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Xô zika, chega pra lá!

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TURISMO. As autoridades turísticas brasileiras garantem que o Carnaval deste ano é marcado pelo crescimento, com hotéis cheios e sem sombra dos efeitos da epidemia do vírus zika

PILAR OLIVARES/REUTERS

O espetáculo não pode parar e não para. O Carnaval brasileiro é tão mais forte quanto pior for a situação económica e social do país. Até agora, o mosquito não conseguiu travar a euforia

O mosquito em lugar de voar, samba. Em lugar de picar, beija. Mas não qualquer um, afinal, anda por lá um vírus que desaconselha maiores intimidades. Foi assim, ao ritmo da ironia, que os brasileiros abraçaram o Carnaval deste ano. A economia não melhora, a política não orgulha e o vírus zika, considerado uma situação de emergência de saúde pública internacional pela Organização Mundial de Saúde, não chega para matar uma sede de alegria de dimensões continentais.

Ontem, milhares de pessoas acompanharam o desfile na Marquês de Sapucaí, o palco das escolas de samba cariocas, outros tantos milhares de foliões a cantar e dançar em honra de Momo. Vinham com a promessa de contenção, adequada ao Carnaval da crise. Mas as escolas de samba surgiram apoteóticas, fruto de patrocínios de última hora e de um reforço de verbas da Prefeitura (Câmara Municipal) do Rio de Janeiro. Ali o zika não pagou ingresso e, se desfilou, foi incógnito.

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, confirmou ao “Jornal do Brasil” que “ a crise económica não afetou em nada o Carnaval, que está a ser um sucesso, com hotéis lotados e os turistas a chegarem na mesma proporção de anos anteriores”. Sobre o zika, nem falou.

Um milhão de turistas foi a previsão avançada pela CNN, apenas para o Rio de Janeiro. A ocupação dos hotel ronda os 85% , superior à de 2015 e, nas unidades hoteleiras em frente à praia, chega a alcançar 90%.

Desfile da Beija-Flor no Sambódromo, no primeiro dia das escolas de samba. Hoje há mais

Desfile da Beija-Flor no Sambódromo, no primeiro dia das escolas de samba. Hoje há mais

MARCELO SAYÃO/EPA

Mulheres nuas, sem medo de serem picadas pelos mosquitos eram as principais atrações dos desfiles das escolas de samba. Tuane Rocha, uma das “musas”, entrevistada pelo “Washington Post”, explicou a sua estratégia de resistência à epidemia: “Primeiro, passo o repelente, depois a maquilhagem, depois a pintura corporal”. Completamente errado, segundo os conselhos dos médicos, que explicam que o repelente de insetos deve ser sempre o último produto a ser aplicado em nome da eficácia em afastar os mosquitos.

A campeã das campeãs, a Escola de Samba Beija-flor de Nilópolis veio dourada e até armada com um drone, que apanhou o público de surpresa. O objetivo era corrigir qualquer falha de evolução dos componentes ainda durante o desfile. Mas nas ruas cariocas, a população também exibia euforia. O bloco (desfile popular) do “Cordão do bola Preta” reuniu cerca de um milhão de pessoas, sem medo do mosquito.

Participantes do desfile popular “Cordão do Bola Preta”, no rio de Janeiro

Participantes do desfile popular “Cordão do Bola Preta”, no rio de Janeiro

PILAR OLIVARES/REUTERs

O sociólogo Luiz Simas explicou ao “Washington Post”: “Na história do Rio de Janeiro, é nos momentos mais difíceis que o Carnaval é mais intenso. Nós não brincamos porque a vida é boa, mas porque ela é difícil.”

Invisíveis, assustadas e fechadas em casa, ao abrigo do ar condicionado, de redes mosquiteiras e velas de citronela, estarão muitas grávidas, com receio de serem picadas, infetadas e colocarem os seus fetos em risco de apresentarem microcefalia. Nestes casos, sambar só à janela ou à beira da televisão.

No Recife, a cidade mais afetada pelo vírus zika e pelos casos de crianças nascidas com microcefalia, a taxa de ocupação ultrapassa 93% e a expectativa era de que recebessem 910 mil pessoas, o que representa um crescimento de 12% quando comparado com o Carnaval do ano passado. A principal explicação para este resultado será a desvalorização da moeda brasileira, atraindo desta forma os turistas internacionais.

À espreita do resultado do Carnaval — qualquer acréscimo do nível de infeções terá de esperar ainda cerca de 15 dias para ser percebido —, continuam os jogos Olímpicos, com abertura prevista para 5 de agosto. Ainda hoje, o Comité Olímpico dos Estados Unidos avisou os atletas que, quem não se sentir confortável com os riscos da epidemia de zika, não precisa participar. A decisão será individual.

Mosquitos Aedes aegypti num laboratório em Campinas, estado de São Paulo

Mosquitos Aedes aegypti num laboratório em Campinas, estado de São Paulo

REUTERS

George Hilton, o ministro do Desporto brasileiro, contudo, já veio a público garantir que o cancelamento “está fora de questão”. O problema é que se os atletas norte-americanos — o país que conquista mais medalhas — não comparecerem, o falhanço das olimpíadas é certo. Na história, os Jogos Olímpicos só foram cancelados devido às duas guerras mundiais.

Entretanto, São Paulo não fugiu à regra da explosão de alegria e, nas ruas, muitos foliões populares apresentaram-se vestindo fantasias de mosquito. Cíntia Campos, 34 anos, vestiu-se a rigor de Aedes aegypti, o agente transmissor do vírus zika, e assumiu ao jornal “Folha de São Paulo”: “O mosquito está na moda, mas aqui, sambando, a água não fica parada.”

Outra mulher, mais adiante, distribuía folhetos informativos sobre os riscos de infeção, ao som do refrão “cuidado que no beijo pega zika!” Mas a resposta não tardou: “Eu tenho medo, mas não beijo qualquer um e você não tem cara de quem tem zika”. E assim, sem zika e sem inseticida, o grupo de foliões continuou a descer a Rua Augusta, uma das principais da maior cidade da América Latina. Quanto às consequências, há que esperar para ver. Mas só depois do Carnaval.