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Tirar a melhor selfie de todas... ou morrer a tentar

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D.R.

Desde 2014, já morreram pelo menos 49 pessoas enquanto tentavam tirar a melhor fotografia de si próprios. Quedas de um local alto, afogamentos e atropelamentos por um comboio na origem da maior parte dos casos registados

O fenómeno não é novo; a palavra selfie é, mas conquistou rapidamente os internautas, especialmente os mais jovens. Hoje em dia, a selfie (reparou que não pusemos a palavra em itálico nem entre aspas?) faz parte do vocabulário do dia a dia. Em qualquer lado, seja numa pausa num sinal vermelho ou quando se espera um amigo para jantar, vemos pessoas de smartphone em riste prontas a exibir o seu melhor sorriso para colocar nas redes sociais.

O problema desta moda, como o de todas as modas, é que há sempre quem a queira levar um bocadinho mais longe e impressionar os demais. As notícias de mortes ocorridas enquanto a vítima fazia uma pose arriscada multiplicam-se e os dados mais recentes garantem que desde 2014 já se registaram 49 mortes enquanto se tentava tirar uma selfie. E o número deve ser maior, uma vez que esta investigação, publicada pelo portal Statista, respeita apenas ao número de incidentes reportados pelos meios de comunicação social.

O caso que agitou Portugal

Foi em 2014 que Portugal despertou para esta realidade, quando um casal polaco morreu no Cabo da Roca, em frente aos filhos, enquanto tirava uma selfie ou, segundo alguns jornais, pedia aos meninos (com cinco e seis anos) para tirar uma fotografia. O casal residia em Portugal há alguns anos e deslocava-se frequentemente àquela zona, mas isso não foi impedimento para passar a barreira de proteção e acabar por cair do penhasco.

Por isso mesmo, Portugal situa-se no ranking dos países com mortes ocorridas enquanto alguém tirava uma selfie (há apenas registo destas duas mortes, mas suficiente para nos colocarem em 5.º lugar da lista). O líder destacado desta lista trágica é a Índia, com 19 mortes, seguida pela Rússia (sete) e Estados Unidos (cinco).

Homens morrem mais

Quanto ao sexo das vítimas, os dados não enganam: os homens morrem mais, representando 73,5% das vítimas. Um dado explicado por investigadores da Universidade de Ohio, que defendem que os homens que publicam selfies nas redes sociais mostram com frequência traços de narcisismo, acabando por arriscar em demasia para conseguirem uma fotografia mais arrojada. Segundo o investigador citado pela Priceonomics, Jesse Fox, tudo tem a ver com a necessidade de aprovação social: "Estou a ter atenção e quando puser isto nas redes sociais vou ter a validação dos outros, vão achar que sou fantástico".

Um dos casos mais badalados foi o de um jovem russo, que já era popular no Instagram por causa das fotografias originais – e arriscadas – que publicava. Mas a forma como morreu, caindo de um edifício depois de mais uma selfie, fez disparar o número de seguidores naquela rede social...

Instagram

James Kingston, um dos youtubers mais populares do momento, alimenta as suas contas nas redes sociais com imagens arrepiantes – e com elas conquista milhares de likes:

Instagram
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Maior parte das vítimas morre por queda

Sem surpresas, os dados demonstram que os mais jovens representam a maior fatia das mortes por este motivo pouco ortodoxo, sendo que todas elas ocorreram em pessoas entre 14 e 32 anos. A idade em que mais pessoas morrem ao tirar uma fotografiia a elas próprias é de 21 anos, o que não surpreende, uma vez que de acordo com a Priceonomics 30% das fotografias tiradas por jovens entre os 18 e os 24 anos são selfies.

Distraídos pela recolha da imagem para a posteridade, a maior parte das vítimas morre por quedas de sítios altos (16 casos) ou por afogamentos (14), mas também por atropelamentos de comboios (oito) e acidentes de carro (dois). Na lista das causas de morte acidentais em 2015, a moda das selfies já ultrapassa os ataques de tubarões ou as subidas ao Evereste, por exemplo.

O fenómeno gera preocupação e vários países já tomaram medidas para evitar estes incidentes. Em julho do ano passado, o Ministério do Interior russo lançou uma campanha de alerta para os perigos das selfies, lembrando em folhetos e outdoors que "nem um milhão de likes nas redes sociais valem a sua vida e o seu bem-estar".

Em Bombaim, em janeiro deste ano, a polícia chegou mesmo a declarar 15 zonas onde as selfies estão proibidas por razões de segurança, depois de uma jovem de 18 anos ter morrido afogada enquanto tirava uma fotografia de si própria.

  • Fomos ver porque há gente a arriscar a vida por uma fotografia

    Nos dias que se seguiram à tragédia que roubou a vida a um casal polaco que estava a tirar fotografias no Cabo da Roca, vários portugueses e turistas estrangeiros continuaram a correr riscos - tal como pode constatar nas fotografias que estão nesta página. As razões podem ser muitas. Desconhecimento? Atração pelo abismo? Ou necessidade de desafiar as regras? O Expresso Diário foi à procura de respostas.

  • O Cabo da Roca depois da tragédia que matou casal polaco

    Os turistas portugueses e estrangeiros que visitam o Cabo da Roca, em Sintra, continuam a desafiar a vida nas falésias, mesmo depois da tragédia que resultou na morte de um casal polaco, cujos filhos menores estavam também no local. Durante a visita do Expresso, um segurança tentou alertar os turistas para o perigo e refere a morte do casal polaco. O apelo não teve grande efeito. Veja as imagens.