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“Fugimos das balas para vir para aqui morrer aos poucos”

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Lesados do Banif - quase todos emigrantes ou ex-emigrantes - manifestaram-se junto à a sede do Santander no Funchal. Os mais exaltados são os que foram à procura de uma vida melhor na África do Sul e regressaram: há quem fale do “fogo a passar por cima da cabeça” e quem levante a camisa para mostrar os ferimentos das balas. Estão a ser dados passos para intensificar os protestos - atualmente pacíficos - e organizar os lesados

Marta Caires

Jornalista

“Vamos lutar até ter o nosso dinheiro e não vamos aceitar um cêntimo a menos.” Daniel Caires, de megafone em punho, está junto à sede do Santander no Funchal: a manifestação dos lesados do BANIF, que reuniu 150 pessoas esta segunda-feira, terminou com o porta-voz do protesto a apelar à união de todos os clientes prejudicados com a resolução e venda do BANIF. Ao todo serão mais de cinco mil na Madeira e nos Açores, quase todos emigrantes ou ex-emigrantes e lesados em cerca de 256 milhões de euros em obrigações subordinadas.

Os manifestantes aplaudem, ainda gritam “gatunos”, mas não há confrontos com a polícia, apenas indignação. Os mais exaltados são os emigrantes na África do Sul, há quem fale do “fogo a passar por cima da cabeça” e quem levante a camisa para mostrar os ferimentos das balas. “Fugimos das balas para vir para aqui morrer aos poucos.” Lucília Jardim lamenta-se, o marido, José Manuel Jardim, foi baleado no minimercado que tinham e esteve em coma, “chegou a pensar-se o pior”. Sobreviveu e decidiram regressar à Madeira. “Viemos há 12 anos e tínhamos aqui o nosso dinheiro todo. Era disso que vivíamos, não temos mais nada, não temos reforma.”

Firmino Macedo aproxima-se, traz o extrato da conta para mostrar que tinha 100 mil euros no Banif, foi o dinheiro que amealhou nos 62 anos de África do Sul. O português mistura-se com o inglês, mas vai contando que o dinheiro era para fazer dois apartamentos na Ribeira Brava num terreno que herdou. “Não posso levantar o dinheiro, só tenho estes dois mil euros. Como é que vou viver? E até pensei tirar o dinheiro no ano passado, mas disseram para esperar até janeiro que recebia três mil euros de juros.” O ex-emigrante volta a guardar o extrato, que já tem o selo do Santander e lamenta-se, tem 77 anos e um problema no coração.

“Até me vieram as lágrimas aos olhos quando vi mudar o letreiro do Banif no Estreito da Calheta.” Vicente Ferreira, 29 anos de África do Sul, exalta-se e depois pede desculpa, mas custa-lhe ver o banco da terra assim. Não perdeu o dinheiro todo, tinha as contas divididas, mas custa-lhe. “Trabalhar 17 anos por dia, ver fogo a passar por cima da cabeça e acabar nisto.” Negociante de carne com sede em Joanesburgo, sabe bem o que é a vida dos emigrantes na África do Sul e na Venezuela, onde tem um tio de 80 anos que já não dorme por causa do Banif. Até já pensa em fazer uma reunião na Casa da Madeira de Pretória e na de Joanesburgo a aconselhar a não mandar o dinheiro para Portugal. “Para quê?”

Ao lado, José levanta a camisa e mostra os ferimentos das balas, foi um assalto ao supermercado e é a prova do quanto custa viver e trabalhar na África do Sul, os riscos que se correm sempre, as 20 horas de trabalho, a necessidade de andar armado. Tudo para, de um dia para o outro, o dinheiro deixar de estar disponível. “Se não fosse ter também uma conta no Santander, não sei como seria.” José, que vive desde os 12 anos na África do Sul, vai voltar, mas não sabe se volta a mandar dinheiro para Portugal.

Os clientes da África do Sul são muitos, dada a origem de Horácio Roque, o antigo dono do Banif, mas há, entre os lesados, funcionários públicos, muitos dos tempos em que era obrigatório ter conta no banco para receber o ordenado. É o caso de Maria Henrique, de 67 anos, antiga funcionária dos serviços de limpeza da Câmara da Ponta do Sol. Os 40 mil euros de poupanças estão todos em obrigações e não pode mexer no dinheiro. “Não há dinheiro para ir ao médico, o meu marido está desempregado e o meu filho também. Sabe quando é que nos vão pagar?”

Segundo Daniel Caires, o porta-voz do protesto desta segunda-feira convocado pelo Facebook, há dois meses que os empregados do banco andam a adiar a solução e a pedir calma. A calma acabou esta segunda-feira com a manifestação. Por enquanto sem confrontos e de forma pacífica, mas estão a ser dados passos para intensificar e organizar os lesados. Esta terça-feira terá lugar uma reunião em Lisboa com vista a formar uma associação de lesados do Banif.