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“Este trabalho tem um objetivo. Acredito que possa fazer mudar as coisas no Senegal”

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MÁRIO CRUZ. Esta é uma das quatro fotos do trabalho do português que agora foi premiado. Em baixo nesta página pode ler o testemunho do autor sobre cada uma das imagens

d.r.

Em maio de 2015, Mário Cruz, repórter fotográfico da agência Lusa, tirou uma licença sem vencimento e partiu para uma viagem para o Senegal e Guiné-Bissau. Na bagagem transportava a máquina fotográfica, alguns contactos e, sobretudo, uma persistência notável. O objetivo era encontrar as crianças feitas escravas pelos falsos professores das escolas corânicas e denunciar. O trabalho que resultou de um mês e meio a fotografar o que nenhuma ONG tinha conseguido demonstrar, surpreendeu o mundo das publicações, quando o apresentou pela primeira vez em Perpignan, no festival Visa pour l'Image, Entretanto nada aconteceu, até o trabalho ser publicado na revista Newsweek, dois dias antes de receber a notícia que tinha sido premiado pela World Press Photo

Mário Cruz, fotógrafo português, há dez anos a trabalhar na agência Lusa, recebeu o primeiro prémio de Temas Contemporâneos da World Press Photo, o mais importante concurso de fotojornalismo do mundo, com o trabalho Talibés, Modern-Day Slaves, que relata o flagelo dos meninos escravos nas escolas islâmicas, as daara, no Senegal.

Na entrevista que se segue conta como conseguiu penetrar neste mundo e apresenta um portefólio de algumas das fotografias premiadas, onde relata as histórias das imagens.

Como é que teve conhecimento dos meninos escravos nas escolas islâmicas do Senegal?
Em 2009 eu estava na Guiné para cobrir as eleições presidências após a morte de Nino Vieira, pela Lusa, e comecei a ouvir relatos sobre crianças que desapareciam misteriosamente. Suspeitava que fossem para o Senegal para serem escravas, mas nada muito confirmado. Regressei. Aqueles relatos não me saiam da cabeça, eu queria contar aquela história. Comecei a investigar. Quando me debrucei seriamente sobre o assunto percebi que a realidade era muito mais assustadora.

Que história queria contar?
No Senegal há uma longa tradição das crianças das escolas corânicas, as talibés, andarem uma a duas horas por dia nas ruas a pedir para a sua alimentação e para os seus estudos. Com o passar dos anos começaram a surgir falsos professores que viram nelas a possibilidade de negócio. A pretexto de viver nas daars, as escolas islâmicas, são traficadas e não estudam o Corão. Passam o dia inteiro nas ruas a mendigar, são chicoteados, são violados, sofrem pressões inimagináveis.

Como se prepara um trabalho como este?
No início de 2015 decidi começar a pesquisa e entrei em contacto com ONG's internacionais que me indicaram algumas organizações locai. Entrei também em contacto com o governo senegalês e o exército guineense. São processos longos. São redes criminosas, é muito difícil penetrar. Montei a minha rede de contactos através da internet e de telefonemas e em maio desse ano resolvi pedir uma licença sem vencimento à Lusa e partir por minha conta e risco para o Senegal. Rapidamente comecei a identificá-las. Infelizmente não é difícil ver estas crianças nas rua. Só na região de Dakar há mais de 30 mil talibés.

Como conseguiu entrar nas daars?
Quando consegui criar uma rede de contactos a nível local muito forte, já havia uma base de confiança da parte destes sítios que os deixassem entrar para levar alimentos ou ajuda médica quando era necessário. Para esses falsos professores corânicos, supostamente eu estava apenas a fotografar as condições físicas das daar a fim de conseguir mais atenção e ajuda para eles. Ninguém sabia o que eu andava a fazer. Claro que entrando num sítio deste, isolado de tudo, completamente em ruínas, onde as crianças são escondidas, onde mal se entra só se sente o medo das crianças que não param de tremer, tive de ter uma postura muito própria, quase sombra, para não estarem a olhar para mim e conseguir fazer as imagens que precisava.

Quanto tempo precisou para conseguir o trabalho?
Um mês e meio.

Correu perigo, passou por alguma situação que poderia ter posto o trabalho a perder?
O medo existia sempre que entrava numa daara. Várias vezes fui identificado pela polícia senegalesa, não é normal uma pessoas andar por zonas tão remotas de máquina fotográfica.

O que o move neste trabalhos é a possibilidade de denunciar?
Sim. No Senegal as pessoas sabem que isto existe, mas até agora não tinha ainda havido provas visuais. Nunca tinha sido fotografado. Nas ONG's diziam-me que era praticamente impossível conseguir fotografar.

Que tipo de denuncia pode acontecer?
Sobretudo podemos pressionar as autoridades e o governo senegalês. Quando o terminei e apresentei no sul de França, em Perpignan no VIsa por L'Image, o maior festival de fotografia do mundo, o trabalho foi muito bem aceite. Tive a opção rara de escolher a publicação onde o poderia apresentar. Infelizmente ficou parado durante meses. Foram meses de angústia, precisamente porque é um trabalho de denúncia tem muita urgência em ser mostrado. Acabei por o enviar para a Newsweek, que por coincidência o publicou um dia antes do receber a notícia deste prémio.

Já tinha publicado em revista internacionais, como o New York Times, com o seu projeto The Roof e que foi premiado pela Magnum, atribuído aos melhores fotógrafos do mundo com menos de 30 anos. Que trabalho foi esse?
Também foi um trabalho de denúncia mas feito em Portugal. É uma história sobre pessoas que vivem em locais abandonados em Lisboa, resultado da crise profunda que se vive em Portugal.

A fotografia surge como?
O meu pai é fotógrafo. Desde muito pequeno que tive a presença da máquina fotográfica na minha vida. Os meus primeiro pressentes foram máquinas fotográficas. Mal acabei o secundário, inscrevi-me no Cenjor, tirei o curso de fotojornalismo e fotografia documental. Pouco tempo depois comecei a trabalhar na Lusa. Já lá estou há dez anos. O trabalho da Lusa é importante e necessário, mas o que quero é contar histórias.

Este prémio pode contribuir para que isso aconteça?
Certamente trará visibilidade, é o maior concurso de fotografia do mundo. Felizmente não se fica pelo dia em que os prémios são anunciados. Haverá uma exposição itinerante por uma imensidão de países. Acredito que isto possa ajudar a passar a mensagem. Foi esse o meu objetivo. Nunca pediria uma licença sem vencimento, nem levaria tanto tempo a investir num trabalho que implicou um tão grande esforço financeiro, simplesmente para ganhar um prémio ou poder publicar seja onde for. Este trabalho tem um objetivo. Acredito que possa fazer mudar as coisas no Senegal.

QUATRO FOTOS ESCOLHIDAS E COMENTADAS POR MÁRIO CRUZ

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A fotografia foi tirada em Saint-Louis, uma cidade a norte do Senegal, conhecida como a cidade talibé, tal é o número de talibés que existe. O que acontece é que muitas crianças conseguem fugir das daars e as ruas tornam-se na sua nova casa. Este é um grupo de crianças que já foi talibé e fugiu. Uma maneira que têm de sobreviver é formar grupos, para não cair novamente em redes de tráfico e de exploração sexual. Muitas das crianças talibés não são senegaleses, são crianças traficadas de outros países. Muitas vêm da Guiné Bissau. Quando acabei o trabalho fui à Guiné as famílias que perderam os seus filhos.

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Isto foi na cidade de Touba, que é um grande centro religioso. Quando cheguei ao Senegal tive a informação que poderiam haver crianças acorrentadas. Consegui encontrar uma localização de uma daara, entrei quase clandestinamente. É aqui que estão as crianças mais jovens, entre os cinco e os sete anos. Como ainda estão muito assustadas querem fugir e os guardiões, os marabus, acorrentam-nos para os conseguir estabilizar. Só passados meses, quando as crianças ficam mais calmas, e aceitam ser escravas daquele guardião, tiram-lhes as correntes e deixam-nas ir para as rua pedir.

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Em Saint-Louis um grupo de talibés a dormir numa daara. Alguns guardiões chegam a ter mais do que uma daara, cada uma com trinta crianças. Por aqui se vê o volume de negócio que existe. Como se vê pela imagem nem sequer têm uma cama para dormir. Estão em cima de cão de cimento e é assim que dormem.

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O exército guineense está a tentar travar o tráfico de crianças, há um grande flagelo nas zonas de fronteira com o Senegal. Aqui está um grupo de militares a patrulhar uma zona florestal circular a Bissau. É uma das formas que o governo encontrou para evitar o tráfico de crianças. Muitas destas crianças são traficadas pelo meio da floresta. Eles estavam a perceber se estas crianças estavam a ser traficadas ou não.