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O mosquito chamado “tigre” está a chegar

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Portugal está cercado pelas espécies mais invasoras que podem transmitir vírus zika e dengue

Christiana Martins

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Jornalista

Carlos Esteves

Carlos Esteves

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Quando os antigos avisaram que de Espanha “nem bom vento nem bom casamento” esqueceram-se dos mosquitos. E talvez estes sejam a pior ameaça que vem da fronteira quando, em 1979, o “tigre asiático” entrou na Europa, pela Albânia, onde chegou transportado em navios que traziam pneus usados do Japão.

O Aedes albopictus, nome científico deste inseto, é considerado a espécie de mosquito com maior capacidade invasora, capaz de transportar 22 agentes patogénicos. Nasceu na Ásia, tem-se espalhado pelo continente europeu de forma constante e os entomologistas não têm dúvidas de que chegará a Portugal. Resta saber quando.

Mas esta não é a única ameaça: desde 2002 existe na Madeira o Aedes aegypti, mosquito que, como o albopictus, é capaz de transmitir os vírus de dengue, zika e chikungunya. Portugal está cercado e a vigilância é a única hipótese para evitar a entrada de doenças que assustam o mundo. Porque, uma vez estabelecidos, é praticamente impossível erradicar estes mosquitos.

“Temos de estar à espera do albopictus, porque ele vai chegar”, garante Maria João Alves, virologista e responsável pelo Revive, a Rede Nacional de Vigilância de Vetores, que desde 2008 fiscaliza de forma sistemática a presença destes insetos em Portugal. Todos os anos são emitidos relatórios com o retrato das espécies encontradas e, até agora, não foi apanhado qualquer exemplar de Aedes albopictus. Mas a expansão geográfica do mosquito indicia que Portugal não conseguirá evitar a sua entrada. A especialista explica que deverá chegar pelas fronteiras terrestres. “E no dia em que for encontrado um mosquito invasor ou um infetado, será dado o alerta para que se iniciem as medidas de controlo”.

Em 2007, o Aedes albopictus foi responsável por um surto de chikungunya (doença que provoca dores nas articulações) no norte da Itália, atingindo 250 pessoas. Tudo porque um homem visitou os familiares na Índia e voltou infetado. “Quando há um número relevante de mosquitos, basta uma pessoa infetada. O grande problema não é a presença do mosquito, mas a sua abundância”, explica Maria João Alves.

Se o albopictus ainda não foi encontrado, o mesmo não acontece com o Aedes aegypti, causador de um surto de dengue na Madeira em 2012. A região autónoma é abrangida pelo Revive desde 2010 e, desde então, todos os anos são encontrados exemplares do mosquito, “com abundâncias relativas em relação a mosquitos de outras espécies, a variar entre 30 e 90%”, precisa a responsável pelo Revive.

Para detetar os insetos de forma precoce, são colocadas armadilhas de ovos e larvas nos portos e aeroportos, vigiadas com uma distância máxima de 15 dias. E, entre maio e outubro, períodos em que os mosquitos estão mais ativos, são também colocadas armadilhas para os exemplares adultos.

A culpa é da globalização

As doenças transmitidas por mosquitos estão a espalhar-se por todo o mundo em consequência do aumento do transporte de pessoas e bens. Estes insetos não gostam de temperaturas excessivamente baixas, nem demasiado altas, mas, se as alterações climáticas provocarem um aumento estável das temperaturas mínimas, o risco de dispersão dos mosquitos aumenta. E na Europa, espécies consideradas importantes ameaças à saúde pública, como o Aedes aegypti ou Aedes albopictus, são os principais focos de atenção.

Os mosquitos são insetos especialmente resistentes: conseguem sobreviver em minas, desde 1250 metros abaixo do nível do mar até 5500 metros de altitude. O Aedes albopictus é considerado tão perigoso quanto o aegypti, cuja etimologia da palavra significa odioso. Já albo significa branco e pictus é pintado, ornamentado. Ou seja, o mosquito enfeitado com manchas brancas. Entrou na Europa no fim da década de setenta e nos Estados Unidos dez anos mais tarde. O mosquito já mostrou ser capaz de se adaptar a climas tropicais e temperados. Os seus ovos suportam até cinco anos sem água, e, após este período, podem eclodir, dando origem a novos exemplares. “É o maior perigo para Portugal”, afirma Paulo Gouveia de Almeida, investigador do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT).

Mas há outras espécies que também têm de ser vigiadas. O Culex pipiens é das espécies mais comuns em Portugal e em toda a Europa, mas em 2004 foi o agente transmissor do vírus do Nilo Ocidental em dois turistas irlandeses que visitavam o Algarve para observar aves na zona da Ria Formosa. Em 2010, o Instituto Ricardo Jorge identificou um novo caso de infeção, desta vez em Palmela, num português e, no ano passado, voltou a ser encontrado um caso nacional, agora no Algarve.

Em 1999, o vírus do Nilo Ocidental chegou aos Estados Unidos, causando uma epidemia em Nova Iorque. Ficaram célebres as imagens de Manhattan a ser aspergida por helicópteros com inseticida. Em três anos, o inseto chegou à Califórnia, depois de ter atravessado todo o continente norte-americano. “Foi um marco na história das transmissões deste vírus”, explica o investigador do IHMT.

Risco permanente

Paulo Gouveia de Almeida diz que em Portugal já foram encontradas 41 espécies de mosquitos, mas, destas, apenas quatro são consideradas representativas, com especial destaque para o Culex pipiens. E alerta que o que parece resolvido pode deixar de estar quando menos se espera. Até 1959, a malária era considerada endémica no país e, muito antes, no século XIX foram registados vários surtos de febre amarela. “Um mosquito pode voltar a ser transmissor de um vírus, mesmo após longos períodos sem exemplares infetados, foi o que aconteceu com o Culex pipiens”, conta Gouveia de Almeida.

Em janeiro deste ano, o Aedes albopictus foi encontrado em Algeciras, a pouco mais de 500 quilómetros da fronteira. “O mosquito está a caminho”, resume o investigador.