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O grande albergue português

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tiago miranda

Um português, um inglês e um argentino juntaram-se para criar uma empresa. Podia ser uma anedota, mas o negócio da Uniplaces é sério: quer ser o maior site mundial de reserva de alojamento para universitários

Tiago Miranda

Tiago Miranda

Fotojornalista

Sentado numa mesa redonda branca, de costas para um jardim vertical a cobrir uma parede alta com enormes janelas para o Largo Duque do Cadaval, no Rossio, Lisboa, Miguel Santo Amaro não para de sorrir. Não é para menos. 2015 foi generoso para a Uniplaces, startup que o portuense de 26 anos criou com um amigo britânico e outro argentino, e que ajuda universitários de todo o mundo a encontrarem e reservarem alojamento. Em 12 meses, a empresa fundada no final de 2011 deixou de estar presente apenas em seis metrópoles (Porto, Lisboa, Madrid, Barcelona, Valência e Londres) para chegar a 39 cidades de nove países europeus, incluindo algumas das capitais que mais estudantes acolhem, como Paris, Roma, Berlim ou Viena. Foi considerada a melhor empresa para estagiar em Portugal e uma das três melhores na Europa pela rede internacional InternsGoPro e, em novembro, captou €22 milhões para financiar a sua expansão. Dá para perceber o sorriso dourado de Miguel.

Este crescimento exponencial fez com que a anterior sede, num edifício pouco iluminado no Bairro Alto, onde em tempos funcionou o “Diário Popular”, se tenha tornado demasiado pequena para os quase cem trabalhadores que foram chegando: há um ano eram 40, hoje são 130 (32% são estrangeiros, de 15 nacionalidades), com uma média de idades de 27 anos. Só nos próximos dois meses, Filipa Larangeira, a diretora de recursos humanos, terá de integrar 35 profissionais, mas ainda encontra tempo para ajudar “a arrumar a casa”: encontramo-la sorridente, de lata de tinta da mão. “É esta a verdadeira cultura startup”, sorri André Rodrigues Pereira, responsável pelas operações em Portugal e pelas parcerias internacionais. “Aqui ajudamos em tudo.”

Desde o início do ano, a nova morada da Uniplaces é um edifício de escritórios na Estação do Rossio, onde antes estava a Refer. São 1134 metros quadrados distribuídos por dois andares, ligados por uma escada e uma rede pela qual é possível descer, ao estilo do Silicon Valley. “O tradicional escorrega já era muito visto”, explica André, que, até setembro, era o responsável em Portugal da Blablacar, plataforma de partilha de boleias avaliada em mais de mil milhões de euros. A separar os dois pisos há outra rede, horizontal, com algumas almofadas espalhadas, onde os trabalhadores podem deitar-se a conversar, ler um livro ou, simplesmente, descansar. Para quem quiser aliviar o stresse, não falta uma mesa de pingue-pongue.

É neste ambiente informal, com trabalhadores pouco mais velhos do que o público que servem, a tirar fotos com chapéus mexicanos e a improvisarem jogos, que Miguel Santo Amaro, Ben Grech e Mariano Kostelec esperam fazer da empresa a referência mundial no alojamento universitário. E, nesse caminho, tornar a Uniplaces o primeiro ‘unicórnio’ (startup avaliada em mais de mil milhões de dólares) “baseado maioritariamente em Portugal”. O advérbio de modo não é aqui um pormenor. A Farfetch atingiu esse estatuto em 2015, mas a empresa de comércio online de roupa e acessórios de luxo foi criada ao mesmo tempo em Guimarães e em Londres — onde se encontra o CEO, José Neves — e tem menos de metade dos profissionais em Portugal. Já a TalkDesk, uma empresa desenvolvida por Cristina Fonseca e Tiago Paiva que permite criar call centers em minutos, poderá entrar no billion dollar club já este ano, mas a sua sede fica no coração do Silicon Valley.

“Estamos a criar, pela primeira vez em Portugal, uma empresa digital à escala global. Adoro o trabalho do José Neves, mas acho que é possível fazer o mesmo com uma base estratégica cá e captando aqui grande parte do emprego qualificado. É esse o grande desafio”, diz Santo Amaro. A abertura de um escritório na capital britânica foi um passo necessário para facilitar o contacto com os fundos de investimento internacionais, mas não desvia a Uniplaces do seu objetivo. “A nossa sede operacional é em Lisboa. Dos 130 trabalhadores, 120 estão aqui, oito em Londres, um em Berlim e outro em Paris.”

Nem sempre foi assim. Ficar em Portugal não era o plano inicial. “A ideia era alavancar os primeiros seis meses cá e preparar o modelo para o lançarmos em Londres ou em Barcelona.”

Os fundadores acabaram por desistir porque perceberam que era muito mais barato contratar talentos em Lisboa do que fazê-lo no Reino Unido ou nos EUA. Um engenheiro informático no Silicon Valley pode custar mais de €130 mil por ano, quase tanto quanto a startup angariou no primeiro ano (€200 mil). Entre os três investidores iniciais estavam William Reeve, cofundador da Lovefilm, empresa de aluguer online de filmes adquirida pela Amazon, e a sociedade portuguesa de capitais de risco Shilling Capital Partners, que tinha no portefólio a Best Tables, entretanto vendida ao Tripadvisor.

Hugo Gonçalves Pereira, o presidente-executivo da Shilling, conheceu a Uniplaces em 2012 durante um concurso promovido pela Universidade Católica. “Estavam a concorrer contra outras 10 startups e ganharam o primeiro prémio com votação unânime. Destacaram-se claramente dos restantes pela paixão e vontade de vestir a camisola, literalmente, porque apareceram todos com t-shirts com o logótipo da empresa”, conta. O investidor foi conquistado pela proposta “única e original, sem nenhum paralelo em outros países, nem sequer nos EUA”, e pela ambição “verdadeiramente global”. Decidiu apoiá-los, não apenas financeiramente: é da sociedade de capitais de risco o edifício no Bairro Alto que albergou a startup até dezembro.

Segundo os últimos dados disponíveis, a empresa dirigida por Gonçalves Pereira detinha, no final de setembro, 12,8% das ações da Uniplaces, mas, após a reestruturação provocada pela entrada de €22 milhões no capital da sociedade, essa participação situa-se agora abaixo dos 10%. A ronda de investimento de outubro foi liderada pelo fundo de capital de risco Atomico, de Niklas Zennstrom, cofundador e ex-CEO do Skype, que passou a ser o segundo maior acionista da Uniplaces, logo atrás da Octopus Investments, uma empresa britânica de capital de risco. Os três fundadores têm agora pouco menos de 30% do capital.

DE PORTUGAL PARA O MUNDO

Além da Uniplaces, da Talkdesk e da Farfetch, os últimos anos assistiram ao surgimento de várias empresas made in Portugal mas com os olhos postos no mundo (ver caixa). Dão emprego a milhares de jovens, captam milhões em investimento e chegam a mercados nos cinco continentes. É o caso da Feedzai, que desenvolve soluções antifraude para os pagamentos eletrónicos e já conseguiu quase €24 milhões de financiamento; é também o da Codacy, que venceu há pouco mais de um ano o prémio de melhor apresentação na Web Summit — o maior evento de empreendedorismo tecnológico da Europa — com a sua solução para detetar erros de software e ajudar os programadores a trabalharem com maior eficácia; ou ainda o da Unbabel, que quer melhorar os processos de tradução.

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Representam para o secretário de Estado da Indústria, João Vasconcelos, “uma nova geração de empresários”, com uma “procura incessante de inovação” e “ansiosos por fazerem parte da economia global”. Essa atitude traduz-se numa estatística importante: 10% das empresas fundadas nos últimos cinco anos começam a exportar logo nos primeiros 12 meses de vida, revela o governante, que foi presidente da Startup Lisboa, a primeira casa da Uniplaces na capital, até ser chamado para o Governo.

O cofundador da startup, Miguel Santo Amaro, é um dos rostos mais mediáticos desta nova vaga do empreendedorismo português. Fala o dialeto dos novos empreendedores (ver caixa) formados em escolas internacionais e habituados ao contacto com trabalhadores, investidores e clientes estrangeiros. É uma linguagem que se caracteriza pelo recurso constante a anglicismos, como pitch (apresentação), revenue (receitas) ou business angels (investidores particulares).

O seu percurso começou a desenhar-se aos 18 anos, quando, depois de completar o secundário no Colégio Luso-Internacional do Porto, foi para Inglaterra estudar Finanças e Gestão na Universidade de Nottingham, onde conheceu Ben Grech. Queria trabalhar em consultoria ou na banca de investimento, mas já então pensava em criar a própria empresa, como o pai, empresário do imobiliário e da construção civil. Quando acabou o curso, subiu o Kilimanjaro para angariar fundos para construir uma aldeia na Tanzânia. Depois foi para os EUA.

Inscreveu-se no mestrado em empreendedorismo global no Babson College, no Massachusetts, uma das mais prestigiadas escolas de negócios dos EUA e um viveiro de empresários visionários. Por lá passaram, por exemplo, Michael Bastian, criador da Gant, Alberto Perlman, co-fundador da Zumba, ou William D. Green, ex-CEO da Accenture. “Babson é a bandeira do empreendedorismo nos EUA”, explica. Como parte do curso, estudou e estagiou em França e na China, onde conheceu Mariano Kostelec, amigo de Ben (ambos um ano mais velhos). O terceiro mosqueteiro da Uniplaces participava então na expansão para a China do Groupon, o site de compras online com desconto, que recentemente fechou a sua atividade em Portugal.

Quando, no final do mestrado, Miguel regressou ao Porto não veio sozinho. Com ele chegaram também Ben e Mariano. Queriam criar um negócio juntos, na Europa. “Sabíamos que havia grandes oportunidades. São 28 Estados-membros, 540 milhões de pessoas, é quase o dobro do mercado americano.” Durante três meses, foram viver para a casa de férias dos pais de Miguel, em Viana do Castelo, para tentar delinear e testar um conceito. Olharam primeiro para o mercado das viagens, uma das suas paixões. Estudaram o modelo da Airbnb [reserva online de alojamento em casas particulares], a ver se fazia sentido adaptá-lo para a Europa, mas desistiram da ideia. O segmento das viagens era um lago com demasiados tubarões para sobreviverem. “Tem hoje dez players com uma valorização acima dos mil milhões de dólares. Tem o Airbnb, o Booking, o Hostel World, o Yelp, o Tripadvisor, a Expedia, o Skycanner... Tudo empresas com uma alavancagem financeira brutal.”

A faísca da Uniplaces acendeu-se com as dificuldades que Ben e Mariano sentiram para arranjar uma casa no Porto. E a ideia detonou quando um amigo de Miguel, Francisco Silva, então presidente da Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa, lhe pediu ajuda para dar uma mão a alunos que não conseguiam encontrar alojamento. “Ele tinha amigos que, em vez de estarem a estudar, perdiam tempo a ajudar estudantes que precisavam de um sítio para ficar. Percebemos que havia ali potencial: era um mercado com mais de 160 milhões de consumidores em todo o mundo que todos os anos gastam cerca de 500 mil milhões de dólares [450 mil milhões de euros].” Mais de um terço desse valor era em despesas de alojamento. Só em Portugal, o negócio valia perto de €250 milhões. A nível europeu, mais de €19 mil milhões. Era um bolo demasiado apetecível. “Não havia ainda uma marca global que dominasse esse sector.”

A aposta era promissora também devido ao aumento exponencial de estudantes deslocados, devido a iniciativas como o programa Erasmus: o número de alunos em mobilidade internacional atingiu os 3,4 milhões em 2009, mas a Uniplaces calcula que serão mais do dobro (7,6 milhões) em 2025. Só em Lisboa faltam mais de 10 mil camas para este mercado, segundo um estudo da consultora imobiliária Worx.

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Foi então que, na casa de férias em Viana do Castelo, os três jovens esboçaram a ideia inicial: um site de classificados de alojamento para universitários. Era uma forma muito simples de dar alguma organização a um mercado informal, reunindo anúncios que se encontravam dispersos pelos jornais, pela internet, pelas paredes das faculdades e até por troncos de árvores. Registaram a empresa no final de 2011. Chamaram-lhe Atomolouco. “Era um daqueles nomes disponíveis no processo Simplex”, explica André Rodrigues Pereira.

No porto, por pouco tempo

A primeira morada da startup foi uma incubadora na Universidade do Porto, prémio que conquistaram ao ganhar o concurso de empreendedorismo Startup Pirates. Ficaram apenas dois meses. “Percebemos que estávamos a vir muitas vezes a Lisboa por causa das relações com as universidades e que era muito difícil ser um player global a partir do Porto. Mais de 30% dos nossos trabalhadores são estrangeiros e é muito mais fácil atraí-los para Lisboa do que para o Porto”, reconhece Santo Amaro. E aponta várias razões: o facto de ser uma capital europeia, mais cosmopolita e com mais oferta cultural; ter mais escolas internacionais para quem tem filhos; ter mais ligações internacionais, incluindo maior número de voos low-cost; e também pelas várias distinções que a cidade tem conquistado nos últimos anos.

Foram o primeiro projeto a integrar a Startup Lisboa, a incubadora de empresas tecnológicas nascida do Orçamento Participativo da Câmara Municipal de Lisboa e que foi liderada por João Vasconcelos até à sua saída para o Executivo. “Chegaram à Rua da Prata, em 2011, quando ainda nem tínhamos concluído as obras do edifício”, recorda o agora secretário de Estado da Indústria. “Estavam impacientes para começar. Mesmo um vão de escada parecia-lhes um bom sítio para reunir.” Vasconcelos não tem dúvidas que a startup está no caminho do sucesso. “Se em apenas três anos conseguiram passar de cinco colaboradores para mais de uma centena e angariar quase 30 milhões de euros junto de alguns dos melhores investidores internacionais, diria que estão muito bem posicionados para manterem a liderança e provarem que é possível, nesta nova economia, ser líder de um sector a partir de Portugal.”

A Uniplaces era para ter ficado seis meses na incubadora, mas acabou por ficar quase ano e meio. “Foi uma marca que usámos para captar os primeiros colaboradores. Era um sítio cool para estar e isso ajuda quando estás a começar e tens pouco mais para oferecer do que muito trabalho e uma visão mais ou menos maluca”, afirma Santo Amaro. Os três jovens aproveitaram também o “mediatismo brutal” à volta da Startup Lisboa para “surfar essa onda”. Em setembro de 2012, numa altura em que estavam com dificuldade em formalizar uma parceria com a Universidade Nova, apostaram numa campanha que os colocaria definitivamente no mapa. Encontraram uma luxuosa casa com piscina em Lisboa e, em parceria com a Moving-ON, especializada em residências para estudantes, promoveram um concurso que oferecia três meses de alojamento “na melhor mansão do mundo” para universitários. A Mega Mansão Uniplaces, que ainda está no portefólio da empresa, foi um êxito. Durante muito tempo, foi o seu cartão de visita no mercado.

UM AIRBNB PARA ESTUDANTES

Levaram um ano a perceber que, se queriam ganhar escala global, não podiam ser um mero site de classificados, onde os senhorios pagavam para colocar um anúncio. “Era tipo um OLX, não havia inovação nenhuma.” Se queriam faturar “a sério”, era necessário gerir toda a transação. Tinham de ser uma espécie de Airbnb ou de Booking.com para estudantes.

Assim nasceu, em julho de 2013, a nova plataforma, agregando a oferta e a procura num mesmo espaço virtual e dando mais garantias a inquilinos e a senhorios: os universitários acedem ao site para procurar e reservar a casa, sem necessidade de a visitar. É a startup que trata de tudo: verifica os imóveis para assegurar a qualidade destes, fotografa-os, escreve todos os anúncios, processa os pagamentos. Até ao momento, já reservou perto de 45 mil quartos para estudantes de mais de 165 nacionalidades — espanhóis, italianos e alemães são os principais clientes. Para os 3500 senhorios inscritos, alguns com “mais de 300 casas registadas”, já gerou cerca de €25 milhões.

As comparações com a Airbnb não são despropositadas. Os modelos de negócio são muito semelhantes, mas para mercados diferentes. “São empresas que nasceram para ligar pessoas, em particular as que estão em movimento. Um hóspede da Airbnb e um estudante da Uniplaces são ambos viajantes, embora de formas diferentes”, considera Martin Reiter, antigo responsável de internacionalização da startup norte-americana que está entre os investidores da empresa portuguesa e é conselheiro desta para o desenvolvimento internacional. O gestor austríaco, hoje diretor no retalhista online Wayfair, está convicto que a Uniplaces “será um líder global” no seu segmento.

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Em média, a Uniplaces fica com 10% de cada transação. Aos estudantes cobra uma percentagem do valor da primeira renda (entre 10 e 25%, dependendo do país), para permitir que estes “reservem o tempo que realmente querem ficar, sem que sejam penalizados”. Os senhorios pagam uma comissão entre 3 e 10% do valor total do contrato.

Em 2015, a faturação cresceu 300%, mas, como todo o dinheiro ganho é investido na expansão para novos mercados, o negócio ainda não é lucrativo: segundo a “Forbes Portugal”, a startup acumulou 600 mil euros de prejuízos em 2013 e 2014. A empresa não comenta essa informação, nem revela ao certo que receitas teve. Os dados da operação financeira são um segredo absoluto. “É do interesse dos acionistas que sejam mantidos privados”, explica André Pereira. Divulgá-los seria também atribuir uma vantagem competitiva à concorrência.

Antes de conseguir fechar a ronda de financiamento de novembro, a Uniplaces teve reuniões com cerca de 70 fundos internacionais, a esmagadora maioria dos quais europeus, mas também americanos e chineses. E só à última tentativa chegaram até à Atomico, que investiu quase dois terços dos €22 milhões, o que dá bem a ideia da complexidade do processo, que durou oito meses. “É uma luta. É preciso encontrar o investidor certo. Com alguns investidores foram mais de 50 horas de conversas”, revela Santo Amaro. Mas valeu a pena, garante o jovem empresário. “Temos investidores que no início de 2015 nunca imaginaríamos conseguir: fundadores do Skype, mas também de outras billion dollar companies, do Candy Crush, da Supercell (criadora do jogo ‘Clash of Clans’), da Trivago, todos eles com empresas de 4, 5, 6 mil milhões de euros. Poder aprender com eles é fantástico.” Entre os novos acionistas estão também Henrique de Castro, ex-diretor de operações da Yahoo, despedido com uma indemnização milionária, António Murta, fundador do fundo de investimento Pathena, a Caixa Capital e até a fundadora da Parfois, Manuela Medeiros.

PRIMEIRO A EUROPA, DEPOIS O MUNDO

Em 2016, a Uniplaces quer crescer 10 vezes mais do que no ano passado. A startup sabe onde quer chegar, mas ainda tenta perceber qual o melhor caminho até ao destino. Por isso, quando questionado sobre qual o plano para atingir esse objetivo, Santo Amaro tem um resposta surpreendente. “Quando queres crescer 800 a 900%, para justificar uma entrada de capital significativa, não tens um plano. Temos hoje muito mais capital, mas não sabemos efetivamente como é que lhe vamos dar retorno. E temos de dar, senão no fim do ano estamos com a corda no pescoço. Somos 130 pessoas a pensar nisso [no plano], mas não há empregos seguros.”

Em teoria, a matemática do crescimento da Uniplaces é simples: tem de fechar (muito) mais contratos. Para isso, precisa de ter muito mais senhorios e muito mais estudantes na plataforma, que vai sofrer alterações para melhorar a experiência dos utilizadores. Por exemplo, os senhorios passarão a poder colocar eles mesmos os próprios anúncios, incluindo as fotos. Estes serão depois validados pela equipa da startup e, se necessário, melhorados — incluindo a realização de fotos por profissionais. Os estudantes terão a possibilidade de escrever avaliações dos imóveis onde ficaram. A startup está também a estudar formas de lhes oferecer mais serviços. Não quer ser uma mera plataforma de reservas, mas antes um parceiro privilegiado durante toda a estadia. Quer ajudá-los em todos os serviços de que precisam, como abrir uma conta bancária, e garantir-lhes descontos nas contas domésticas, contratos de telecomunicações e transportes, por exemplo.

A aposta para este ano passa sobretudo por consolidar os mercados onde a empresa já está presente, a maioria dos quais ainda muito recentes. “Queremos dominar o mercado europeu, para nos dar alavancagem para atacar os mercados asiáticos e americano.” A ambicionada entrada nos EUA deverá acontecer em 2017, mas não será fácil. “Poucas empresas europeias deram o salto para os EUA. É o mercado mais atrativo, mas é também muito difícil entrar. Sabemos que para o dominar precisamos pelo menos de €100 milhões.”

Miguel Santo Amaro conhece bem a estatística: 90% das startups fracassam. A Uniplaces está ainda na sua infância, mas não se contenta em ser uma exceção à regra. Quer ir muito mais além. “O que nos motiva é podermos ser o global player. Há uma probabilidade de uma empresa, a nível mundial, dominar 70 a 80% do mercado. E como estamos no pelotão da frente, somos provavelmente a mais avançada, não queremos deixar passar essa oportunidade.”

Números

9

Países. A Uniplaces está presente em 39 cidades europeias. Há um ano, chegava a apenas seis (Porto, Lisboa, Madrid, Barcelona, Valência e Londres)

26,2

milhões de euros.Financiamento angariado até ao momento

130

trabalhadores. No quadro da empresa, há trabalhadores de 15 nacionalidades, com uma média de 27 anos de idade. 68% são portugueses

41.000

quartos. Número de reservas efetuadas até hoje

DICIONÁRIO STARTUP

Aceleradora de startups Incubadora que promove programas de crescimento rápido das jovens empresas, geralmente de três a oito meses, apoiando-as financeiramente, oferecendo-lhes consultoria, formação e participação em eventos, recebendo em troca uma participação no capital da sociedade.

Business angel Investidor particular que financia as startups na sua fase inicial e lhes empresta toda a sua experiência de gestão.

Exit (Saída) Momento em que o investidor vende parte ou todas as suas ações, alienando-as aos promotores, a outro investidor ou outra empresa, ou através da cotação da empresa em bolsa.

Fundos de capital de risco Fundos que promovem o investimento em startups, através da participação temporária no seu capital.

Incubadora de empresas Organização que alberga e apoia as startups na sua fase inicial, ajudando-as a sobreviver e a crescer.

Pitch É a apresentação da ideia de negócio de uma empresa, normalmente durante três a cinco minutos, com o objetivo de captar um eventual investidor.

Seed Capital Financiamento (quase sempre pequenos montantes de capital) que se destina a desenvolver uma ideia, transformando-a num produto ou num serviço.

Séries A-B-C-D-E As sucessivas rondas de financiamento de uma startup.

Sociedade de capital de risco Operador financeiro que gere fundos de capital de risco.

Spin-off Constituição de uma nova empresa por um grupo oriundo da empresa mãe, para explorar novas oportunidades de mercado.

Startup Sociedades não cotadas em bolsa, com elevado potencial de crescimento e de valorização.