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O dinheiro também exige educação

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A noção de literacia financeira está cada vez mais presente na vida de pais e filhos, sendo a mesada o instrumento para a desenvolver. Quando e quanto dar? Uma coisa é certa: nenhuma abstração substitui a experiência de lidar com dinheiro

Luciana Leiderfarb

Luciana Leiderfarb

Texto

Jornalista

Carlos Esteves

Carlos Esteves

Infografia

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Eis, em geral, o que acontece: elas querem, nós damos; elas pedem, nós compramos. Ou não. Elas, as crianças, sabem ou pensam que sabem o que querem, e nós, os pais, sabemos se podemos ou não dar-lhes o que querem. Se os papéis parecem estar bem distribuídos — do lado de lá o desejo, do lado de cá o dinheiro —, se o binómio consumo e crianças parece ter sempre os adultos como intermediários, cada vez mais é pertinente — e urgente — falar de uma terceira via: aquela que coloca do lado de lá, do lado das crianças, tanto a vontade como os meios para a suprir. Os especialistas em educação financeira prescrevem-na como um remédio que permitirá formar adultos financeiramente responsáveis: a mesada ou a semanada, tanto dá, não tem tanto a ver com o ato de comprar mas mais com o processo de capacitar para a compra. Em suma, tem a ver com a passagem do abstrato — “eu quero aquilo e a mamã compra” — ao concreto — “eu quero aquilo e tenho de ter os meios para o adquirir”.

Claro que nada se faz sem regras claras e uma grande dose de indulgência. Afinal, trata-se de exercitar aspetos tão básicos como o adiamento da recompensa, a distinção entre querer e precisar e a necessidade de fazer escolhas. E nada disto, mostra um estudo da Universidade de Cambridge, se consegue sem ter “experiências económicas pessoais”. “As evidências indicam que transmitir conhecimentos ‘financeiros’ às crianças pequenas per se é ineficaz no que toca à formação ou à mudança dos seus comportamentos”, alerta o documento, recomendando uma abordagem que lhes permita “treinar” as suas funções executivas ainda em desenvolvimento. Por outro lado, se aos 5 anos as crianças “percebem que têm de pagar para obter mercadoria”, é aos 7 que “a maioria dos conceitos básicos relacionados com os futuros comportamentos financeiros se encontram desenvolvidos”.

O que leva à dupla pergunta: qual a melhor idade para se começar a atribuir semanada e qual o valor apropriado? “Normalmente, o início da escolaridade costuma ser um bom momento”, por volta dos 6 ou 7 anos, diz Susana Albuquerque, secretária-geral e coordenadora dos programas de educação financeira da Associação de Instituições de Crédito Especializado (ASFAC). De início com periodicidade semanal — e só a partir dos 10 anos mensal —, a quantia aconselhada é de um euro, dividido em 10 moedas de 10 cêntimos, acompanhada da introdução de três mealheiros com objetivos diferentes: gastar, poupar e doar. “O importante é a criança perceber que tem estas três escolhas e que tem autonomia para as gerir”, acrescenta. Essa autonomia não está isenta da monitorização dos pais e dos limites que estes entenderem colocar: “Sem os controlar em demasia, eles podem não admitir compras de alimentos com açúcar ou de outro tipo de artigos que considerem nocivos para os filhos.”

Carlos Esteves

No que toca à literacia financeira, cada idade apresenta objetivos bem diferenciados. Nos Estados Unidos, o projeto “Money as You Grow” — uma iniciativa do President’s Advisory Council on Financial Capability — mostra, por exemplo, que é entre os 3 e os 5 anos que as crianças se apercebem de onde vem o dinheiro e para que serve, além de aprenderem a esperar pelo que se quer (adiamento da gratificação). Dos 6 aos 10, o desafio será aprender a fazer escolhas e a comparar preços. Dos 11 aos 13, a ideia é compreender as regras da poupança e a noção dos objetivos a curto e a longo prazo.

Entre os 14 e os 18, os jovens têm de saber, entre outras coisas, o custo da própria educação e as normas de utilização dos cartões de crédito. Porém, o sucesso desta aprendizagem dependerá do exemplo dado pelos pais. “É verdade que as crianças aprendem com a sua própria experiência, mas não adianta incutir-lhes o cuidado pelo dinheiro se os pais se permitirem comportamentos compulsivos”, sublinha Susana Albuquerque.

Não se pense, porém, que as crianças são seres pouco ajuizados no que ao consumo diz respeito. Em 2013, Raquel Barbosa Ribeiro publicou um estudo que sustentava esta conclusão. Ao entrevistar 245 crianças dos 8 aos 12 anos, em duas escolas primárias de Lisboa e do Estoril, esta socióloga do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas notou que estas “têm uma voz ativa e influente no processo de consumo”, além de se mostrarem menos vulneráveis ou acríticas e mais realistas do que se tenderia a imaginar. Assim, mais de 70% sabiam que o dinheiro advém do emprego; 80% não acreditavam ser possível viver sem dinheiro; 90% recebiam dinheiro regular ou esporadicamente; e uma grande maioria (73% em Lisboa e 90% no Estoril) poupava o que recebia.

“Não há unanimidade sobre este assunto. O que se sabe é que a consciência está lá, independentemente da classe social. E que a iniciação no mundo do dinheiro é muito precoce”, diz a investigadora, que, não demonizando o consumo, também defende a importância da educação que as crianças recebem em casa.

Esta deve ser enquadrada na realidade social da família. “As mesadas e semanadas devem adequar-se aos rendimentos da família, e a criança tem de saber o que é que a família, com os seus rendimentos, pode e não pode comprar”, diz Susana Albuquerque. E como aferir se se está no caminho certo? “Quando a criança deixa de pedir por pedir e passa a perguntar: ‘Podemos comprar?’, é muito bom sinal.”

Números

7 anos é a idade em que “a maioria dos conceitos básicos relacionados com os futuros comportamentos financeiros se encontram desenvolvidos”

1 euro é a singela quantia, dividida em moedas de 10 cêntimos, com que a semanada pode ser introduzida, aos 6 anos ou no início da escolaridade

90 por cento das crianças, segundo um estudo publicado pela socióloga Raquel Barbosa Ribeiro, recebem dinheiro regular ou esporadicamente