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Camisa branca, um clássico revisitado

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Sendo um básico, a camisa branca permite, contudo, criar uma imensa variedade de visuais. Nesta primavera, vai regressar em força

getty images

É uma peça indispensável em qualquer guarda-roupa. A camisa branca vai marcar a próxima estação, com algumas variações e declinações. A última tendência arregaça-lhe as mangas e entala-a dentro da saia

É sempre uma aposta segura. Nos dias em que acordamos sem ideias nem inspiração relativamente ao que queremos usar, começar por uma camisa branca pode ser a melhor decisão. A partir daí, podem construir-se looks mais formais, se lhe associarmos um saia-casaco; colegial, com uma saia de pregas; ou absolutamente informal, se optarmos pela clássica ‘camisa do namorado’, reta, para usar por fora das calças — justas ou não.

Dizem que está de volta. Clássico intemporal, como o eterno vestidinho preto, que nunca sai do armário — porque mais ano, menos ano, volta e nunca passa de moda —, não há guarda-roupa feminino sem camisa branca. Cintada, larga, com nó à frente, de gola redonda ou ‘à barco’, de manga curta, comprida ou de cava. As derivações são muitas e variadas. Mas já na primavera vamos vê-la regressar em força. Filipa Caramujo, stylist, explica que “designers como Fendi, Vera Wang ou Amanda Wakeley, apresentam propostas mais edgy, com versões assimétricas, oversized, mangas de balão, folhos e recortes”. “A camisa branca assume-se esta primavera como uma peça statement, transversal a todos os estilos e contextos”, garante. O melhor de tudo, é que vai poder conjugá-la tanto com gangas como com a sua ‘saia-lápis’ favorita, afirma.

“A camisa branca, reta, clássica e elegante, tem-se tornado cada vez mais uma peça fundamental no guarda-roupa de qualquer mulher desde 2014.” Mas faz parte do guarda-roupa feminino e do ideário pop desde que Marilyn Monroe, “elegantemente, conjugava uma camisa branca boyish com skinny jeans e sabrinas” ou Audrey Hepburn imortalizava esse mesmo item. Hoje, nas passerelles, é usada amiúde, sendo talvez Carolina Herrera, que combina a camisa branca com longas saias de seda, uma das suas maiores fãs.

Um símbolo de status

Remontam ao Antigo Egito as primeiras referências à camisa enquanto peça de vestuário. Era uma roupa retilínea, costurada de lado, com abertura para passar a cabeça. Por altura do Império Romano, a peça ganhou mangas e foi chamada de “túnica manicata”. Usava-se com cintos e era considerada “roupa de baixo”, ou seja, não era suposto estar à mostra. Foi assim durante a Idade Média. Teríamos que esperar pelo século XIX para vermos a camisa ‘saltar fora da casca’. Nessa altura, passou não só a ser usada por fora como era símbolo de status. A qualidade dos tecidos, dos bordados e a brancura da camisa indicavam a classe social do indivíduo em causa. Os nobres usavam sempre camisas imaculadas, com golas altas e erguidas, cheias de goma. A partir de 1853, as golas passaram a usar-se para baixo. É por volta desta altura que se distingue o ‘colarinho branco’ (da nobreza) do colarinho azul (blue collar), dos fatos azuis dos operários. No final do século XIX, as mulheres que trabalhavam (governantas ou datilógrafas) vestiam camisa branca, geralmente com casaco por cima — ficavam a ver-se a gola e a aba das mangas.

Audrey Hepburn ou Marilyn Monroe foram dois dos ícones de Hollywood que consolidaram a ideia da camisa branca como peça obrigatória

Audrey Hepburn ou Marilyn Monroe foram dois dos ícones de Hollywood que consolidaram a ideia da camisa branca como peça obrigatória

O século XX foi fundamental para a camisa branca conquistar espaço e, posteriormente, massificar-se. Nos EUA, ganhou adeptas entre as mulheres, que a usavam muito com saias rodadas. Do outro lado do Atlântico, a estilista francesa Coco Chanel foi responsável por boa parte do sucesso do camiseiro branco. O seu gosto marcado por roupa considerada masculina (fatos de homem, nomeadamente) casava na perfeição com esta camisa. Versátil, básica, tanto ajudava a criar um visual ‘colegial’ como um look mais ‘arranjadinho’. Mais tarde, entrou no universo desportivo, em especial no ténis e no golfe. Por volta de 1920, as camisas brancas ficaram associadas ao grupo de Bloomsbury, um conjunto inglês de intelectuais, que incluíam a escritora Virginia Woolf ou a pintora Vanessa Bell.

No pós-guerra, em 1945, o estilo andrógino e o look de garçonne propiciaram o regresso deste item, que completava o visual masculino, de fato e gravata. Hollywood, na década de 30, foi outro dos grandes disseminadores de cultura visual. Toda a gente queria ser Audrey Hepburn ou Marilyn Monroe numa camisa branca, com ou sem lenço ao pescoço e, mais uma vez, a peça ganhou popularidade. Em 1952, o estilista francês Hubert de Givenchy abriu a sua Maison em Paris, e lançou um modelo de camisa que foi um sucesso comercial: a ‘camisa Bettina’ tinha mangas compridas com pesados folhos e uma gola reversível, que se usava geralmente para cima. Foi batizada em homenagem à manequim Bettina Graziani, que trabalhou em exclusivo para a casa Givenchy na década de 50.

Os anos 60 trouxeram o estilo colegial para os cinemas. A blusa branca passou a usar-se com blazers e saias às pregas. Dali para a frente, houve várias fases: da camisa branca básica que serve para conjugar com qualquer coisa, passando por ‘uniforme’ consensual de trabalho, até versões mais barrocas, com rendas, folhos e um feel mais romântico.

Nos anos 90, a camisa branca fez um comeback em força, com versões mais sexy e modernas de Marc Jacobs e Narciso Rodriguez, por exemplo. Hoje em dia, a tendência é DIY — “Do It Yourself”. Quer isto dizer que surgiram ‘n’ versões da camisa branca, personalizadas, com tachas e outras aplicações.