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Obras no Bolhão só começam após desvio do rio que corre sob o mercado

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D.R.

Comerciantes anseiam pelo início de trabalhos de reabilitação do espaço no centro do Porto, cuja duração é estimada em dois anos

Cláudia Lopes

As obras de restauro e de modernização no mercado do Bolhão arrancam no final deste ano, com a construção de uma cave logística e do túnel de ligação à rua do Ateneu Comercial do Porto. Acontece, porém, que o mercado está construído sobre um dos braços do rio de Vila. Assim, como prólogo das obras, terá de começar por ser desviada aquela linha de água para a rua de Sá da Bandeira.

Por se tratar da gestão da rede de águas pluviais da cidade, a empreitada está a cargo da empresa Águas do Porto, que brevemente irá lançar um concurso público para a concessão da obra. Segundo informações obtidas na Câmara Municipal, os trabalhos de desvio do curso de água deverão ter início “antes do mês de agosto” e são essenciais para a “criação da galeria subterrânea em condições de segurança”, uma vez que garantem “a consolidação e estabilização do solo”. A cave será usada para cargas e descargas, assim como para albergar outras áreas técnicas do mercado. Nesta primeira fase de trabalhos nenhum comerciante será deslocado.

Para Miguel Costa, presidente da Associação do Comércio Tradicional “Bolha de Água”, a principal preocupação relativa a esta primeira etapa das obras prende-se com a obtenção de “informação detalhada” junto da Câmara Municipal do Porto. “Ainda não saiu uma calendarização da obra e o que vão implicar, bem como saber que ruas irão ser cortadas e quando.” Miguel Costa considera esses transtornos um mal menor face ao estado atual do mercado. “Não podemos ser uma força de bloqueio a uma coisa que já deveria estar feita há vinte anos”, e atribui as culpas da desertificação do mercado à falta de condições da infraestrutura.

“No projeto de 1996, do arquiteto Massena, contavam-se 470 ocupantes. Hoje estão setenta. É lamentável. porque o edifício está cá mas as pessoas perderam-se, perde-se a alma que caracteriza o mercado do Bolhão e que no fundo é a génese das gentes do Porto", lamenta o presidente da Associação de Comércio Tradicional.

A segunda fase de trabalhos, segundo o Expresso apurou junto da autarquia, terá início no final do ano, com o esvaziamento do interior do mercado e a consequente deslocalização da atividade comercial para o quarteirão D. João I. Mudanças que não assustam os comerciantes, unânimes na urgência da intervenção. “Nós precisamos do mercado arranjado, porque nestas condições não está bem. Quero vender, mas também quero muito ver o meu mercado bonito, passei aqui toda a minha vida. Ouço pessoas a falarem do Mercado de San Miguel, em Barcelona, que é um mercado antigo que foi recuperado. Também gostava disso para o meu mercado”, defende Maria Olinda Remízio, vendedora no mercado há 55 anos.

A mesma opinião é partilhada por Fátima Teixeira, proprietária de uma banca de frutas no interior do Bolhão: “Já que nos arranjaram um lugar tão próximo, acho ótimo. Que façam isto o mais depressa possível e que mantenham a traça, porque quando o Bolhão estiver mais bonito e mais limpo vai atrair ainda mais clientes.” Para José Pinto, um produtor de hortaliças que vende há 20 anos no mercado, a única preocupação prende-se com o preço das rendas, algo que ainda não foi discutido entre a autarquia e os comerciantes. “Se as rendas forem muito elevadas, não vai haver hipótese de trazer produtos genuínos, de qualidade. Tenho muita clientela por causa da qualidade do produto.”

Rui Moreira durante a apresentação do projeto de remodelação do Mercado do Bolhão, em abril de 2015

Rui Moreira durante a apresentação do projeto de remodelação do Mercado do Bolhão, em abril de 2015

Rui Duarte Silva

Dois anos é o tempo estimado para o decorrer das obras, ao fim dos quais está previsto o regresso dos vendedores ao mercado. Durante esse período, as lojas exteriores estarão sempre em funcionamento, exceto quando estiverem a ser realizados trabalhos na fachada. A Câmara Municipal do Porto revelou ainda que tudo está a ser feito para a obtenção de fundos comunitários para o financiamento da obra, cujo processo de concessão irá ser determinado por um concurso público internacional.

O projeto de recuperação do mercado, da autoria do arquiteto Nuno Valentim, foi apresentado em abril passado pelo presidente da Câmara Municipal do Porto. Na altura, Rui Moreira comprometeu-se a manter os usos do mercado, uma promessa que os comerciantes querem ver cumprida. “Só espero que isto não seja como o Bom Sucesso. De mercado aquilo não tem nada”, remata Miguel Costa