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Um vestido de sonho

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Os casamentos estão outra vez na moda, e nem as noivas ‘civis’ dispensam um vestido a condizer. Os ateliês que trabalham por medida são uma alternativa personalizada para quem quer ter um vestido só seu

getty images

Pureza é um nome perfeito para quem trabalha no ramo dos vestidos de noiva. Nada de mais simbólico que esse valor, contido na cor branca do vestido que as noivas usam — em teoria — uma única vez na vida. Talvez por isso, e porque a nossa cultura ainda transmite às meninas a ideia do conto de fadas, que inclui uma noiva vestida com um longo vestido branco, há quem não dispense esse dia como o mais importante de todos. Mas até nisso a tradição já não é o que era — e há cada vez mais noivas de ‘segundas núpcias’, que casam duas vezes com o vestido branco. Algumas, com filhos e tudo...

Pureza Mello Breyner desenha vestidos de noiva há oito anos. Ao longo do curso de Design de Moda, era sempre esse o objeto dos seus trabalhos. “Os professores já ralhavam comigo, dizendo que eu tinha de fazer outra coisa.” Ela, que desde pequena se entretinha a fazer trabalhos de mãos — desenhar, bordar em ponto-cruz —, casou uma semana depois de acabar o curso. Ao segundo filho, percebeu que era complicado conciliar um trabalho por conta de outrem com a família — e “na sala de casa”, arrancou com um negócio de vestidos de cerimónia e de noiva. Começou como passa-palavra, de “amigas que recomendavam a amigas”, mas em 2012, quando a terceira filha entrou na escola, Pureza achou que era o momento de arriscar, e dedicar-se por inteiro aos vestidos de casamento. No primeiro ano, criou oito vestidos. Depois, passou a 25. No ano passado, foram já 50 os vestidos de noiva que concebeu.

O grande momento de viragem foi protagonizado por um vestido vermelho, de cerimónia, que fez para a atriz Leonor Seixas usar na Cerimónia dos Globos de Ouro em 2015. Com a cobertura mediática a encher as revistas, choveram os pedidos. Hoje, a estilista de 33 anos não tem mãos a medir: 2016 ainda mal começou e já tem 50 encomendas para o ano inteiro — além da sua primeira coleção de vestidos (nove modelos exclusivos), que podem ser vistos no seu ateliê.

Inês Pimentel começa sempre por desenhar as costas do vestido de noiva, muitas vezes decotadas (à esquerda); e uma criação deste ano de Joana Montez, de duas peças, tendência de 2016

Inês Pimentel começa sempre por desenhar as costas do vestido de noiva, muitas vezes decotadas (à esquerda); e uma criação deste ano de Joana Montez, de duas peças, tendência de 2016

d.r.

A partir de 1200 euros, uma noiva pode conseguir um vestido exclusivo, criado só para ela. Um valor modesto, tendo em conta que aquela peça é confecionada para uma única mulher, por medida, com base naquele corpo. “A parte criativa começa no minuto em que conheço a pessoa”, conta Pureza, que acredita ter alguma facilidade em apreender a ‘onda’ da pessoa que tem pela frente. “O corpo também determina muito o vestido”, confessa — “se tem muito peito, a altura...” As suas pedras de toque em questão de estilo são “a renda, as aplicações feitas à mão, as costas abertas, os vestidos fluidos, sem muita estrutura”. O que mais gosta, garante, é “dos recortes à mão” e de “aplicar as rendas no fim”.

Duas tendências marcam o ano de 2016, partilha: “As duas peças (top + saia comprida), e as transparências. “O vintage também está na moda”, assumindo os tons “amarelecidos”, e há quem chegue com o vestido da mãe ou da avó, a pedir um re-design. Outra tendência em ascensão são os casamentos em locais diferentes, como a praia, e as uniões civis que não dispensam vestido branco. Com tudo a que uma noiva (tradicional) tem direito. Os números não são animadores para o negócio dos casamentos — mas as designers de ateliê não se ressentem disso. Os casamentos religiosos estão em declínio há anos — aliás, como os casamentos em geral. Em 2014, celebraram-se em Portugal 31.170 casamentos, 11.178 pela igreja. As cerimónias civis são quase o dobro: 19.816. Curiosamente, este número aproxima-se muito do do distante ano de 1990, quando os casamentos católicos atingiam os 51.963. Ou seja, o segmento dos casamentos pela igreja foi o que registou o maior retrocesso.

Uma criação deste ano de Joana Montez, de duas peças, tendência de 2016

Uma criação deste ano de Joana Montez, de duas peças, tendência de 2016

d.r.

Mas as mãos não chegam para as encomendas das estilistas de vestidos de noiva por medida. Joana Montez só atende com marcação. No seu ateliê em Cascais, todos os anos está exposta a coleção que desenha — algo que faz desde 1995, quando abriu portas pela primeira vez. Aos 43 anos, esta designer conhece muito bem o mercado e tem uma forte procura, dentro e fora de Portugal. “É o design que faz com que as noivas me procurem”, acredita. “30 a 35% das minhas noivas vivem no estrangeiro e fazem um esforço enorme para vir cá fazer as provas.” Apesar de haver muitas opções no mercado, o estilo e o traço de Joana Montez atraem muitas mulheres. E o preço não é impedimento. Os vestidos de coleção de Joana ficam entre os €2600 e os €3200, e os feitos à medida podem cifrar-se entre os €2600 e os €5000 ou €6000, dependendo dos materiais e das aplicações, todas feitas à mão. O exclusivo paga-se, e “o serviço personalizado é cada vez mais valorizado”, reconhece Joana. “Eu não faço cópias — nem nacionais, nem internacionais”, assume, com pena de ver que nem todas as estilistas se pautam pelo mesmo código ético.

Um dos vestidos da coleção
de Pureza Mello Breyner

Um dos vestidos da coleção
de Pureza Mello Breyner

d.r.

“Um vestido de noiva é provavelmente a peça de roupa mais difícil de confecionar. É preciso saber fazer”, defende. E há fatores que fazem a diferença, como o conforto. “Um vestido meu não pesa mais de dois quilos. Hoje, no mercado, ainda há vestidos de noiva que pesam 20...” Quem procura um vestido com a assinatura de Joana Montez quer um “vestido mais boémio, de silhuetas descontraídas, tecidos fluidos, muito feminino”, considera a estilista. Os folhos e a musselina de seda são os seus tecidos favoritos, e este ano vai estar em voga o “marrocain de seda”. Joana borda muito à mão, recorda rendas. Gosta de comprar “rendas em Itália”. De resto, tem “muitos fornecedores no estrangeiro”. Há 15 anos que desenha a sua coleção de vestidos de noiva, e portanto tem uma identidade bem definida. Para ela, a questão das “cópias” é “bastante premente no mercado nacional”, e aconselha os novos valores no mercado a encontrarem a sua identidade, em vez de se inspirarem demasiado nas coleções dos outros.

Inês Pimentel é porventura um dos nomes mais recentes na moda dos ateliês de vestidos de noiva por medida, embora já cá ande há algum tempo. Com 36 anos, concebeu o seu primeiro vestido de noiva há uma década — não contando, claro, com o dela e o das irmãs, desenhados por si. Em 2011, terminou o curso de Design de Moda na Magestil, e dois filhos e várias experiências profissionais mais tarde abriu o primeiro ateliê, que criava roupa de cerimónia de mulher. Certa vez, uma das suas clientes ia casar e pediu a Inês que desenhasse o seu vestido de noiva. Ela aceitou, arriscou — e gostou. A partir daí, as clientes foram aparecendo gradualmente. “Na primeira reunião com a noiva, tento perceber o estilo da pessoa, e o que ela quer. Gosto imenso dessa parte, quase de psicóloga”, confessa. Depois, começa quase sempre pelo desenho, e passa depois para o manequim, para perceber as proporções. Nas provas, pode criar uma saia em cinco minutos com tecidos e alfinetes, para a cliente ficar logo com uma noção do projeto. A confeção demora “cerca de quatro, cinco meses”, e a parte criativa “outros dois”. Diz que vende essencialmente “uma atitude, cool e feminina”, e gosta de toques um pouco irreverentes e “linhas fluidas e modernas”.

Começa geralmente os desenhos pelas “costas do vestido”, a parte que mais gosta. Faz muitos de costas decotadas. Nos tecidos, prefere os crepes georgette como base, e adora “construir e desconstruir rendas”. Outra das suas marcas é criar peças que se desdobram em vários looks: um mais formal, para a igreja, e outro de festa. O preço médio das suas criações fica entre os €1600 e os €1800. Atualmente, cria cerca de 40 vestidos de noiva por ano. Muitos são para cerimónias civis, outras até de segundos casamentos. Inês já não se vê a fazer outra atividade. Afinal, há um gosto especial em criar peças exclusivas, que contam a história de uma pessoa, que a vai usar apenas uma vez na vida.

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