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Mais de mil jovens médicos de família saíram do país em quatro anos

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Estão a ser preparados incentivos para fixar clínicos nos centros de saúde. Medidas vão ser conhecidas ainda esta quarta-feira. Uma das propostas é que os médicos possam mudar mais rapidamente de lugar

Mais de um milhão de portugueses continuam sem ter um clínico assistente nos cuidados de saúde primários e, mesmo assim, há dezenas de especialistas acabados de formar que não ocupam as vagas abertas no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Só nos últimos quatro anos, mais de mil jovens médicos de família saíram do país. O Governo quer agora fixá-los por cá e o presidente do Colégio de Medicina Geral e Familiar da Ordem dos Médicos, José Silva Henriques, garante que para isso é necessário aumentar, precisamente, a mobilidade.

O responsável da Ordem dos Médicos garantiu ao Expresso que a contratação de recém-especialistas para o SNS será bem-sucedida se for mais dinâmica e acompanhada de outros atrativos. "São precisos incentivos maiores e mais transparentes para conseguir que os jovens médicos ocupem vagas nas zonas carenciadas e ainda facilitar a mobilidade interna a cada dois anos ou até anualmente", garante.

O aumento dos momentos em que é possível mudar de local de trabalho – permitindo que o médico opte inicialmente por um lugar menos atrativo para si, pois sabe que a curto prazo poderá voltar a concorrer para à vaga desejada - não deve ser apenas entre centros de saúde. "Deve incluir as Unidades de Saúde Familiar, que devem ter total autonomia para contratarem o seu pessoal, seja médico, enfermeiro ou secretário clínico", defende José Silva Henriques.

Os incentivos previstos pela equipa do ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, vão ser apresentados na tarde desta quarta-feira. Segundo declarações à TSF do coordenador para a Reforma do SNS para os Cuidados de Saúde Primários, Henrique Botelho, uma das novidades é a fixação de médicos assim que terminam o internato da especialidade. A existência de apenas um concurso, nacional, e para o qual só conta a nota final do exame já tinha sido anunciada e vai nesse sentido. Na prática, os candidatos vão ter de se deslocar para mais longe, por exemplo do Norte para o Sul.

A região Norte não tem praticamente falta de médicos de família, a cobertura está acima dos 98%, e deve o seu sucesso, em grande parte, à abertura de lugares atrativos para exercer. "A Norte é quase residual a carência de especialistas e foi graças ao 'boom' das Unidades de Saúde Familiar. Cada região deve avaliar e tentar encontrar as medidas de incentivo mais adequadas e Lisboa e o Algarve, claramente, não fizeram ainda uma gestão adequada para promover as medidas necessárias para fixarem mais médicos", afirma o presidente do Colégio de Medicina Geral e Familiar.

Com a receita certa e os cerca de 400 a 500 novos especialistas formados por ano, "será possível resolver o problema da falta de médicos dentro de quatro a cinco anos e regressar aos 1500 a 1600 utentes por médico", acrescenta. Até lá, o recurso a médicos aposentados, mais de dois mil recentemente, pode ser o 'plano B'. Para isso, já foi anunciado que vão poder acumular a reforma com 75% da remuneração relativa à sua categoria profissional.