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“O mundo do trabalho é hoje um problema. E no ensino é preciso estabilidade”

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DEBATE. Para D. Jorge Ortiga, António Guterres é a pessoa certa para o cargo de secretário-geral da ONU

rui duarte silva

Defensor de uma igreja ao ritmo dos tempos que correm, D. Jorge Ortiga, 72 anos, Arcebispo Primaz de Braga desde 1999, escolheu para temas de debate do II Ciclo de Conferências “Olhares Sobre...” o mundo do trabalho, o estado da educação e da arte em Portugal. O fim da precariedade laboral, a estabilidade no ensino e uma Europa sem medo de abrir fronteiras aos refugiados são alguns dos seus anseios. “O medo não nos pode tornar desumanos”, diz

Sábado, antes da partida para Roma para presidir à Comissão Pastoral Social, D. Jorge Ortiga deu uma entrevista ao Expresso a antecipar o ciclo de três conferências que arrancam esta sexta-feira, em Braga, no Auditório Vita. O mundo do trabalho é o primeiro tema em debate, tendo por moderador Luís Marques Mendes e por oradores o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, o sindicalista Carvalho da Silva e Gonçalo Lobo Xavier, vice-presidente do Conselho Económico e Social Europeu (CESE).

Organizado pela Arquidiocese de Braga e integrado na plataforma Nova Ágora, de discussão aberta à sociedade civil, o debate em torno da educação prossegue no dia 4 de março, com António Guterres, Laborinho Lúcio e Marçal Grilo como convidados.

As conferências encerram a 11 de março, dia em que Rui Chafes, Mário Claúdio e Pedro Sobrado irão abordar a arte em Portugal. Adepto de novas tecnologias, o arcebispo de Braga faz questão de lembrar que os debates podem ser seguidos em http://novaagora.pt.

Rui Duarte Silva

O que o levou a escolher trabalho, educação e arte como temas centrais do ciclo de conferências “Olhares Sobre...”, iniciado há um ano?
Para mim e para a arquidiocese de Braga, este evento significa um novo modo de a igreja acompanhar os problemas do momento. O projeto de Cristo é um projeto humanista, o que significa que tudo o que diz respeito à vida do homem interessa à igreja. No atual contexto, são temas que têm de ser repensados, a começar pelo mundo do trabalho, que hoje é em si mesmo um problema. São salários em atraso, condições de trabalho precárias, sobrecarga de horários na ânsia da produção. Perante este cenário, gostaria que o novo governo fizesse um esforço de trabalho para todos e com dignidade.

Que questão laboral gostava de ver resolvido pelo atual ministro da Economia?
Mesmo sabendo que trabalho para todos é quase impossível, gostava que esta preocupação estivesse na sua agenda. Reconhecer que o trabalho é um direito de todos, não apenas para se sobreviver mas para se viver com dignidade.

Já referiu publicamente que é bastante procurado por pessoas à procura de emprego, mas que é raro conseguir ajudá-las...
São muitos os que batem à porta da diocese à procura de emprego, direto ou de ajuda através dos nossos conhecimentos. São sobretudo jovens, mas também pessoas entre os 40 e os 50 anos, uma idade em que é cada vez mais difícil regressar ao mercado de trabalho. Sentimos uma grande limitação, não temos capacidade de resposta...

Que tipo de emprego procuram?
Já fui abordado por enfermeiras, educadoras de infância, mães e pais que pedem emprego para os filhos e dizem que eles querem é trabalhar. Alguns são licenciados, dispostos a começar em qualquer área.

A quem recorre a Igreja?
A empresas da região. Em muitos casos, há boa vontade de empresários católicos, mas temos de reconhecer que não têm possibilidade de dar emprego.

Braga é dos distritos mais jovens do país. No contexto atual é uma vantagem ou um problema?
É um problema transversal, que não escolhe idades, quer para quem tem habilitações académicas, como para os que optaram por cursos profissionais. A juventude vive muito desencantada, os pais preocupados de os ver em casa. Muitos têm deixado o país, até porque emigrar hoje não tem a carga de drama que teve no passado. Partem para o estrangeiro com otimismo, embora saibam que encontrarão dificuldades nos primeiros meses. Temos freguesias onde já se pode falar de desertificação.

É um problema a prazo para o país?
Um licenciado fica caro ao país, mas acredito que possam regressar um dia mais preparados para ajudar o seu país. Os jovens têm de aceitar desafios, uma atitude que deve ser encorajada. Na região temos assistido a um fenómeno curioso de licenciados da Universidade do Minho na área da inovação, com o aparecimento de micro empresas jovens, pequenas sociedades de jovens que criam os seus próprios postos de trabalho.

O que o fez trazer para o debate a educação? O fim dos exames nos 4º e 6º anos?
A educação foi no passado e é no presente um grande problema, uma área de grande envolvimento da Igreja. A missão da Nova Ágora é que se faça uma reflexão demorada sobre os novos caminhos da educação, pois vejo com apreensão as mudanças contínuas no sistema de ensino. Daí ter convidado o ex-ministro Marçal Grilo para em conjunto com professores, pais, sindicatos e outras instituições ajude a pensar um projeto estável, que não pode ser delineado hoje e desfeito amanhã. Perante grandes problema temos de agir sinodalmente, que significa caminharmos juntos e envolver as pessoas na caminhada. Na educação é preciso convergir, mesmo que os partidos tenham visões diferentes. Estamos a lidar com crianças, e por vezes parece que estamos a brincar com 'cobaias'. A sociedade tem de se envolver mais, não basta a participação ativa do voto.

Ter os alunos no Ensino Básico a tempo inteiro nas escolas faz sentido?
É uma ideia generosa tendo em conta o desajustamento dos horários dos pais. Tem de ser muito pensada na oferta de atividades extracurriculares, acompanhadas com competência. Sem educação não se pode ter uma sociedade adequada aos tempos que correm. Não adianta que os alunos até ao 9º ano passem o dia inteiro nas escolas se não houver nada que os possa enriquecer, da música à educação física, às artes plásticas...

A escolha do ex-ministro da Educação é óbvia. Porquê António Guterres?
A nossa intenção é clara. A educação não é apenas académica, de ensino e transmissão de conhecimentos. Educação é desenvolvimento e adoção de valores. A experiência de António Guterres é muito rica, poderá dizer-nos, a nós, Igreja, e à sociedade como educar para a solidariedade, num apelo à consciência de que o mundo é uma casa comum. O seu contributo será muito positivo, não como pedagogo, mas o de alguém que abre o lema da educação a outros mundos, como o da solidariedade ou da nossa responsabilidade na situação concreta que estamos a viver dos refugiados.

Tem perfil para Secretário-Geral da ONU?
Tendo em consideração a experiência e o elevado prestígio do seu passado e, particularmente, enquanto Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, considero que António Guterres é a pessoa certa para ocupar o lugar.

A Europa está a saber lidar com a crise dos refugiados?
Infelizmente não está a saber lidar com este enorme drama social. A situação é chocante, escandalosa. Diariamente somos confrontados com novas vagas de refugiados que tentam chegar à Europa, mas o Mediterrâneo continua a ser um grande cemitério, além de sabermos que há milhares de pessoas a viver na Síria ou na Turquia em condições desumanas.

Rui Duarte Silva

Qual o papel da Igreja nesta crise?
A Igreja, através de programas como a Cáritas, está a realizar um trabalho denominado Linha da Frente, que procura ir ao encontro desses imigrantes pela Europa. A Cáritas portuguesa já recolheu 350 mil euros, que fez chegar aos campos de refugiados. Não é muito, mas é uma ajuda para as necessidades básicas.

A abertura de fronteiras não é um risco à segurança interna face à vaga de atentados terroristas?
O fundamentalismo e o terrorismo são uma enorme interrogação. Compreendo que as autoridades dos países queiram precaver-se, efetuar triagens de identificação, mas o medo não nos pode tornar desumanos. É nosso dever integrar na sociedade portuguesa quem nos procura. Não é por se acolher refugiados que o fenómeno do terrorismo cresce. Os últimos atentados demonstram que se recorre cada vez mais a sistemas sofisticados, levados a cabo por residentes europeus. Nada nos pode impedir que se estenda a mão a quem corre risco de vida.

As artes, tema do debate que terá como oradores Rui Chafes, são o parente pobre em tempo de crise financeira?
Estão a ser feitos sacrifícios em todas ás áreas. Na missão da Igreja, consideramos três dimensões, que sintetizamos na verdade, no bem e no belo. Houve períodos em que nos fixámos demasiado na verdade, conceito de verdade que permitiu a não liberdade de opinião e pensamento. Isto hoje está ultrapassado no nosso país, enquanto o bem hoje é olhado com um certo relativismo...

Confundido com o bem material...
Sim, por vezes exageradamente. Pouco considerada ainda é a nossa relação com o belo, que se encontra na natureza, mas também na capacidade daquilo que o homem é capaz de criar, seja na música, na pintura, na arquitetura, na literatura, a que nós, portugueses, nem sempre damos a atenção devida. Não é por acaso que somos dos povos que menos visita museus. Na obra ou no papel há uma alma, um mistério escondido, a começar na arte popular, que se encontra nas nossas aldeias. Lembro-me de uma frase que o papa Bento XVI deixou ficar no Centro Cultural de Belém, quando saudado por Manoel de Oliveira: “Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza.” Espero esta mensagem esteja presente no auditório Vita, com os olhares diferentes do escultor Rui Chafes, Prémio Pessoa 2015, do escritor Mário Cláudio ou de Pedro Sobrado, dramaturgista do Teatro Nacional S. João.

O Papa Francisco sugeriu o uso de contracetivos para evitar a gravidez em zonas infestadas pelo mosquito zika. É da mesma opinião?
Não se trata de opinião, nem é novo. O Papa sublinhou aquilo que já é a doutrina tradicional da Igreja. O mal menor é um princípio doutrinal estudado pela moral católica há muitos anos. São casos particulares de emergência, embora a Igreja continue a defender a inviolabilidade da vida humana. Já Paulo VI o referiu no caso concreto da violação de religiosas durante a guerra.