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O essencial para cocktails de sofá

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Marianna Massey/ Getty

Entre garrafas e utensílios, dois experientes barmen dão as dicas necessárias para criar o seu próprio bar em casa (e surpreender os amigos)

Antes de rumar às compras e encher o carrinho de bebidas, é preciso perceber quem as vai degustar e quais os gostos dos convivas da casa. Claro que não é preciso ter uma garrafeira extensa para construir um bom bar caseiro, mas na hora da verdade é difícil navegar pela vasta oferta e decidir quais os melhores produtos a manter em casa. O conselho de especialistas pode ser fulcral e dois experientes barmen juntaram-se ao Expresso para deslindar, por entre copos e garrafas, o caminho até ao sucesso. É seguir os conselhos de quem sabe, investir e arriscar (mas não demasiado). Há que adequar a oferta de bebidas em casa a quem as bebe, mas um dos erros mais frequentes é deixar de lado bebidas de que se gosta só porque os amigos não as apreciam assim tanto. Nada mais errado. Nos bares caseiros também é preciso um pouco de egoísmo, ao qual se deve juntar a mestria de optar por bebidas versáteis.

Este é um dos segredos mais bem guardados. Basta pensar que “com poucas bebidas brancas e alguns licores já é possível fazer alguns cocktails muito interessantes”, confidencia o chefe de bares do Sheraton lisboeta. Ricardo Fonseca (que também já trabalhou no Ritz Four Seasons e no Epic Sana Lisboa) nem tem bebidas alcoólicas em casa — para deixar o trabalho no seu espaço e conseguir usufruir do tempo de descanso —, mas se alguém lhe pedisse para montar um bar em casa, não hesitaria. “Uma boa vodka, um bom rum e um gin de qualidade, ao qual acrescentava também uma tequila” (claro).

O segredo está nos pequenos detalhes. Se dois ou três licores também fazem falta, a verdade é que ingredientes frescos — como as frutas — e especiarias fazem toda a diferença. “Os citrinos, como as limas e os limões, nunca são demais”, afiança, e o melhor é esquecer “aqueles preparados de sumo”. Não, não são para usar! “Não faz sentido optar por algo menos natural só pelo fator tempo.” Se o objetivo é passar um bom bocado em boa companhia, explica, “mais vale demorar 30 segundos extra e espremer um sumo natural”. Na prateleira dos licores essenciais estão o Cointreau, o Grand Marnier, a sempre típica — e portuguesa — Amêndoa Amarga e o Amarillo. Palavras de quem sabe servir.

Para o especialista neste mundo dos cocktails, se há coisa em que se deve optar pela qualidade é nas bebidas alcoólicas. “É importante trabalhar com a marca certa e premium não é apenas o preço, há mesmo diferenças”, explica Ricardo Fonseca. É como em tudo na vida, “quanto melhor for a matéria-prima, mais possibilidades há de o cocktail correr como esperado”. Além do sabor, há questões técnicas que têm de ser respeitadas, como uma cuidada destilação das bebidas brancas ou a pureza das águas usadas para a retificação. Já escrevemos, mas nunca é demais realçar “que tudo se nota e que quanto melhor, melhor”. Parece que “nas bebidas alcoólicas o low cost não funciona”.
Bruno Veiga, agora chefe de bar do lisboeta El Clandestino — e que antes passou por locais emblemáticos como o Hotel Marriott da capital, o londrino 140 Park Lane, o cazaque Renaissance Aktau Hotel ou o português Panorama, também no Sheraton —, seleciona as marcas em que se pode apostar. Há decerto outras, mas o experiente barman realça a qualidade de algumas propostas.

No (vasto) campo dos gins (cuja moda já começa a passar), Bruno Veiga destaca quatro gamas, “capazes de agradar a qualquer visita que chegue lá a casa”. O Hendrick’s é “mais versátil” e o Gin Mare destaca-se pelo “aroma mediterrânico”, ao passo que o G’ Vine “tem o toque perfumado que a destilação com flor de videira oferece”. Os que preferirem um gin mais seco podem sempre contar com o Martin Miller’s. Os gins tónicos — que não são considerados cocktails — precisam sempre de uma água tónica a acompanhar e, “entre as mais fáceis de encontrar, a Fever Tree é das melhores”. Para o barman, a versão Indian Tonic encaixa com qualquer gin, mas há uma água a guardar para dias especiais. “Para uma ocasião mais requintada aconselharia a 1724 Tonic”, que recebeu este nome por ser a essa altitude que a quinina (alcaloide de gosto amargo e funções antitérmicas, antimaláricas e analgésicas) é colhida em solo peruano, num caminho que remonta à civilização Inca. Não esquecer também o limão e as especiarias, como o cardamomo e o zimbro.

Quanto ao rum, que parece assumir-se como próxima tendência, “há já uma abrangência muito grande”, mas o destaque vai para os clássicos Habana Club, aos quais se junta o Diplomatic, mais envelhecido. A preparação é simples, “até porque quem gosta de rum, gosta dele puro, com uma ou outra pedra de gelo”. Um rum “combina sempre bem com um bom charuto”, mas ainda dentro do copo é possível juntar “um pau de canela ou uma casca de laranja, que ficam sempre bem”. Segredo: o óleo cítrico realça o sabor da bebida.

Depois há garrafas que nunca passam de moda, como um bom vodka (com preferência assumida para as gamas da Grey Goose e da Beluga) ou uma tequila interessante. Aqui há três diferentes — a plata, a reposado e a añejo —,com a nomenclatura a alterar-se consoante a maturação. Das novas, Bruno Veiga escolhe a Avión, e das médias prefere a Patrón, engarrafada com dois meses de envelhecimento. Whiskys também há muitos e a cada apreciador sua sentença, mas para montar um bar caseiro há duas sugestões: o scotch Belvedere 12 Anos e o irish Bushmills.

Arrumadas as garrafas, chegam os acessórios, que aqui se tornam essenciais. A preparação de bebidas simples faz-se quase sem utensílios, mas os cocktails merecem (e necessitam) de cuidados adicionais. Quase tudo se nomeia em inglês, mas haverá sempre palavras portuguesas para explicar os novos habitantes da cozinha. “O essencial não é muito extenso, mas é impossível trabalhar sem um blender [ou centrifugadora], um shaker [para misturar o preparado], uma colher de cocktail e um strainer [usado para retirar a água dos copos após a colocação do gelo]”, diz Ricardo Fonseca.

Calma. Segundo o homem do Sheraton, o melhor é não se aventurar demasiado, porque “na verdade é impossível replicar em casa a experiência da ida a um bom bar”. “Nada fica igual”, mas vale a pena experimentar. Bruno Veiga considera que qualquer pessoa pode fazer uma marguerita ou um daiquiri, mas é importante nunca esquecer o copo medidor. “É como usar uma balança na cozinha. Se não respeitarmos as medidas, a receita não sai como deve ser”, explica.

O chefe de bares do Sheraton vai mais longe e dá mesmo dois exemplos. A reter: “Se um mojito souber a rum é porque está mal feito” e “só um Long Island Iced Tea bem balanceado sabe bem”. Talvez seja preciso começar pelo mais simples, não vão os amigos desiludir-se e nunca mais pedir um dos seus cocktails caseiros. “Quem não sabe, afasta as pessoas da experiência de um bom cocktail e poucos serão os que voltam a pedir a bebida.”