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Alvalade é para todos

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JOSé CARIA

Alvalade é um bairro bem arrumado na cidade de Lisboa, onde há de tudo e que convida a um passeio pelas suas ruas e avenidas com muito para revelar. Desenhado pelo arquiteto Faria da Costa nas primeiras décadas do século XX, o bairro surgiu como uma referência em Portugal ao que de melhor se fazia na Europa, com escolas, espaços verdes, mercados, cafés, cinemas entre moradias e prédios. Depois de umas décadas quase esquecida, renovou-se, ganhou nova dinâmica e cruza agora a energia de uma nova geração, que trouxe para ali alguns dos mais interessantes projetos criativos da cidade, a par do comércio tradicional que lhe assegura o carisma e a memória viva de outros tempos. Alvalade ainda não se abonecou em demasia, nem foi em modas, mantendo-se um bairro com charme. Descubra algumas das nossas escolhas neste roteiro por Alvalade e divirta-se

O melhor mercado de Lisboa

Mercado de Alvalade

Mercado de Alvalade

JOSÈ CARIA

O dia começa melhor aqui. Não há mercado na cidade que se compare ao de Alvalade. Se o Mercado da Ribeira é o que está mais na moda — pela revitalização feita pela Time Out — o de Alvalade é garantia de melhores compras e muito maior diversidade de produtos à venda em banca. Vários chefes têm-no como referência e são visita assídua. Vêm logo pela manhã em busca do peixe fresco que ali se encontra, assim como a fruta, os legumes, os produtos exóticos e até o pão da padaria cozido em forno de lenha.

Clara Santos, com 70 primaveras, é a peixeira mais antiga deste mercado. Nascida em Guimarães regateia peixe deste os 17 e tem à venda um pouco do que de melhor vem do oceano. Não pensa em reformar-se. “Ao atender o público renasço. Até porque na minha ideia não tenho setenta anos, sou uma miúda nova e gosto de me mexer.”

Mas, honra seja feita, a banca mais bonita e vistosa é a da Elisa Cruz, de 38 anos. A maneira como dispõe os peixes e mariscos é um regalo para os olhos e mesmo não estando com planos de comprar pescado dá por si a encher sacos com muitas daquelas iguarias marítimas. “Os olhos são os primeiros a comer. E por isso gosto de compor bem a minha banca.” O que também é obrigatório é uma visita à bancada do senhor Sadik Ahmad, onde pode encontrar os mais variados produtos asiáticos e africanos raros. Foi lá que nos deu a conhecer curcuma em raiz, ou pastinaca (€3,97 ao kg), que é uma raiz semelhante à cenoura, embora mais pálida e com sabor mais intenso.

Ao nosso lado, uma jovem cliente estava a comprar umas quantas ‘pastinacas’ para as fazer fritas, ‘como se faz a batata frita’, inspirada pelo programa “Ingrediente Secreto”, de Henrique Sá Pessoa, com emissão na RTP2. A secção de especiarias e frutos secos é uma perdição. Aconselhamos também o caril da casa (€3,50) e o gengibre cristalizado (€3,50). Se tiver dúvidas sobre que uso a dar a algum daqueles ingredientes basta perguntar a Sadik que ali vende há 40 anos.

Mercado de Alvalade Norte, Avenida Rio de Janeiro, 27, Alvalade, Lisboa. De segunda a sábado, das 7h às 14h. Tel: 21 849 1860

A padaria que serve hambúrgueres e crepes

Sabores do Bairro

Sabores do Bairro

JOSÈ CARIA

Neste passeio por Alvalade, experimente os crepes salgados e os hambúrgueres gourmet deste espaço com preços amigos do bolso (entre os €5 e os €7) que já ganhou fama no bairro. E se for adepto de cerveja, peça uma das muitas cervejas artesanais à disposição (Maldita, Rapada, Sovina, 2 Corvos, Letra, Passarola.) Senão há sempre sumos naturais feitos no dia, tostas em pão saloio ou saladas para quem preferir uma refeição mais ligeira. Além disso o pão aqui também é uma boa aposta e a pastelaria caseira uma tentação — perca a cabeça e atire-se a uma fatia de chocolate trufado com frutos silvestres (€2,50). À frente do espaço está Hugo Ferraz, de 42 anos, ex-farmacêutico que fez do desemprego uma oportunidade de mudança para este negócio. “Não tenho descanso, mas é um prazer. Está a correr bem.”

Sabores do Bairro, Avenida Rio de Janeiro, 39 A. Contacto para marcar: Hugo de Carvalho Ferraz TM - 96 464 92 55

Mercearia a granel como antigamente

Maria Granel

Maria Granel

MÁRIO JOÂO

Todos os pretextos são bons para visitar este estabelecimento que nos remete para os tempos dos nossos avós, quando as mercearias vendiam tudo a granel. Aqui pode encontrar um sem número de especiarias e temperos, chás e infusões, frutos secos, preparados de arroz, chocolate, bolachas e barritas, farinhas, leguminosas, cereais variados e de pequeno-almoço, café, azeitonas, tremoços, pão, compotas, mel e ovos. Todos biológicos e vendidos a granel, em modo self-service, à medida de cada um. Mesmo que seja apenas um bocado daqui e dali só para experimentar. Basta calçar umas luvas, pegar num saquinho ou trazer o recipiente de casa e escolher.

Por detrás do projeto “Maria Granel” não está uma Maria, mas sim a Eunice, professora de português de origem minhota, e Eduardo um economista açoriano, ambos com as memórias de infância particularmente ligadas à terra. A ideia começou a ser cozinhada há três anos.

“Este projeto é um regresso às origens. Curiosamente, foi a partir do azeite que nos lembrámos do comércio a granel ((temos amigos que se dedicam à cultura da azeitona e à exploração do azeite) e achámos que faria sentido estender o conceito a outros produtos, evitando o desperdício e recuperando o imaginário coletivo das antigas mercearias. Só mais tarde fomos investigar se o conceito já existia, com estas características, e estudámos os exemplos ingleses, franceses, italianos, alemães e espanhóis. O meu marido, pela sua experiência profissional, também conhecia bem a realidade norte-americana e algumas iniciativas retalho a granel que apostavam num consumo responsável e sustentável.”, explica Eunice.

Maria Granel

Maria Granel

MÀRIO JOÂO

E porquê a escolha pelo biológico? Eunice responde: “Os produtos biológicos são alimentos mais nutritivos, livres de aditivos artificiais, pesticidas e herbicidas, e, portanto, preservam os seus minerais e um alto teor de vitaminas, produzidos lentamente em solos férteis, respeitando os ciclos e os ritmos da natureza (“Há um tempo para semear e outro para colher”) e, por isso, promovendo práticas sustentáveis, com um impacto positivo no ecossistema. “

Tome atenção à seleção de especiarias biológicas e temperos desta loja que é única. Da canela ao caril, da noz moscada à casca de laranja em pó, do cardamomo ao cravinho, além de várias opções em grão, em pó, ou misturas já preparadas (para peixe, para arroz, para pão, para grelhados, para saladas...).

A parede com vinte variedades de arroz também é impressionante, que vai do risoto ao arroz vermelho. “ Não é só um regresso às antigas mercearias, mas, e sobretudo, uma opção consciente pelo consumo responsável e sustentável. Para quê comprar 1kg de arroz se se tem a certeza de que se vai consumir menos? Porque se há de ficar limitado a uma embalagem com um peso já predefinido? E se só se quiser provar um novo produto, porque terá de adquirir um pacote inteiro? Ninguém conhece melhor os seus hábitos do que o próprio consumidor.”

Em breve, nesta loja as quintas-feiras serão as “Quintas da Maria”, e entre as 19h e as 20h, e os dispensadores darão lugar a uma mesa comum para workshops; ‘showcookings’; degustações; conversas; apresentações; lançamento de livros; subordinados aos temas da sustentabilidade e alimentação saudável, conceitos que inspiraram este projeto. “Porque é à volta da mesa que se partilham os melhores momentos e porque é à volta do sabor que se constrói o saber.”

As inscrições serão anunciadas na página de facebook e serão feitas através de e-mail, com um limite de 10 a 20 participantes.

Maria Granel. Rua José Duro, 22 B, Alvalade. De segunda a sexta, das 9h30 às 19h. Tel. 21 135 1 896

Gelados feitos com azoto e muita fumarada

Laboratório do Gelado

Laboratório do Gelado

JOSÈ CARIA

Mesmo em frente da Maria Granel está a mais recente novidade do bairro, que abriu as portas há apenas duas semanas, e gerado tal curiosidade que as filas estendem-se até à porta, apesar da época não ser para gelados. E se os sabores da Conchanata são particularmente apreciados neste bairro – uma geladaria que hiberna durante todo o Inverno , este lugar pretende ser uma forte alternativa.

Se entrar ao acaso não se deixe enganar pelas pipetas, os frascos, a fumarada ou a bata branca, os óculos de proteção de quem está atrás do balcão. Pedro Torgal Viana, de 24 anos, não é uma versão portuguesa do Walter White, da série Breaking Bad, nem um cientista alucinado de Alvalade a descobrir a cura para os grandes males da humanidade. Apesar deste estabelecimento assemelhar-se a um laboratório científico, é apenas uma geladaria pouco convencional. A começar pelo facto de não ter os sabores à vista de todos.

Laboratório do Gelado

Laboratório do Gelado

JOSÈ CARIA

Aqui os gelados são feitos ao momento, com azoto a 196 graus negativos, o que provoca uma fumarada extravagante de cada vez que é solicitado um sabor diferente. É a química aplicada na cozinha. E há 12 sabores diferentes todos os dias, criados por Pedro a partir de fruta fresca e outros produtos selecionados. Pedro formou-se na área de pastelaria em Portugal e elevou o conhecimento a um outro nível depois de passar por restaurantes prestigiados no estrangeiro, como o Lion d´Or, na zona de Genebra, e o do hotel Million, em Albertville, ambos restaurantes com estrelas Michelin. Passou também pelo Attica, em Melbourne (que faz questão de sublinhar estar colocado no 32ª lugar da última lista dos '50 Best Restaurants').

E foi em Cairns, uma cidade australiana do estado de Queensland, onde Pedro conheceu um negócio semelhante. “Mas eles tinham apenas quatro sabores à escolha. Eu tenho sempre doze. E com este processo nenhum dos gelados tem cristais de gelo.”

No dia em que visitámos este "laboratório do Gelado" a lista de sabores disponíveis era a seguinte: Alfazema com folha de prata e flor violeta; pistácio puro com pedaços e pó de ouro; banana com noz pecan e caramelo; chocolate preto com pepitas e microhortelã; caramelo com toque de whisky e nougat; matcha (chá japonês) com mostarda. Para quem prefere sorvetes (E intolerante ou alérgico ao leite) há amora com algodão doce, framboesa com flor de hibiscus, limão com pipeta de limonada, cereja com suspiros e pétalas de calêndula.

Pedro tem gosto pela alquimia dos sabores e cria uma assinatura sua em cada proposta da lista."Todos os dias surpreendo com um sabor diferente. Como o de leite de ovelha que teve sucesso e vou voltar a fazer com leite que compro directamente ao produtor." Um gelado (com 180 gramas) custa €3, e equivale a 3 bolas. Também pode levar para fora: meio litro custa €8,5, um litro €13,5 e um litro e meio fica por €18,5. Pedro conta que este projecto servirá para financiar um sonho maior, a abertura de um restaurante de ‘fine cuisine’, com produtos “exóticos, extravagantes, raros”.

Laboratório do Gelado sub 196. Rua José Duro, nº 21 B, Alvalade. De segunda a sábado das 13h às 19h. Tel. 21 1 385 724/918 361 263

A oficina dos guardas-chuvas

Loja "Boa Ideia"

Loja "Boa Ideia"

JOSÈ CARIA

Este espaço é uma preciosidade na cidade que resta ainda de outros tempos, quando não havia produtos descartáveis "made in China", nem "franchisings" porta sim, porta sim senhor, e o comércio tradicional vendia e arranjava de tudo. José Garcia, mais conhecido por Pepe, é amolador e reparador de guarda-chuvas há quase sessenta anos.

O que calha bem nesta época do ano em que São Pedro não nos dá descanso. Pepe herdou do pai e do tio esta arte que aprendeu aos 17 e ainda hoje exerce, aos 75 anos. Varetas partidas ou entortadas, fechos estragados, cabos desfeitos, tudo tem solução e arranjo na banca do Pepe, um galego nascido na cidade de Ourense. "Ainda há muita gente que tem gosto em ter um bom guarda-chuva, que o estima e quer vê-lo arranjado."

Pepe pede sempre um sinal de pagamento adiantado, porque está escaldado com os vários clientes que ali deixaram os chapéus e nunca mais voltaram. Além dos arranjos, na "Boa Ideia" vendem-se chapéus novos para dama e cavalheiro, de marca alemã, espanhola e portuguesa. "Os melhores guarda-chuvas são feitos na Alemanha, os portugueses também eram muito bons, mas as fábricas do Porto fecharam. Ainda tenho alguns desses para venda. E os do chinês já se sabe, o cliente compra, vem uma rabanada de vento e deita-o no caixote na esquina logo a seguir. Muito fraquinhos.", comenta enquanto cola o tecido de um que ficou para arranjar.

Experimentámos um guarda-chuva preto, comprido, com cabo de bambu (€45) e varetas de aço que era uma lindeza e elegância e, por pouco, não o levámos. Mas há outros à escolha também por estrear, a preços bem mais económicos. Além disso, Pepe amola facas, tesouras, lâminas, estiletes, navalhas de barba às gentes do bairro e a quem vier por bem. Vale bem uma visita, porque há ali uma parte de Lisboa antiga que ainda resiste e que é irresistível.

Boa Ideia. Rua Acácio Paiva, 10 - D, Alvalade. De segunda a sexta das 9h30 às 13h e das 15h às 19h30. Tel. 21 848 33 15

Aqui o peixe vira o bico ao prego

Prego da Peixaria

Prego da Peixaria

JOSÈ CARIA

Quando a fome apertar atire-se a um hambúrguer de peixe por quem sabe fazê-lo como ninguém, agora com nova morada no bairro. Três anos depois da abertura do primeiro “Prego da Peixaria”, no Príncipe Real, acaba de abrir esta unidade em Alvalade, bem maior (com 300 m2 e 130 lugares) e com uma carta mais extensa.

Na sala principal há um balcão com uma Oliveira, que serve os mais diversos cocktails para desfrutar antes ou depois das refeições. Como por exemplo a marguerita de maracujá ou de pêssego(€8,50). O conceito base mantém-se, o restaurante aposta nos pregos e hambúrgueres de peixe. Destaque para o “burguer de salmão e choco” (choco e salmão, tomate e algas em bolo do caco de tinta de choco - €8), o “burguer de caranguejo” (caranguejo de casca mole, maionese agridoce em pão de hambúrguer de camarinha – €9,50) e para a “única club sandwich de sapateira” (sapateira, alface, tomate, maionese, bacon, cournichons em pão de forma caseiro tostado – €9,50).

Esta unidade aposta nas famílias, por isso na lista há um menu júnior (€4) e uma área destinada às crianças, com uma ardósia e papéis para colorir e até um lugar de parqueamento para os carros de bebé.

Prego da Peixaria. Avenida da Igreja, 34 A e B, Alvalade. De segunda a sexta das 12h às 24h. Ao fim de semana até à 1h. Tel 212 697 980/ 213420431

Um copo e uma jogatana fora de horas

Bar Zeitnot

Bar Zeitnot

TIAGO MIRANDA

Se a noite se estender aconselhamos a que beba um copo neste bar. Um espaço discreto, meio escondido, com um ambiente cinematográfico à média luz a remeter para o ambiente dos bares dos anos 70 e 80, e que se mantém um segredo do bairro para os noctívagos que procuram um lugar decente para beber um copo, estar umas horas à conversa ou jogar snooker (há seis mesas), xadrez e outros jogos de tabuleiro como Trivial Pursuit. Quantos bares em Lisboa têm disto? Pois é.

O bar fica num segundo andar de um prédio residencial numa rua pouco movimentada, o que lhe dá uma aura de mistério ainda maior. Além das bebidas (cerveja a €1,80), o Zeitnot serve também hambúrgueres (€4,50) e tostas (€3,50). E assim a madrugada facilmente se pode estender até às quatro.

Zeitnot Chess & Pool Bar. Das 17h às 4h. Rua João Saraiva, 13, 2º. Alvalade. Tel: 96 407 91 06