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Jiadista britânica condenada foi recrutada por português

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Tareena Shakil conversou com Fábio Poças que lhe falou nos perigos de ela “viver na terra dos não-crentes”

Foto D.R

Fábio Poças aliciou uma jovem de Birmingham através do Facebook para se juntar ao Daesh

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

O perfil de Tareena Shakil era insuspeito. Gostava de cantar músicas das Spice Girls e de assistir a reality shows na televisão em casa dos pais em Birmingham, no Reino Unido. A jovem de 26 anos era também uma estudante aplicada que concluiu o curso de psicologia sem dificuldades, trabalhando numa clínica de reabilitação para ganhar algum dinheiro.

Num dia de outubro de 2014 disse à família que ia passar umas férias às praias da Turquia com o filho de 14 meses. Só que quando aterrou em Istambul, ao invés de prosseguir a viagem até aos resorts mediterrânicos, decidiu atravessar clandestinamente a fronteira com a Síria, um pouco mais a Leste. E juntou-se ao autoproclamado Estado Islâmico (Daesh).

Há três semanas, tornou-se a primeira jiadista a ser condenada pela justiça britânica. Um juiz do tribunal de Birmingham não perdoou que Tareena tivesse levado o filho consigo para um território dominado por terroristas, criticando duramente as imagens “detestáveis” que colocou nas redes sociais com a criança vestida com o uniforme do Daesh enquanto segurava uma AK47. E aplicou-lhe uma pena de seis anos de prisão: quatro anos por se ter alistado numa organização jiadista e dois por fazer a apologia do terrorismo através das redes sociais.

O julgamento teria um interesse apenas mediano para as autoridades de Lisboa se o nome de Fábio Poças, um dos dez jiadistas portugueses que se encontram no califado, não tivesse sido proferido pelo magistrado durante as sessões. A Justiça britânica não tem dúvidas de que foi o rapaz de 24 anos que cresceu na Linha de Sintra e se radicalizou na zona Leste de Londres a recrutar a rapariga de Birmingham.

O terrorista português, alvo de um mandado de captura internacional, e a inglesa conheceram-se através das redes sociais em 2014. No Facebook, a mulher usava outra identidade, Tameena al Amirah, “uma escrava de Alá”. Gostava de partilhar imagens de mujahedines e das bandeiras negras do Estado Islâmico e escrevia extensos posts a defender o extremismo religioso: “Se não gostas do que se está a passar na Sham (Grande Síria) pega em armas e não no teclado do computador.”

Algumas das conversas online entre Fábio, ou Abdurahman al-Andalus, e a mulher que se tinha divorciado meses antes, foram transcritas durante a sessão. O português, descrito no tribunal como “um membro proeminente do Estado Islâmico e um treinador de jiadistas”, falou-lhe nos perigos de “viver na terra dos não-crentes”, alertando-a de que estava proibida de permanecer num país que não era regido pela sharia (lei islâmica). “Olha irmã, em Inglaterra estás pendurada às portas da Jehannam (Inferno). Se morreres é para aí que vais”, avisou.

No tribunal, Tareena Shakil afirmou que aquele tipo de discurso lhe causou “grande impacto” e meteu-lhe “medo”, argumentando que “qualquer muçulmano quer ver-se livre do inferno”. A declaração não convenceu o juiz, que a acusou de dizer “mentiras atrás de mentiras, à polícia e no tribunal”. Para o magistrado, ficou claro que a rapariga “se foi radicalizando” devido às mensagens trocadas com jiadistas como Fábio Poças.

Morrer como mártir

A comunicação entre os dois ter-se-á prolongado durante semanas. A aspirante a jiadista em Birmingham, o recrutador algures em Raqqa, cidade síria onde vive atualmente com o grupo de terroristas lusos. Terá sido desta forma que Tareena Shakil fez os preparativos para viajar incógnita até à Síria, juntamente com o filho bebé. Antes de partir, contactou também outra jiadista ocidental, a britânica Sally Ann Jones, de 45 anos, também de Birmingham, que se encontra no califado há três. Sally, ex-vocalista da banda punk Krunch, é considerada como a mulher mais influente da organização. “Quem me dera estar aí”, escreveu-lhe a jovem através das redes sociais.

Apesar da vontade demonstrada em juntar-se ao Estado Islâmico, Tareena Shakil apenas esteve na Síria durante quatro meses. Viveu numa mansão com outras mulheres à espera do timing certo para se tornar noiva de um combatente. Em Raqqa partilhou fotos no Facebook com armas de guerra, incitando outras britânicas a juntarem-se a ela. “Quero morrer como uma mártir”, disse ao pai via WhatsApp.

O deslumbramento parece ter acabado depressa. Fugiu da Síria com o filho em fevereiro de 2015, subornando um motorista de táxi que a levou até perto da fronteira. Quando regressou ao Reino Unido foi detida. Alegou que o divórcio a levou “ao inferno” e que só tinha viajado por motivos religiosos e não bélicos. É provável que Fábio Poças, que é casado com três mulheres, tenha sido um dos seus pretendentes na Síria. Mas Tareena não o revelou em tribunal, nem ao Expresso, que não obteve qualquer declaração dos seus advogados sobre o caso.