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Universidades já ensinam just in English

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TENDÊNCIA. Há mais de 8 mil cursos falados só em inglês nas principais universidades de todo o mundo

LUÍS BARRA

Cinco das maiores instituições portuguesas de ensino superior apostam nos cursos ensinados exclusivamente na língua de Shakespeare. O fenómeno é mundial e cresceu 300% em sete anos. Em Portugal há cerca de 90 mestrados que são dados exclusivamente em língua inglesa

Longe vão os tempos em que os principais trabalhos científicos eram publicados em latim, alemão ou francês. Hoje, a língua inglesa domina a esmagadora maioria dos papers académicos e quem não alinha nesta tendência arrisca-se a ficar out.

As principais universidades estão atentas, e fora do universo dos países anglo-saxónicos é cada vez mais comum a existência de cursos, mestrados e doutoramentos ensinados por professores que só falam na língua de Shakespeare. Desta forma, atraem não só alunos locais com pretensões de entrar no mercado de trabalho global como estudantes de todos os cantos do globo que vão dar mais dinheiro e prestígio a estas instituições.

Portugal ainda está longe de ser um país de vanguarda deste fenómeno, que é recente, mas em todo o país existem cerca de 90 mestrados dados exclusivamente em língua inglesa. A recordista é a Universidade do Porto, com 33 mestrados. Seguem-se a Universidade de Lisboa, com 27, a Universidade do Minho (7), Universidade de Coimbra (4) ,e por último, a Universidade de Évora, com um mestrado, segundo dados do portal holandês StudyPortals.

Além destas instituições, também a Universidade do Algarve tem cerca de duas dezenas de programas lecionados em inglês, sendo "pioneira e líder em Portugal de programas Erasmus Mundus", revela o gabinete de comunicação daquela instituição. Existem 17 mestrados ensinados na língua de Shakespeare, ou em que o inglês é uma língua de opção.

O último relatório do Academic Cooperation Association (ACA), um think thank europeu com sede em Bruxelas na área da cooperação da educação universitária, refere que “não existem diferenças significativas observadas” neste domínio entre os três países do sul da Europa, Portugal, Espanha e Itália. Ou seja, estão todos mais ou menos empatados.

“Para as universidades, a promoção da língua portuguesa não é incompatível com a aposta na formação em língua inglesa, que é a língua internacional”, defende António Cunha, presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas e reitor da Universidade do Minho. Este responsável lembra que as estratégias das instituições públicas “têm sido diferenciadas” neste domínio. Mas assume que se trata de uma tendência que “está a crescer” e “vai reforçar-se no futuro.” No presente, a aposta tem sido sobretudo nos programas das áreas de novas tecnologias, Medicina, Gestão e Economia.

Para a linguista Inês Duarte, trata-se de “algo natural” e que começa a ser “interessante” para os estudantes estrangeiros que escolhem Portugal para aprofundar os seus estudos. “Mas tudo isto deve ser feito com o balanço certo”, adverte .

Esta especialista, que é professora na faculdade de letras da Universidade de Lisboa, sugere que, a exemplo do que se sucede noutras instituições estrangeiras,“estes alunos deveriam ter simultaneamente aulas e cursos em língua portuguesa.” É algo que já acontece com os alunos de Erasmus mas que deveria, na opinião desta especialista, estender-se aos estudantes que chegam de países fora da Europa. E deixa outro alerta: “O português não pode deixar de ser uma língua de ciência.”

Oito mil cursos in English

De acordo com a BBC, que cita a ACA, os programas em inglês nos países fora do universo da Commonwealth cresceram mais de 300% em sete anos.

Já o StudyPortals refere a existência de mais de 8 mil cursos espalhados pelas principais universidades do mundo. Carmen Neghima, responsável por aquele site, que tem uma base de dados com informação sobre cem mil programas de 2100 universidades, garante que o portal permite aos estudante com mentalidade global “encontrarem um caminho no labirinto” de cursos superiores.

A Holanda, que tem doze universidades a oferecerem cerca de mil cursos deste género, é o país recordista na Europa continental, segundo StudyPortals. Um pouco atrás, a Alemanha conta com 835 cursos vocacionados para estudantes internacionais. No topo da lista há mais países nórdicos, como a Suécia (550 programas) e a Dinamarca (482).

A maioria destes países também domina o top-4 da ACA, embora numa ordem um pouco diferente: a Dinamarca tem a maior concentração de cursos por aluno (38% são ensinados em inglês). Depois surgem a Holanda, Suécia e Finlândia.

A maior parte dos estudantes que viajaram dos seus países para estudarem nestes bacharelatos, licenciaturas, mestrados e doutoramentos por toda a Europa têm passaporte da China, Índia, Coreia do Sul e Nigéria. Para Lisboa, Porto ou Évora rumaram sobretudo alunos oriundos dos países de língua portuguesa e também da China.

De acordo com António Cunha, esta migração trás pelo menos dois grandes trunfos às universidades: mais dinheiro e mais prestígio. “As ofertas no domínio da licenciatura terão especialmente motivações económicas para as universidades. As de doutoramento permitem que as instituições encontrem os investigadores com o perfil mais adequado. Serve como prova de talentos”, resume.

[Texto atualizado às 11h do dia 24 de fevereiro de 2016]