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À procura da grande onda

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Rui soares/edp mar sem fim

O surf de ondas gigantes já não é um exclusivo da Nazaré, com os Açores a receberem expedições de quem acredita no potencial de várias ilhas. A EDP Mar Sem Fim explorou o baixio de Santana, em São Miguel, e mais recentemente a Graciosa, com ventos de feição

O som chegou antes, muito antes, e terá sido o clero local a prestar-lhe atenção pela primeira vez. Tudo começou no século XVI, quando um padre que vivia naquela zona de São Miguel decidiu descrever o barulho noturno de uma onda especial. Os diários que escreveu durante a sua estada na paróquia acompanharam a história dos tempos e agora, que a lenda se provou e o mito se desfez, ganharam estatuto de visão. Rabo de Peixe era muito diferente e tudo mudou. Tudo exceto aquela onda que continua a inquietar os locais — que a temem — e os visitantes — que a idolatram.

Nunca como agora houve um interesse tão grande por uma massa de água como tantas outras, que tocam a terra vulcânica a vagas constantes. Esta onda micaelense, que se pretende conhecer a fundo, cresce perto da costa e as suas características podem levar a que um dia chegue ao circuito mundial de ondas gigantes. Um dia, sim, porque ainda há muito trabalho a fazer. Não chegámos a esse tempo futuro. O Expresso acompanhou a primeira expedição EDP Mar Sem Fim da temporada, no baixio de Santana.

Sai-se do porto em busca de um (re)começo. A cartografia dá uma ajuda e o batimento da costa está feito, mas é preciso experimentar. A onda não é nova e esteve lá desde sempre, muito antes da povoação da ilha (iniciada em 1444), mas este também não é um mergulho rumo ao desconhecido. O objetivo é testar “uma onda com características especiais e que por se formar na plataforma é mais consistente do que as de areia”, explica Mário Almeida, responsável pela organização criada há três anos. Já antes tinham surfado no recife de Dollabarat, a noroeste da ilha de Santa Maria, mas o destino não convenceu. Era preciso procurar um pouco mais até atingir a perfeição.

Para João de Macedo, um dos surfistas portugueses mais experientes em ondas gigantes — tendo feito parte do circuito mundial —, a onda do baixio de Santana pode mesmo ser o que procuram. Se não for também não pensam em desistir. “O potencial de descoberta é uma das coisas mais fascinantes para um surfista”, explica o também coordenador das bolsas Mar Sem Fim. Surfar nestes territórios virgens acaba por ter sempre um sabor especial. O brilho de uma nova aventura, numa onda “que é um pouco como Mavericks [na Califórnia], com a força que a plataforma continental oferece”, surge-lhe no olhar.

Desengane-se quem pensar que uma aventura como esta começa na água. Tudo tem de ser testado em terra e a segurança é uma prioridade. O surf de ondas grandes não está feito para as massas, mas o nicho também pode ser explorado. A logística é grande e só os mais preparados são capazes de as surfar. O espírito polinésio de atingir os picos marítimos está lá e estes descobridores contemporâneos não brincam em serviço. Mal surge uma aberta na tempestade e as condições marítimas se alteram já estão a fazer-se ao mar. Ele não espera e a tempestade perfeita rapidamente se diluirá nas águas. Aqui não há espaço para horas de almoço.

É de costas para o azul que Rabo de Peixe encontra a terra, mas é neste que a grande oportunidade se encontra. O mar até pode ter ceifado muitas vidas, mas será ele a salvação das gentes. Numa das zonas mais pobres do país cresce o interesse pela modalidade e é do porto local que a expedição parte em busca da perfeição. O brasileiro Eric Rebiere e Alexandre Botelho — que por estes dias de janeiro treina em Maui, no Havai — são os homens que se fazem ao mar para surfar as ondas de que fogem os locais. Aos surfistas experientes junta-se Diogo “Garoupinha” Medeiros, um jovem local cuja história de família se confunde com a do surf nos Açores. Tudo começou com o avô, que diz sentir “a água salgada nas veias” e que em contacto com o mar se sente “como um pássaro”, desde que viu as primeiras imagens em revistas vindas da Califórnia. O avô “Garoupa” já não surfa, é certo, mas as suas palavras estão imortalizadas no documentário “Endless Ocean”. O pai nunca se aventurou muito, mas a paixão renasceu no neto, que acredita num futuro melhor para a ilha através do mar.

À PROCURA DE UM LUGAR

A Nazaré já fez o seu papel, ao colocar Portugal no mapa como destino de ondas grandes, mas a verdade é que o futuro não passará pelo canhão. À dificuldade de prever uma boa sessão juntam-se as características da onda, que choca de frente com as regras do circuito. “A Nazaré não é uma onda de remada, mas sim de tow in, pelo que não pode entrar neste campeonato”, explica João de Macedo, que por acaso até já se aventurou por lá sem a assistência que normalmente se recomenda. Em condições ótimas, a onda popularizada por Gareth McNamara é surfada com a ajuda de pessoal auxiliar (equipado com motas de água e material de comunicação à altura de qualquer eventualidade).

Fala-se de escalas e de como a onda do baixio é muito mais pequena do que a da Nazaré, mas há quem pense o contrário. “Havemos de lá chegar”, afiança Marco Medeiros, chefe de segurança e operador de resgate das expedições no mar dos Açores. A verdade é que o território das ondas grandes ainda não tem a expressão do surf em ondas ditas normais e até na forma como são medidas há divergências. São pelo menos três as formas de medir e o procedimento muda consoante os continentes. Se por cá usamos o sistema métrico e medimos a onda de frente, os havaianos — donos da terra em que tudo começou — pensam de forma diferente. A onda é medida por trás, fazendo com que esta pareça menor aos olhos europeus, esses mesmos olhos que têm uma palavra a dizer na Austrália. Na Oceânia, o corpo do surfista é a bitola e tudo se decide a partir daí. “Eye” [altura do olhar], “over head” [acima da cabeça], “double” e “triple” tomam a forma de medida. Mário Almeida torce pelos australianos e considera que “talvez seja mesmo esta a escala mais interessante a utilizar”.

DEPOIS DA TEMPESTADE, A BONANÇA

Escalas à parte, o foco das expedições continua a ser a descoberta de novos locais para as ondas grandes e os Açores mantêm-se como lugar de eleição. As tempestades formadas no Atlântico trazem as melhores ondas para o arquipélago e a Graciosa foi a escolhida para a segunda expedição da temporada. O furacão “Alex” varreu o Atlântico, mas nem tudo é mau. A tempestade tropical — a primeira do género a ocorrer em janeiro nos últimos 80 anos — deixou o vento a soprar do quadrante sul, uma oportunidade de ouro, tendo em conta a ondulação de oeste esperada. O tamanho reduzido da “ilha verde”, muito exposta às ondulações do Atlântico Norte, é o ideal para que estas contornem a ilha sem perder a energia e pode ser que desta seja de vez. “Temos alguns locais identificados na costa oeste, norte e este da Graciosa, e os relatos de vários surfistas e amigos dizem-nos que esta ilha poderá ter algumas das melhores ondas do arquipélago”, conta João de Macedo. O redescobrimento dos Açores continua.