Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Açores “sob vigilância” pelo elevado número de novos cancros

  • 333

DR

Região autónoma tem taxas de incidência muito superiores ao resto do país em vários tumores malignos

Os números nacionais sobre os novos tumores malignos diagnosticados em 2009, apresentados esta quarta-feira no encerramento das jornadas do Registo Oncológico Regional do Sul (ROR-Sul), colocam os Açores em lugar de destaque pela negativa. A região autónoma apresenta taxas muito superiores nos cancros da mama, próstata, bexiga nos homens e corpo do útero (endométrio).

"Vamos monitorizar o que está a acontecer nos Açores, pois podem estar a detetar tumores muito pequenos – por exemplo fazendo muitas análises à próstata (PSA) – que nem sabemos se chegariam à fase de diagnóstico, pelo menos não tiveram influência na mortalidade", explica Ana Miranda, responsável do ROR-Sul. Já nas restantes neoplasias, a explicação pode ser outra.

"A incidência dos tumores da traqueia, brônquios e pulmão nos Açores é o dobro da taxa média das três regiões (Norte, Centro e Sul – que inclui a Madeira) e o dobro, por exemplo, nos do endométrio", salienta a responsável. O elevado consumo de tabaco pode ser um dos fatores que explicam a liderança nas neoplasias do foro respiratório e da bexiga, no caso entre homens: "Como as mulheres fumam menos, não há valores tão elevados porque fumar também é um fator de risco para os tumores da bexiga."

Seguem-se o Norte e o Sul, ambos no topo em três tumores malignos diferentes. "Há mais cancros da glândula tiroideia no Norte do que no resto do país, e quatro vezes mais em comparação com os Açores, talvez por estarem a detetar tumores muito pequenos." Ana Miranda destaca ainda que o Norte "continua a ter taxas mais elevadas no cancro do estômago –embora globalmente esteja a diminuir graças ao maior controlo da infeção pela helicobacter pylori, com a realização de mais endoscopias – e no cólon". A médica admite que "a alimentação com muito fumeiro e salga, por exemplo, pode ser uma explicação".

A Sul, que inclui a população da Madeira, "a região tem uma taxa superior no colo do útero, que chega a ser três vezes a taxa dos Açores, em grande parte devido à infeção pelo vírus do papiloma humano (HPV)". A falta de um programa de rastreio continuado, como o que existe há anos na região Centro, com a menor taxa de incidência do país, é uma das principais explicações. "O cancro do colo do útero é o único no qual o rastreio deteta as lesões pré-malignas, com um impacto direto de 80% na prevenção de novos tumores", explica Ana Miranda, também médica do IPO de Lisboa.

As neoplasias do reto, muito potenciado pela dieta desequilibrada, e o linfoma não Hodgkin têm igualmente maior expressão no Sul, embora de forma menos evidente do que os tumores malignos do colo do útero. A médica do IPO de Lisboa garante que é necessário que a região Sul, sobretudo Lisboa e Vale do Tejo, tenha programas de rastreio para as lesões do colo do útero e da mama semelhantes às que já existem no resto do país. A dimensão populacional parece ser um grande entrave.

"Lisboa e Vale do Tejo tem quase metade de toda a população do ROR-Sul e falta organização e articulação para montar um programa de rastreio." Na prática, "pôr a funcionar uma estrutura que permita a realização de citologias de três em três anos, um centro de referência para fazer a leitura, porque ler lâminas de rastreio não é o mesmo do que ler lâminas de diagnóstico; e uma boa articulação com os cuidados hospitalares para que as mulheres diagnosticadas não tenham depois de ficar à espera", exemplifica a médica.

Centro com melhores resultados

A região Centro parece continuar a ser a que, no geral, apresenta uma população com menor risco de cancro. As taxas de incidência são quase sempre as mais baixas do país. A explicação continua por apurar. Ainda assim, poderá ter alguma influência o facto de existir um número elevado de médicos por habitante, um centro hospitalar e universitário de grande dimensões e uma boa articulação entre os vários níveis de cuidados, nomeadamente com os centros de saúde e unidades de saúde familiar.

Mas a rede de cuidados não é panaceia para tudo. Ana Miranda garante que é preciso reforçar a aposta na prevenção primária, com a promoção de um estilo de vida saudável. Mesmo assim, o cancro continuará a ser cada vez mais comum. "Os tumores podem começar a surgir por volta dos 45 a 50 anos, mas é a partir dos 70 que disparam." Por outras palavras, o cancro é o preço a pagar por uma vida, à partida, mais longa.