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Funcionário espanhol deixou de trabalhar durante 14 anos e ninguém reparou

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Aconteceu em Cadiz, após Joaquín Garcia ter sido transferido em 1996. Só em 2010 (e várias centenas de milhares de euros depois) se lembraram de perguntar por ele. Ninguém soube responder. Caso acabou em tribunal

Joaquín Garcia estava a ponto de receber uma medalha de antiguidade por 20 anos de trabalho, quando a sua entidade empregadora se apercebeu que ele deixara de se apresentar ao serviço há 14. Confuso? Será, no mínimo, mas a história é verídica e tem uma explicação. Ou melhor, duas, já que funcionário e “patrão” discordam da leitura dos factos, tendo o caso acabado no tribunal.

O melhor é contar do início. Garcia, atualmente com 69 anos e reformado, como conta o jornal “El Mundo”, foi colocado na autarquia de Cádiz em 1990. Nomeado diretor técnico do meio ambiente pelo executivo socialista que geria a autarquia na altura, foi em 1996 transferido para a empresa municipal “Aguas de Cadiz“ - já por outro presidente, eleito pelo PP -, tendo sido encarregado de supervisionar as obras de uma estação de tratamento de águas, em vias de arrancar.

Até aqui as versões coincidem e também não há discussão sobre o salário em causa: 37 mil euros brutos anuais, a remuneração que Joaquín Garcia foi recebendo, salário a salário, ao longo dos anos.

O desentendimento não é sequer por existir discrepâncias quanto à natureza das tarefas cumpridas. Empregador e funcionário concordam que a remuneração era paga (e recebida) a troco de esforço nenhum. Se o ex-autarca do PP, Jorge Blas Fernández, diz ter percebido em 2010 que o ordenado foi sendo pago a um funcionário que deixara há anos de comparecer no local de trabalho, o próprio trabalhador reconhece que não fazia nada.

É essa, aliás, a sua queixa. Ter sido vítima de “mobbing”, ao ser colocado num posto fantasma, sem obras para supervisionar, porque estas tardaram em arrancar, nem qualquer outra coisa para fazer. García diz que ainda assim ia trabalhar: enfim, “não das 8h às 17h, mas seguramente todos os dias”, o que acabou por fazer dele um especialista em filosofia (ocupava o tempo a ler livros sobre a matéria), mas também o atirou para o divã de um psiquiatra.

Blas Fernández, por seu turno, entende que García tirou partido do facto de a autarquia pensar que cabia à Aguas de Cadiz ‘gerir’ o funcionário, enquanto esta empresa julgava estar o mesmo sob a alçada do município. Quando o presidente se lembrou do antigo diretor por causa da dita medalha - “Estaria reformado? Morto? Ainda ao serviço? E a fazer exatamente o quê”- ninguém o soube informar. Nem mesmo o próprio, depois de ser chamado para uma reunião.

A medalha ficou por entregar e o caso seguiu a via litigiosa, arrastando-se por seis anos, com García a, finalmente, ser condenado a pagar 26.920,93 euros de sanção, o equivalente a um ano de trabalho, o máximo permitido por lei.

E porque não denunciou antes a perseguição de que veio a queixar-se? Tinha “uma familia para manter” e, com a sua idade, teve medo de não encontrar outro emprego, explicaram ao “El Mundo” amigos próximos.