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Gestores do Novo Banco suspeitos no caso Veiga

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Empresário terá sido ajudado na compra - com dinheiro do Congo - do BES Cabo Verde

Foto D.R.

Dois administradores portugueses que representam o Novo Banco no antigo BES Cabo Verde, Rui Guerra e António Duarte, foram apanhados numa operação de vigilância do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) e são suspeitos de dar informação privilegiada ao empresário José Veiga para que este pudesse apresentar uma proposta de compra daquela instituição bancária com as melhores condições possíveis para ele.

Veiga, um ex-agente de futebol que passou a residir em Brazzaville, no Congo, em 2009, é o principal suspeito de uma investigação aberta pelo DCIAP em setembro de 2014 sobre indícios de crimes de corrupção que implicam directamente o Governo do Presidente consoles, Denis Sassou Nguesso, e envolvem um esquema de lavagem de dinheiro de muitos milhões de euros que passa pelo Brasil, pela Suíça e por Portugal.

O negócio de aquisição da antiga filial que a família Espírito Santo possuía na Cidade da Praia, cujo contrato de compra e venda foi assinado no último dia de 2015, acabou por levar à detenção de José Veiga esta semana, depois de ja ter sido concretizada a transferência para o Novo Banco em Portugal dos 13,8 milhões de euros que o empresário pagou pelo banco cabo-verdiano. O Novo Banco vendeu-lhe a totalidade dos 100% de capital social do BES Cabo Verde, logo a seguir a ter renomeado a filial com o nome Banco Internacional de Cabo Verde.

Susana Figueiredo, a procuradora responsável pelo inquérito-crime, e que antes disso tinha coordenado a investigação ao caso dos vistos gold, terá considerado que existiam indícios suficientes para poder começar a constituir arguidos. O antigo agente de Luís Figo e um seu sócio, o empresário Paulo Santana Lopes, irmão do ex-primeiro-ministro Pedro Santana Lopes, foram detidos na quarta-feira pela Polícia Judiciária, a par de uma advogada, Maria de Castro Barbosa, horas antes de a Procuradoria-Geral da República divulgar uma nota em que revelou o nome com que o inquérito-crime foi batizado no DCIAP — Operação Rota do Atlântico — dando a entender a dimensão do caso: mais de 30 buscas a casas, empresas, três escritórios de advogados e um banco, relacionadas com uma lista de crimes que, além da corrupção internacional, do branqueamento de capitais e da fraude fiscal, inclui “a participação económica em negócio na compra e venda de ações de uma instituição financeira estrangeira”. Ações que, segundo a nota, eram “detidas por uma instituição de crédito nacional”.

A compra do BES Cabo Verde foi feita com dinheiro vindo do Congo depositado numa conta do banco na Cidade da Praia titulada por uma sociedade com sede no Quebeque, no Canadá, a Norwich Group. Foram esses 13,7 milhões de euros que transitaram para o Novo Banco em Lisboa, já em janeiro. A Norwich Group tem como único beneficiário José Veiga, sendo que, na administração da sociedade está também o empresário Paulo Santana Lopes. O Ministério Público identificou que o montante usado para comprar o banco cabo-verdiano teve origem na Asperbras Congo, uma sociedade com sede em Brazzaville de que Veiga é diretor-geral e acionista, com 40% do capital, tendo Santana Lopes uma participação mais pequena.

Associada ao grupo brasileiro Asperbras, da família Colnaghi, a Asperbras Congo tem sido beneficiada com alguns dos mais importantes contratos públicos atribuídos pelo Governo de Sassou Nguesso — e que o DCIAP acredita resultarem de pagamentos corruptos feitos ao Presidente ou a gente muito próxima dele.

A empresa de Veiga está a desenvolver o projeto Eau Pour Tous (“Água para todos”), com a perfuração de quatro mil poços de água por todo o Congo, e a construir 12 hospitais de grandes dimensões, um para cada região do país. A Asperbras Congo tem ainda em mãos um grande complexo industrial especializado em equipamentos de saneamento básico e já abriu uma fábrica de leite e queijo, a maior do país.

Brazzaville-Rondônia- -Cascais

Mas os negócios de Veiga no Congo não se limitam a fábricas e hospitais. O Presidente Sassou Nguesso concedeu ao empresário comissões em contratos internacionais de petróleo (um produto que representa 90% das exportações do Congo) e deu-lhe a responsabilidade de fazer o levantamento das riquezas minerais do país.

Nos seis anos que leva de vida em Brazzaville, os interesses do ex-agente de futebol e antigo diretor-geral da SAD do Benfica estendem-se praticamente a tudo. Nos fluxos financeiros detetados pela investigação do DCIAP estão incluídas verbas recebidas por uma empresa brasileira de extração e exportação de pedras preciosas, a Plenamerica, com sede no estado da Rondônia. O sócio-administrador dessa empresa, Luiz Stefan de Andrade, é presidente do Desportivo das Aves, um clube de futebol de Vila das Aves que joga na segunda liga portuguesa.

Em poucos anos, depois de ter saído de Portugal com a sua empresa de representação de jogadores na falência, Veiga parece ter acumulado uma fortuna difícil de calcular. Numa das buscas realizadas na quarta-feira a uma moradia de luxo na Quinta da Marinha foram encontrados oito milhões de euros em notas dentro de um cofre na cave. Uma apreensão que se veio juntar aos milhões que tinham sido transferidos para Lisboa, por causa da compra do banco de Cabo Verde.

Sem declarar a maior parte dos seus rendimentos às finanças, Veiga e Paulo Santana Lopes associaram-se a Maria de Castro Barbosa, uma advogada especializada em imobiliário, para investirem na compra de propriedades sem que os seus nomes aparecessem envolvidos.

Indiciada por branqueamento de capitais e fraude fiscal qualificada, Maria de Castro Barbosa foi interrogada durante um dia inteiro na quinta-feira pela procuradora Susana Figueiredo e pelo juiz de instrução Carlos Alexandre. A advogada é dona e administradora de quatro empresas de investimentos imobiliários no concelho de Cascais. De acordo com fontes próximas do caso, a advogada montava as operações de compra dos imóveis, sendo que José Veiga e Paulo Santana Lopes foram criando companhias offshore com que abriam contas em bancos na Suíça. Era por aí que vinha depois o dinheiro para Portugal.

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