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Ratos farejam tuberculose com eficácia

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Rato africano treinado para farejar a tuberculose

© STR New / Reuters

O rato africano é mais eficaz a farejar a tuberculose do que a maioria dos testes de laboratório e desde 2013 tem salvo milhares de vidas. Mas a comunidade médica ainda está reticente

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Jornalista

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Não é novidade que os ratos são uma das espécies animais mais usadas em experiências de laboratório. O que é surpreendente é que o seu faro para a tuberculose é extremamente apurado e pode salvar muitas vidas. A prova disso é que só no ano passado um grupo de 'ratos heróis' foram responsáveis por detectar 9.127 casos de tuberculose que passaram despercebidos em unidades de saúde da cidade de Maputo, capital de Moçambique.

Apelidados de “HeroRATs”, conseguem diagnosticar a doença com uma precisão de cerca de 70%. Além deste método ser mais barato, pode ser até vinte vezes mais rápido do que os testes tradicionais, ampliando a deteção e tratamento da doença e, como consequência, refrear a sua propagação. Uma doença que pode destruir fatalmente os pulmões.

Apesar da eficácia, a comunidade médica ainda se mostra cética. Como a técnica depende dos animais, alguns especialistas lançam várias interrogações: Os ratos continuam bons em algo para o qual foram treinados um ano depois? Todos eles têm que ser teinados pela mesma pessoa? Como devem ser cuidados?

Calcula-se que todos os anos são diagnosticados 9 milhões de novos casos em todo o mundo, um quarto deles em África, um continente que se destaca pela mais alta de mortalidade por tuberculose. Os antibióticos podem curar a doença, mas continua a ser fatal se não for tratada. Atualmente, há ainda muitas pessoas que não são devidamente diagnosticadas.

O projeto que está a ser um importante aliado na luta contra a mortalidade causada pela tuberculose teve origem na Tanzânia, e é da organização belga Apopo, que se dedica a desenvolver métodos de deteção usando ratos treinados da espécie 'Pouched', uma espécie endémica da África subsariana (os ratos são de grandes dimensões). O diagnóstico da tuberculose é apenas uma vertente desta Organização Não Governamental (ONG), que também treina estes roedores para farejarem minas terrestres em países afetados pelo problema.

Roedores inteligentes

Foi na infância que o fundador da Apopo, Bart Weetjens, começou a pensar fazer dos roedores grandes aliados da humanidade. “Ele mantinha ratos como bichos de estimação e percebeu que os animais eram inteligentes, treináveis e com olfato muito preciso”, contou à Globo o médico Emílio Valverde, gerente do projeto de deteção de tuberculose em Moçambique. Primeiro começou com a ideia de treiná-los para encontrar minas terrestres enquanto analisava o problema que atinge muitos países devastados pela guerra na África subsariana.

Valderde conta que o explosivo usado em minas terrestres, o TNT, tem um odor forte e Weetjens passou a treinar os bichos para reconhecerem esse cheiro. Resultou. Hoje o projecto é desenvolvido em Moçambique, Tanzânia, Tailândia, Angola, Cambodja, Vietname e Laos. Foi o mote para Weetjens e a sua equipa de pesquisadores começarem a investigar se havia outras questões humanitárias em que os ratos poderiam ajudar através do olfato. “Em estágios avançados da doença, até os humanos podem sentir um pouco o cheiro da tuberculose, então eles decidiram tentar e começaram a treinar ratos, com sucesso”, conta o médico.

Estes “ratos heróis” começaram a ser treinados a partir da quarta ou quinta semana de vida. Na primeira fase, os ratinhos são separados das mães e começam a familiarizar-se com humanos. A partir da sexta semana de vida, os são treinados para associar um barulho de clique com uma recompensa em forma de comida. Duas semanas depois, são apresentados ao cheiro característico da bactérica causadora da tuberculose, o Mycobacterium tuberculosis. O rato especializa-se em reconhecer esse dito odor em amostras de saliva humana. Para serem acreditados como heroRATs, os bichos têm de passar por um teste final em que comprovem a sua capacidade para detetar a doença.

Em Maputo, a organização Apopo desenvolve o projeto em colaboração com o Ministério da Saúde de Moçambique e com a Universidade Eduardo Mondlane, a maior universidade do país. Desde que este programa começou, em 2013, estes ratos já rastrearam mais de 342 mil amostras. Só no ano passado foram rastreadas 40 mil. A organização calcula que 8,5 mil novos casos foram evitados com o diagnóstico feito com estes animais. Oportunidade para escrever... aqui há rato!