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Agora já podemos saber mais sobre os 96% que desconhecemos do Universo

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A silhueta de um cientista diante das onda gravitacionais

JULIAN STRATENSCHULTE / EPA

Cem anos depois de previstas pela teoria da relatividade geral de Einstein, as ondas gravitacionais foram detetadas pela primeira vez pelo LIGO, um conjunto de detetores americanos terrestres, na colisão de dois buracos negros a mais de mil milhões de anos-luz da terra. “As ondas gravitacionais eram a procura mais longa e persistente da História da Ciência.” Abriram-se as portas da redescoberta do Universo, do qual só conhecemos 4%

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

A descoberta das primeiras ondas gravitacionais foi anunciada esta quinta-feira à tarde com pompa e circunstância numa conferência de imprensa em Washington, nos EUA, pelos cientistas da colaboração LIGO (Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory). Trata-se de um grande observatório internacional que reúne laboratórios de todo o mundo que disparam lasers através de longos túneis, de modo a detetarem as misteriosas ondas.

O anúncio feito por David Reitz, diretor-executivo do projeto LIGO, da primeira deteção direta de ondas gravitacionais num choque de buracos negros a 1,3 mil milhões de anos-luz da Terra vai revolucionar o entendimento do Universo. As ondas gravitacionais, perturbações no espaço-tempo provocadas por fenómenos violentos, são "forças de maré" que se propagam à velocidade da luz, geradas principalmente por corpos celestes compactos, como buracos negros, que se movem rapidamente no espaço e podem colidir uns com os outros.

A última grande previsão da teoria da relatividade geral de Einstein, apresentada pela primeira vez há cem anos, poderá abrir as portas a uma nova Física e a uma nova visão do Universo, porque tudo o que sabemos até agora deve-se a uma única fonte de informação: a luz. As ondas gravitacionais poderão ser, assim, uma fonte alternativa para desvendarmos os segredos dos 96% do Universo que ainda não conhecemos.

Vítor Cardoso, especialista em buracos negros do Instituto Superior Técnico (IST) que já ganhou duas bolsas milionárias do Conselho Europeu de Investigação, é investigador do Centro Multidisciplinar de Astrofísica (CENTRA), onde lidera a equipa que se dedica ao estudo da gravidade. Destaca "o investimento feito pela Humanidade, porque estamos há mais de 40 anos à procura destas ondas e temos perseverado". Ou seja, "deve ser a procura mais longa e persistente da História da Ciência e vai revolucionar o nosso entendimento do Universo".

“Uma nova janela para o Universo”

R. HURT / CALTECH-JPL / HANDOUT / EPA

O impacto da descoberta “vai ser imenso”, reconhece Vítor Cardoso. Com efeito, as ondas gravitacionais “são a única grande previsão da teoria da relatividade geral de Einstein que ainda não tinha sido confirmada e uma demonstração indireta da existência de buracos negros”. Depois, são “uma nova janela para o Universo, porque a sua deteção abre o caminho para estudar ondas geradas quando este começou no Big Bang, pelo que existe a possibilidade de finalmente podermos ter uma visão estruturada do nosso Universo como é hoje e como foi há muito tempo”.

Os detetores LIGO e VIRGO - projeto instalado perto de Pisa, em Itália, que envolve a participação de cinco países europeus - “são obras espetaculares, têm os espelhos mais perfeitos alguma vez produzidos pelo Homem, que foram feitos para medir variações na trajetória da luz”, explica Vítor Cardoso. Assim, “conseguem medir variações de menos de um milésimo do tamanho de um eletrão num trajeto de três quilómetros. Isto é tão incrível que parece um absurdo, mas para chegarmos aqui precisámos de investir durante décadas e de perceber até como contornar o que pareciam ser limites da física quântica”.

O astrofísico americano Kip Thorne, conselheiro científico do filme “Interstellar” e que também participou na conferência de imprensa em Washington e é um dos maiores especialistas mundiais em buracos negros e um dos criadores do LIGO, afirmou recentemente que aqueles detetores “são tão sensíveis que podem captar um choque de buracos negros a 1000 milhões de anos-luz da Terra, isto é, um décimo da distância que vai até ao limite do Universo observável” (10 mil milhões de anos-luz). E foi precisamente isso que aconteceu agora com a descoberta das primeiras ondas gravitacionais. Os sinais detetados são extremamente subtis, mas foram encontrados por aparelhos do LIGO conhecidos por interferómetros.