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"Licença para matar" na Serra da Malcata abre polémica

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Governo aprovou uma portaria que permite caçar na zona sul da Reserva Natural da Serra da Malcata. Quercus considera que a portaria não tem “fundamentação científica”. Ministério do Ambiente refuta críticas

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Vinte e três anos depois, a caça volta a ser permitida na zona sul da reserva natural da Serra da Malcata, na Beira Interior. Uma portaria publicada a 8 de fevereiro veio revogar a interdição da prática cinegética que vigorava desde 1993 num dos habitats históricos de ocorrência de lince-ibérico, uma espécie em risco de extinção.

A associação Quercus critica a decisão e acusa o Ministério do Ambiente de "ceder a pressões do lobby da caça". Os ambientalistas consideram "não haver fundamentação científica" para esta deliberação e alertam que "a licença para matar" nesta área protegida "pode colocar em causa a recuperação de várias espécies-presa que se encontram a recuperar na zona, como o corço, o veado ou o coelho, e ainda de espécies em perigo, como o lince-ibérico, o lobo ou o abutre-preto".

A caça é autorizada em cerca de 80% do território nacional e já o era em parte desta reserva natural — criada em 1981 após a campanha "salvem o lince e a Serra da Malcata". Mas a área agora reaberta para caça era das poucas onde a atividade cinegética era interdita.

Os ambientalistas alertam ainda para o facto de esta área protegida enfrentar "graves problemas de caça furtiva", assim como dificuldades de fiscalização e de vigilância que serão potencialmente agravados.

Há décadas que não existem linces-ibéricos neste território, mas no âmbito do plano de conservação desta espécie emblemática está prevista a sua reintrodução nesta área. E para isso foram ali investidos milhares de euros em recuperação de habitats e de população de coelho-bravo (principal alimento deste felino).

A Quercus acusa o Governo "sobrepor os interesses da caça aos da conservação da biodiversidade".

MINISTÉRIO ALEGA QUE SÃO "SÓ VANTAGENS"

O ministério do Ambiente refuta as críticas e argumenta que autorizou apenas "a atividade cinegética na região sul desta área protegida, designadamente a área integrante do concelho de Penamacor", sendo desde sempre autorizada a caça no restante território da reserva.

Em resposta escrita enviada ao Expresso, fonte do gabinete de João Matos Fernandes defende que "são consideradas inequívocas as vantagens do ordenamento, gestão e exploração cinegética sustentável para a conservação dos recursos naturais, em particular através do fomento de espécies-presa e maneio de habitat favorável às principais espécies protegidas" e que a decisão visa também "a valorização económica e social do património natural".

Procurando desdramatizar o facto de a Serra da Malcata ser um habitat histórico de lince-ibérico, o Ministério do Ambiente argumenta que a reintrodução desta espécie na área do Vale do Guadiana desde 2014 tem sido feita numa herdade sob regime cinegético ordenado.

Certo é que os caçadores terão muito coelho-bravo para caçar na Serra da Malcata, ali reintroduzido com dinheiro de Bruxelas no âmbito dos projetos de conservação do lince-ibérico.