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“O tablet é o novo babysitter”

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Gadgets. Trabalhar com um tablet é das atividades mais fáceis e intuitivas para as crianças

Reuters

A maioria dos pais acredita que as crianças com menos de oito anos não correm riscos online, uma vez que ainda não estão nas redes sociais. Mas enganam-se, “pois pensam que a utilização que fazem é muito mais limitada do que é na realidade.” Esta é uma das principais conclusões do estudo coordenado pelo Joint Research Centre da Comissão Europeia, divulgado esta terça-feira, altura em que se celebra o “Safer Internet Day”

Quando precisam de trabalhar, realizar tarefas domésticas ou manter os filhos sossegados, muitos pais encontram hoje uma solução fácil: tecnologias digitais. Pesquisam online por um vídeo, uma música ou desenho animado e deixam as crianças a ver, enquanto - muitas vezes - aproveitam para descansar ou tratar de outros assuntos. Uma atitude arriscada? Não na opinião da maioria dos pais, que acreditam que as crianças com menos de oito anos não correm riscos online, já que não estão nas redes sociais.

É esta uma das principais conclusões do estudo coordenado pelo Joint Research Centre da Comissão Europeia, que pretende avaliar a utilização que as crianças com menos de oito anos fazem das tecnologias digitais no espaço familiar. O estudo - desenvolvido em 18 países durante o ano de 2015 (com uma amostra de dez crianças, com seis ou sete anos, por país) e lançado esta terça-feira, no Safer Internet Day - procura perceber as dinâmicas familiares e a perceção associada à utilização dos dispositivos digitais pelos mais pequenos.

Mas, na verdade, esta primeira conclusão dos progenitores é falaciosa. “A verdade é que [as crianças com menos de oito anos] também estão expostas a riscos e os pais nem se apercebem, pois pensam que a utilização que fazem é muito mais limitada do que é na realidade”, explica ao Expresso Patrícia Dias, professora e investigadora do Centro de Estudos em Comunicação e Cultura (CECC) da Universidade Católica Portuguesa (UCP), responsável pela investigação em Portugal, juntamente com a professora Rita Brito do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa.

O YouTube, por exemplo, é a plataforma onde as crianças estão mais expostas, devido ao seu funcionamento através de sugestões. “Se não houver uma monitorização constante, a criança vai clicando nos vídeos sugeridos e fica exposta a conteúdos não apropriados para a sua idade”, acrescenta a investigadora da UCP. Paródias a desenhos animados que utilizam linguagem imprópria podem ser encontradas frequentemente no meio de sugestões de conteúdos infantis. Para além disso, explica Patrícia Dias, “na maior parte dos casos as crianças usam a conta dos pais, pelo que também surgem nas sugestões conteúdos direcionados para os pais, que podem não ser adequados para elas.”

Tablet, o novo babysitter

A perceção errónea dos pais sobre a utilização digital dos filhos mais novos torna-se ainda mais preocupante quando olhamos para o uso que estes hoje fazem dos dispositivos digitais. “As crianças sabem mais sobre os dispositivos digitais do que os pais pensam”, conclui-se no estudo exploratório da Comissão Europeia. De entre os vários disponíveis, há um que é o seu brinquedo favorito: o tablet.

“O tablet é o novo babysitter”, pode ler-se nas conclusões desta investigação. “É sem dúvida o 'brinquedo' preferido das crianças”, garante Patrícia Dias. “E com este 'brinquedo' elas ficam sossegadas, um pouco como acontece com a televisão.” Mas esse sossego não se alcança sem riscos: a utilização excessiva destas tecnologias (especialmente antes de dormir, o que pode dificultar o sono) e o facto dos pais passarem menos tempo a interagir com os filhos, pois esta “é uma atividade que as crianças fazem sozinhas”.

Para além disso, há a exposição das crianças a conteúdos impróprios, como referido anteriormente no caso do YouTube. Combater isto passa por uma sensibilização e informação aos pais (e escolas) e por conhecer as opções e filtros disponíveis, como a criação de contas específicas para as crianças e a utilização das diferentes plataformas em “child mode”. No entanto, como mostra a investigação, a maioria dos pais inquiridos não acredita no controlo parental, filtros ou proibições, considerando que nestas idades o diálogo e alguma monitorização são as soluções ideais.

Educação: subaproveitada pelas famílias

“Há um enorme potencial das tecnologias digitais que está a ser subaproveitado pelas famílias”, explica a professora da Universidade Católica para evidenciar outra das principais conclusões do estudo. “As famílias não usam as tecnologias digitais para a aprendizagem em articulação com a escola, pelo menos em crianças tão jovens.”

Escola e família ainda têm um longo caminho a percorrer. Segundo as conclusões dos investigadores em vários países, as tecnologias digitais deveriam ser integradas de forma uniforme no ensino formal dos vários países da UE - e as escolas podem desempenhar um papel importante na consciencialização familiar.

A maioria dos pais, por exemplo, deixa os filhos escolherem livremente as apps que querem utilizar, excluindo apenas “as aplicações pagas” e “jogos que consideram violentos” ou impróprios. Isso é excluir o risco, mas não potenciar a melhor utilização das tecnologias: “se os pais escolhessem apps mais didáticas, poderiam estimular competências mais ligadas ao currículo escolar.”