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Rui Moreira: “Ser pai foi o que de melhor fiz na vida”

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rui duarte silva

Dois anos após a rotura provocada pela sua eleição como independente para dirigir a segunda cidade do país, Rui Moreira revisita uma vida onde o sucesso viveu sempre paredes meias com o drama e a tragédia pessoal

Um políptico de Paulo Nozolino ocupa toda uma parede da sala principal da casa de Rui Moreira, no final da Avenida da Boavista, a dois passos do mar e do Parque da Cidade, no Porto. Por entre os tons escuros sobressai uma frase construída — “Pardonner oui, oublier non” —, transformada em súmula do modo de estar e de ser deste homem afável, disponível para a conversa, moldado na disciplina do Colégio Alemão, educado para ser um fazedor, o mais velho de oito irmãos, herdeiro dos negócios da família, para quem o passado se crava na memória sem condicionar o presente. Decretaram-lhe a morte aos 27 anos, viu o pai ser preso em março de 1975, vendeu todos os negócios aos 35 anos, surpreendeu o país há dois anos ao conquistar a Câmara Municipal do Porto como independente. Transformou-se num caso, na figura a seguir na imprensa internacional. Foi campeão de vela e o mais jovem presidente da Associação Comercial do Porto, escreveu livros e viajou pelo mundo, tem dois filhos. Educou-os e manteve-os a seu lado depois dos divórcios. Com 59 anos, ainda hoje um filho profundamente marcado pela personalidade do pai, diz ter sido a paternidade o que de melhor fez na vida.

Aos 27 anos, disseram-lhe que ia morrer e, afinal, 30 anos depois continua vivo. Nasceu rico e fez fortuna cedo. Apesar de alguns reveses, a vida tem-lhe sido generosa?
Penso que sim. Embora ache que não seja uma pessoa com azar, a minha vida tem sido marcada por alguns reveses, algumas tristezas e angústias. No entanto, estou vivo e a fazer coisas de que gosto, o que era um pouco improvável há uns anos.

O facto de as coisas terem corrido bem foi fruto de trabalho?
Mais do que outra coisa qualquer, decorre da disciplina. É a disciplina que faz com que a gente não desespere, não desista, não abandone o que quer fazer.

A disciplina também serve para fazer roturas?
Claro. As roturas são complicadas, e no meu caso houve várias. Todas exigiram disciplina.

Quais foram os momentos de rotura?
O caso mais evidente foi quando estive doente. Já tinha tido roturas antes, mas essa é sem dúvida a maior de todas. Subitamente, dizem-me que vou morrer, que tenho poucos meses de vida. Aos 27 anos, não se está minimamente preparado. Aos 27 anos, somos imortais.

Perante um momento tão avassalador, como é que a disciplina atuou?
Não entrando em desespero. Pensei: “Não posso cair na tentação de acreditar no que me estão a dizer. Não me posso conformar com este destino anunciado.” A partir daí, resisti. Isto é disciplina.

Conforto. 
Com 35 anos, 
vendeu as empresas e tornou-se um homem rico. Mas dinheiro não dá poder, garante. 
O dinheiro dá-lhe apenas o conforto 
de não saber 
as consequências 
de não o ter. Essa 
é a sua liberdade

Conforto. 
Com 35 anos, 
vendeu as empresas e tornou-se um homem rico. Mas dinheiro não dá poder, garante. 
O dinheiro dá-lhe apenas o conforto 
de não saber 
as consequências 
de não o ter. Essa 
é a sua liberdade

rui duarte silva

Tem também a ver com a força das pessoas que o rodeavam?
Não. São confrontos muito solitários.

Nesse confronto entre a vida e a morte, há um momento em que tudo fica resolvido — cura-se.Teve a disciplina de deixar a sombra para trás?
Diria que há dois momentos. O primeiro foi antes de fazer o transplante, quando estava a morrer. Só três anos depois de ter ficado doente consegui fazer o transplante, que foi muito bem sucedido. Naquela altura, a expectativa de vida útil de um transplantado era de cinco anos. Apesar de tudo, fiquei imediatamente com qualidade de vida, mas percebi que as coisas seriam diferentes. Aí, sim, fiz claramente uma rotura. Pensei: “Se a partir de agora tenho cinco anos de vida com qualidade, tenho de procurar viver de forma diferente.”

O que fez?
Resolvi que mais cedo ou mais tarde teria de deixar os negócios. Curiosamente, foi enquanto estive doente que fiz os melhores negócios e ganhei mais dinheiro em toda a vida. Como não podia fazer mais nada, não podia viajar, não podia conviver, não podia beber, não podia ler, nem fazer nenhum tipo de trabalho intelectual, porque sentia-me muito mal, o trabalho tornou-se um refúgio. Quando soube que tinha mais alguns anos de vida, percebi que queria viver coisas diferentes.

Há cerca de um ano, o seu filho mais novo teve também uma doença renal e passou pela experiência da doença e do transplante. O que é que isso significou para si?
É uma angústia muito diferente. Nalguns aspetos, pior. Apesar de não termos culpa, há um sentimento de grande culpa, pelo menos durante o tempo em que pensei que podia ser associado a coisas genéticas. Soube-se depois que não era uma questão genética, apenas outro azar dos Távoras. A sensação que temos com os nosso filhos é que também eles são imortais. Perder um filho é a maior tragédia que se pode ter.

É um homem religioso?
Tenho uma fé íntima, mas não sou praticante. Não me refugio na fé quando tenho alguma aflição. Acho aliás muito estranha essa relação das pessoas com o deus em que acreditam. Deus funciona mal como socorro.

Ainda no âmbito das adversidades, recuemos até 1975, quando estava em Inglaterra a estudar Gestão de Empresas e em Portugal o seu pai é preso. Como soube?
Da maneira mais estranha. No dia 11 de março de 1975 o meu pai estava em Paris em trabalho e tinha combinado ir jantar comigo a Londres. Por acaso, eu tinha passado em Piccadilly Circus, onde li naqueles títulos de jornais dos outdoors “Golpe de Estado em Portugal”. O meu pai ligou-me, dizendo que já não iria a Londres, tinha de regressar imediatamente a Lisboa. Apanhou um avião e no dia seguinte fez uma mala, foi para a nossa fábrica da Molaflex e foi preso. Quando eu soube, ao fim da tarde de 13 de março, o meu primeiro instinto foi meter-me num avião e vir para Portugal. Disseram-me para aguentar. Pensávamos que tinha sido apenas detido e rapidamente seria posto cá fora. Ao fim de dez dias regressei a Portugal. Tinham tomado a fábrica, as contas estavam congeladas. Passei cá o verão. Em setembro, o meu pai continuava preso, e eu fui para Londres acabar o curso e trabalhar em bares.

Trinta anos depois, quando morreu Eurico Corvacho, antigo comandante da Região Militar Norte, escreveu no “JN” um texto muito forte — “Nós não esqueceremos” — onde contava a sua visão do que se tinha passado. Dava a impressão de que a ferida ficara aberta. Qual é a dimensão do ressentimento que permanece?
Não resta nenhum ressentimento, no sentido em que não tenho pesadelos ou acordo angustiado. Agora, não esqueço. Mais do que tudo, não esqueço as canalhices que naquela altura sucederam. É nesses momentos que a gente percebe quem são os amigos e os que não são, mas também percebe quem são as pessoas que fazem as coisas por ideologia ou convicção e as que as fazem por total canalhice. No meio de uma revolução, com todos os excesso que possa ter um processo revolucionário, haverá sempre injustiças, coisas que parecem intoleráveis sobre o ponto de vista individual e que a nós nos afetam, mas fazem parte. As revoluções fazem-se também de injustiças. Consigo compreender isto. Coisa diferente é a gente perceber que a coberto de processos revolucionários há grandes canalhas. Escrevi o texto porque senti que tinha chegado o momento de denunciar.

Até então o seu contexto era de grande proteção. É a primeira aprendizagem sobre a vulnerabilidade?
Provavelmente. Mas a lição principal que tiro é a de saber lidar com a injustiça. Quando somos jovens, e eu tinha 18 anos, achamos que o mundo é justo, que o bem é premiado e o mal castigado. Quando penso no meu pai, o sentimento que tenho é de que lhe foi feita uma grande injustiça.

O seu pai nunca procurou fazer justiça?
Houve uma comissão das sevícias, e no relatório das sevícias o meu pai é das pessoas mais citadas. Francisco Sousa Tavares, que estava à frente da comissão e tinha sido advogado dele antes da prisão, e Artur Santos Silva aconselharam-no a agir judicialmente e a pedir uma indemnização. Não quis. Nunca se conformou com o que lhe sucedeu, mas não quis fazer vingança. A vida que lhe tinham tirado era irrecuperável. A sentença tinha sido irrevogável. Nunca mais foi o mesmo. Era um otimista, gostava muito da vida, e passou a ser uma pessoa triste. Tudo isso projetou-se muito em mim e nos meus irmãos. Percebemos que, a partir daquele momento, aquela que era a pessoa mais importante para nós, a par da minha mãe, era um homem profundamente diferente. Isso é muito marcante.

A vossa vida estava assente num equilíbrio. De repente, há um acontecimento que vos é exterior e tem consequências enormes do ponto de vista pessoal. Esse é para si um tempo de questionamento sobre uma ordem que vê estilhaçada?
Não. Os estilhaços tinham já sucedido antes. Para sermos claros, não fiquei muito surpreendido com o 25 de Abril. Não fiquei triste. Fiquei contente. Apesar de ser adolescente, tinha a sensação, até pelas pessoas com quem convivíamos, de que se estava a viver um tempo que já não existia. O que aconteceu foi um acelerador da História, mas o que não conseguimos imaginar foi a forma como os estilhaços nos atingiram. Isso é diferente.

Durante a infância, as várias gerações, avós, tio, pais, irmãos, viviam na Foz, na Avenida Montevideu, num palacete com jardim em frente ao mar. Quando é que começa a ter a noção da clivagem social?
Desde logo. O Porto era uma sociedade muito interclassista, as pessoas não se davam em função do dinheiro. Aliás, a dois quarteirões da nossa casa havia ilhas com pessoas muito pobres e que iam lá para casa brincar. Apercebo-me melhor quando saio do Colégio Alemão e vou para o Liceu D. Manuel II, que era público. Aí conheço outra parte da cidade de geografias e gente completamente diferente.

É o mais velho de oito irmãos. O que significa ser o mais velho do clã?
Nada. Não há entre nós um patriarca natural. Talvez tenha um sentido de proteção relativamente aos outros, mas não sou eu que tomo conta dos destinos da família. Penso que será o Tomás, que é a seguir a mim, que tem maior influência sobre a família. Nesse sentido, ele é o irmão mais velho.

Não quis trabalhar na fábrica do seu pai, dedica-se aos barcos e recupera a empresa de navegação do seu avô. É uma vontade de bater o pé, de provocar rotura?
Não. Coincide com a morte do meu tio Mário, o irmão inseparável do meu pai, que vivia connosco. O meu tio morre em 1978, num desastre de automóvel, no dia em que eu chego de Londres, depois de acabar o meu curso. Chego num sábado, almoçamos juntos no Clube de Vela, ele pergunta-me se quero ir com ele para a quinta, e eu não vou. A caminho da quinta morre num desastre de automóvel. Eu podia estar naquele carro.

No seu mundo, quem foram as pessoas que mais o marcaram?
Além do meu pai e da minha mãe, e da relação com os meus filhos, até porque provavelmente a melhor coisa que fiz na vida foi ser pai, muito melhor do que ser político ou empresário, a pessoa que mais marcou a forma como olho o mundo é a minha avó Maria Amélia, uma mulher extraordinária. Acreditava em mim no tempo em que as pessoas da família não acreditavam. Havia algumas dúvidas sobre as minhas capacidades, o que era perfeitamente razoável e normal, porque a única coisa que fazia bem era vela. A minha avó, mãe da minha mãe, via que os meus interesses eram de natureza diferente e ajudou-me a que eu me percebesse a mim próprio.

Proporcionava-lhe outras leituras... É aí que se sedimenta o seu gosto pela leitura?
Sim, mas hoje não tenho tempo para ler. Uma das coisas terríveis no facto de desempenhar um cargo público é deixarmos de poder controlar o nosso tempo.

Isso não provoca um corte com a realidade?
Provoca. Por isso, nunca se poderá ficar muitos anos em cargos públicos.

Começou já a perdê-la?
Espero que não. Persisto em continuar a viver a cidade de uma forma muito ativa. Mas temos de fazer opções. Leio hoje muito menos. Estou a começar a aprender a ler como os políticos, que é uma coisa que me preocupa. É o ler depressa, como Marcelo.

Ter feito uma candidatura independente à Câmara também se deve ao facto de ser uma pessoa com fortuna pessoal?
Uma coisa não tem nada a ver com a outra. A diferença é que consigo viver com o ordenado de presidente de Câmara e manter a qualidade de vida que tinha.

Ser vulnerável num lugar de poder é apenas uma questão de carácter?
Não acho que as pessoas serem corruptas, ou não terem carácter, seja uma questão de dinheiro. Há muitas pessoas que são muito ricas e são corruptas, outras que não têm dinheiro nenhum e são completamente estoicas. Essa questão sobre a minha independência foi mais evidente quando era presidente da Associação Comercial do Porto, onde muitas vezes tive de tomar posições que não eram consensuais e poderiam ter consequências mais complicadas. Em Portugal, quando se tomam essas posições, ou se têm negócios muito grandes ou é-se exterminado. Tomei posições que incomodavam muita gente. O maior conforto do dinheiro é não se saber as consequências de não ter dinheiro. Isso, sim, constitui uma liberdade.

Quando decidiu desfazer-se da sua empresa, aos 35 anos, foi uma decisão que teve só a ver com negócios ou decorreu também da doença que o afetou, por não ter ainda resolvida a questão da vida e da morte?
As duas coisas. Passada a fase do transplante, percebo que estou transitoriamente bem — um transitório que tem durado 30 anos — e pensei que não queria viver tão agarrado aos negócios. Nessa altura, tinha o meu filho mais velho a meu cargo e também queria estar mais com ele. Por outro lado, havia uma oportunidade de negócio, e eu tinha o sentimento de que aquilo era muito one man band. Ou seja, se eu morresse, o negócio provavelmente esfumar-se-ia e deixaria de ter valor. Finalmente, havia uma outra questão. Estamos a falar de 1991/92. Eu tinha feito uma aposta séria nos transportes marítimos e estávamos num tempo em que o Governo de então andava firmemente apostado em destruir essa indústria. Como, aliás, veio a destruir. Coisa que não perdoo a quem...

Está a falar de Cavaco Silva?
Exatamente. Tudo aquilo que tinha sido feito com os governos anteriores, nomeadamente com Carlos Melancia, num Governo do PS, esfumou-se. A frota portuguesa desaparecera com o fim das colónias e havia uma nova fileira de empresas a surgir que queriam voltar a ter uma atividade nos transportes marítimos. Tudo isso foi destruído, tal como foram destruídas as pescas, a agricultura...

O desejo da presidência da Câmara do Porto é um sonho antigo?
Não. Comecei a envolver-me na cidade por altura do Porto 2001. Foi nessa altura que entrei para a Associação Comercial do Porto e comecei a escrever em jornais sobre a cidade.

Quando começou a escrever, o Porto é o objeto, a matéria próxima, mas o que está ali em reflexão não é já um conceito de cidade?
É verdade. Foi a partir daí que comecei a pensar na cidade... Muito mais no sentido de polis do que de politics.

Frontal .
Assume precisar de mais tempo para concretizar 
todos os projetos para o Porto e reafirma-se independente. Não tem nada a perder. 
Acima de tudo, considera-se um cidadão sempre apaixonado pela cidade

Frontal .
Assume precisar de mais tempo para concretizar 
todos os projetos para o Porto e reafirma-se independente. Não tem nada a perder. 
Acima de tudo, considera-se um cidadão sempre apaixonado pela cidade

rui duarte silva

Que geografias se abriram quando começou a refletir sobre a cidade?
Já então conhecia muito bem o Porto. Adorava fotografar e andava por todo o lado. A fotografia permite olhar para a cidade de uma forma diferente. Segmenta os momentos e faz-nos compreender melhor os territórios. Quando escrevi o livro sobre o Porto, procurei conhecer a zona oriental, que era uma parte que conhecia muito mal. E de facto esse mosaico entre Campanhã e Azevedo, que é uma zona cortada, esventrada, é surpreendente.

Anda a pé, aparece sozinho em eventos, independentemente do interesse político imediato, há coisas que são naturais ou não são... Essa naturalidade com que se plasma na cidade ajudou-o? Está sempre no lugar de cidadão?
Estou. E as pessoas habituaram-se a ver-me assim. Quando fiz a campanha eleitoral, percebi isso, e fique surpreendido com o conhecimento que já tinha da cidade e por encontrar tanta gente que me conhecia. Quando fui eleito, as pessoas achavam que eu ia ficar fechado numa redoma. Sempre pensei que podia continuar a fazer uma vida normal. A única coisa que deixei de fazer foi tirar fotografias. Não por mim. Percebi que um político não pode andar por aí a tirar fotografias. As pessoas ficam inibidas.

Vê-se como um conservador ou como um progressista?
Não sou nada conservador. Sou mais progressista.

A verdade é que o único apoio partidário à sua candidatura foi do CDS. Onde se situa ideologicamente?
Nesse caso, foi por uma questão de política de cidade. Ideologicamente, não sei muito bem onde me situaria. Se calhar, sou aquilo que já não existe no espectro europeu: um liberal de esquerda. Isso hoje pode parecer radical. Talvez seja aquilo que foi Francisco Sá Carneiro, e que é muito mal entendido. As pessoas citam-no erradamente e sem saberem qual era o seu pensamento.

De quem se sente próximo?
De pessoas como Sá Carneiro, Miguel Veiga. Tive o prazer de os conhecer, melhor o Miguel Veiga, claro, e foi com eles que cresci a pensar a política. Faziam parte de uma burguesia que tinha um pensamento político. Achavam que a redistribuição é fundamental, mas não pode ser feita apenas através da presença obsessiva do Estado. Sou liberal porque entendo que o Estado se deve meter naquilo que é necessário, e o que é mais necessário são os fundamentos da República, entre os quais a redistribuição da riqueza.

Um ponto estratégico da sua candidatura é a cultura. Entretanto, morre o vereador Paulo Cunha e Silva e assume o pelouro. Porquê?
Antes de mais, foi uma enorme tragédia sob o ponto de vista pessoal, porque era um grande amigo. Não havia ninguém que tivesse as características de Paulo Cunha e Silva, e a cultura era, e é, um dos principais pilares da nossa candidatura. Há muitos anos que o Paulo e eu trabalhávamos sobre questões de cultura. Achei que na falta do vereador teria de ser eu a assumir, utilizando os bons recursos que também lá temos, e reforçando-os, ao trabalhar com outras pessoas, como, por exemplo, o Miguel von Hafe.

A cultura é tida como uma componente de sucesso na sua gestão, mas não será também muito o resultado da resiliência dos agentes culturais, que nunca desistiram?
É a imagem do espírito da lâmpada de Aladino. Esse espírito e essa apetência estavam cá, mas escondidos em sítios recônditos. Se escolhemos a cultura, não foi apenas porque gostamos de cultura, foi porque entendemos que ela não é um luxo. Quando anunciei a minha candidatura, disse que havia três fatores: a cultura, a coesão social e a economia. E que os três se ajustavam uns aos outros. Conseguimos demonstrar que isso é possível. A cultura tem um enorme impacto na coesão social. É errado quando muitas vezes se pensa o contrário e se diz que ao gastar dinheiro na cultura se perde dinheiro na coesão social. Isso não é verdade.

A atividade da Câmara não se julga apenas pela cultura, e na área da coesão social há questões em aberto e polémicas, como a situação degradante, para quem lá vive, do bairro do Aleixo, ou o problema das pessoas expulsas de casa por indícios criminais...
No caso dos despejos, não é por indícios. O que fizemos foi cumprir escrupulosamente a lei. Todas as pessoas recorreram aos tribunais e só depois é que o despejo se concretizou. Sei que é uma situação que comove muita gente e que haverá com certeza circunstâncias específicas em que teremos cometido alguma injustiça. Mas não me venham dizer que o tráfico de droga é um problema social. Não podemos ter nos bairros situações de pessoas que têm casas, supostamente para habitação social, que nem sequer são habitadas e são usadas como supermercados de droga.

E o bairro do Aleixo?
Aí é diferente. Não gosto do modelo que ali foi seguido. Encontrei um bairro em que tinham sido deitadas abaixo duas torres, e os cidadãos dessas torres foram colocados em habitação social espalhada pela cidade. Permaneciam três torres, que estão em más condições de habitabilidade, muitas delas semiocupadas. Neste momento, espero a aprovação do Tribunal de Contas para iniciar a construção de habitação social. Quando estiver pronta, teremos casas para as pessoas que estão no Aleixo.

O Porto está na moda, mas começa a haver na cidade receio quanto ao que possa acontecer depois. Há o risco de a cidade se tornar insustentável, sobretudo para quem cá vive?
A minha maior preocupação com o turismo não é essa. O turismo que temos veio para ficar, a não ser que aconteça um cataclismo. Não há o risco de o turismo desaparecer. Não vai é continuar a crescer à razão de 20% ao ano, pois a cidade não se consegue reinventar a essa velocidade.

Então qual é o grande problema?
A gentrificação dos usos, dos costumes e dos habitantes é o que verdadeiramente me preocupa. Por um lado, pela forma como pode afastar os cidadãos que hoje convivem bem com o turismo, mas podem ser por ele expulsos, através dos aumentos de renda e dos modelos imobiliários. Temos compensado isso. Deixámos de vender casas no centro histórico, estamos a reabilitá-las e a colocá-las na habitação social. A lei das rendas era necessária, mas foi excessivamente liberal.

As cidades vivem de imagens icónicas. Uma delas, no Porto, é o Bolhão. Quando é que o mercado deixará de ser uma dor de alma continuamente procurada pelos turistas?
Não estou muito preocupado com o Bolhão como centro de atração turística. Pelo contrário. Quero que o Bolhão seja um mercado de frescos. Não quero que seja um mercado da Ribeira. O meu problema com os turistas é outro. Teremos de encontrar formas de inibição da sua presença, para que não impeçam que os moradores façam as suas compras. Creio que quando a entrevista sair já vamos ter o parecer favorável da Direção Regional da Cultura quanto ao nosso projeto. Lançaremos concurso público internacional entre final de março e princípio de abril para a concretização do mercado do Bolhão.

Foi muito crítico do centralismo lisboeta. Mas mudou enquanto presidente. Como foi a sua relação com o Governo anterior e com o atual?
Não mudou nada na minha posição. A cidade de Lisboa é tão vítima como as outras, embora de uma forma diferente. Continuo a achar que Portugal é macrocéfalo, e há coisas que dificilmente se compreendem num país civilizado em que parece que tudo tem de ser feito no mesmo sítio. Esse tema da descentralização foi fundamental na última reunião de trabalho com o atual primeiro-ministro aqui no Porto.

Nesse aspeto, há vantagem em ser independente?
Tenho essa grande vantagem, porque não tenho nenhum diretório partidário que me diga que temos de fazer um favor ao Governo porque é da nossa cor ou temos de fazer guerra porque não é da nossa cor. O que procuramos ter com o anterior Governo e com o atual é níveis de entendimento em determinadas áreas. Houve várias em que o conseguimos com o anterior Governo, como na negociação dos terrenos do aeroporto e dos STCP...

Negócio considerado ruinoso por alguns sectores...
Acho que só o Partido Comunista o considerou ruinoso. Quando pergunto porque é que é ruinoso, ainda não consegui perceber a razão. Se é porque estavam à espera que vencêssemos em tribunal...

A Câmara reivindicava em tribunal 168 milhões e aceitou 40 milhões.
Acho que o acordo foi feito no tempo certo e com as possibilidades certas. Houve outras áreas em que entrámos em choque com o anterior Governo, como nas águas e nos transportes.

Qual é o interesse vital da Câmara na subconcessão dos transportes?
O problema é que os STCP, neste momento, e devido ao desinvestimento, desempenham um péssimo serviço. As pessoas deixaram de confiar no transporte público e voltaram ao privado. É terrível, para a cidade e para elas próprias.

Gosta de andar a pé pela cidade. Como convive com a ideia de a zona de Campanhã permanecer o patinho feio do Porto?
A um prazo de 20 anos consigo prever que deixe de ser uma zona à margem. O terminal intermodal vai ser muito importante, tal como tudo o que vier a suceder no Matadouro Municipal. Há lá uma obra que tem passado invisível, que é o projeto de reabilitação do rio Tinto. Vai permitir o avanço da construção do Parque Oriental. Terá um impacto extraordinário e vai dar uma nova dinâmica e uma nova centralidade através de um parque urbano, muito a exemplo do Parque da Cidade. É curioso como é que esse projeto, ambicionado há dezenas de anos, cuja candidatura já foi aprovada, tem passado praticamente à margem da comunicação social. Sob o ponto de vista ambiental, é a obra mais generosa que se pode ter na cidade. É como se houvesse uma maldição a pesar sobre Azevedo de Campanhã. É o problema de sempre. Os pobres não são notícia, ou são-no pelas piores razões.

Fazer política circunscreve-se exclusivamente à cidade?
Circunscreve. Não tenho nenhuma outra ambição. Não tenho nenhum interesse na política nacional.