretizar-se. Mas sempre que há um iPhone, lá aparece a peça televisiva e o artigo no jornal.

Apple sempre à frente? Não, já não está?

Claro que esta fixação dos media com a Apple tem os seus momentos maus e coloca uma grande pressão sobre a empresa. Basta ver o que se passou a semana passada com o “Erro 53” ou com a forma como a Apple bateu, e bem, o pé ao FBI, que queria obrigar a empresa a fazer uma nova versão do seu sistema operativo móvel com uma “porta das traseiras” destinada à entrada não controlada das forças de segurança nas informações dos proprietários dos dispositivos.

Sim, a Apple faz bons dispositivos e tem o melhor ecossistema para o desenvolvimento de aplicações, mas, em termos de inovação na área do mobile está a perder para os maiores fabricantes do Android.

Reforço: imaginem o que seria se a Apple fizesse uma apresentação com momentos em RV? Imaginem se a Apple tivesse apresentado um iPhone com ecrã curvo? Ou se mostrasse uma câmara de 360⁰? E que tal ter Zuckerberg a apoiar claramente um produto?

Sim, os jornais desta segunda-feira (nacionais e internacionais) lá teriam o destaque de sempre e as cadeias televisivas estariam a passar a mesma peça o dia todo, onde um orgulhoso Tim Cook diria que a Apple era a primeira a entrar na Realidade Virtual. E toda a gente exclamaria: “Esta Apple, está sempre à frente!”. Não, não está. Já não está.