Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

“Uma família não é uma democracia”

  • 333

Jose Carlos Carvalho

Javier Urra, o pedagogo espanhol que se especializou em crianças e adolescentes em conflito aberto com os pais, deslocou-se a Portugal para falar do seu novo livro, “O Pequeno Ditador cresceu”, uma atualização do bestseller escrito em 2007. Aqui ficam alguns conselhos para os progenitores

Javier Urra está habituado a casos bicudos. Décadas de experiência a lidar com jovens e adolescentes problemáticos e de cargos - foi o primeiro provedor de menores em Espanha, o primeiro presidente da Rede Europeia de Provedores de Menores, além de participar assiduamente nas reuniões da UNICEF e da Comissão Europeia - deram a este psicólogo um largo conhecimento sobre as relações entre pais e filhos, em especial quando se instala uma tirania por parte dos mais novos. Em 2007, escreveu um "bestseller", "O Pequeno Ditador", que vendeu 33 000 exemplares e vai já na 18ª edição. Este ano, lança uma "atualização" do livro, "O Pequeno Ditador Cresceu", sobre os meninos que são agora adolescentes e têm nas tecnologias novos aliados.

Quem lê o livro pode assustar-se, achar que aqueles casos são representativos do todo - mas Javier Urra tranquiliza os pais. Não há números certos de quantos filhos maltratam, psicológica ou fisicamente, os pais, e as denúncias de pais sobre filhos cresceram em Espanha - de 2300, em 2007, saltaram para 4700, em 2015. Mas a maioria dos filhos não tem de ser assim.

Em 2011, Urra abriu o Centro Recurra Ginso, a 70 km de Madrid, onde os casos mais complexos ficam internados durante um ano, submetendo-se a um programa de disciplina e terapia. Os pais trazem os filhos de carro, deixam-nos lá e, nos primeiros 15 dias, não há qualquer contacto entre ambos. No centro, não há telemóvel, internet, álcool nem tabaco. Há câmaras de vídeo nos quartos, para evitar acidentes, muita disciplina - dias que começam às 7h30 sem falta, que incluem 4 horas de aulas, desporto e muita terapia, individual e em grupo. Um ano parece imenso tempo, mas é o necessário para mudar hábitos, assegura Urra, e recuperar relações tóxicas entre pais e filhos, onde por vezes os maus-tratos psicológico já querem resvalar (ou resvalam mesmo) para o confronto físico.

Nesta "patologia do Amor", em que se quer amar mas não se sabe como fazê-lo, Javier Urra explica que há fatores-chave que se alteraram na sociedade de hoje. Houve uma perda geral de autoridade - de pais, professores... -, e os filhos tiranos 'beneficiam' disso. Sentindo que lhes é permitido mais, que há menos regras, e que os pais têm dificuldade em dizer-lhes que não, "medem forças" , e a manipulação e o poder das crianças aumenta. "Criou-se a ilusão de que uma família é uma democracia", alerta Urra - quando na verdade, é indispensável haver alguém a mandar. E não há que ter medo em dizer que não. O "não" é muito formador e indispensável para as crianças.

Apesar de tudo isto, o pedagogo considera que os pais não têm de entrar em pânico, e que nem todos vão ter um "pequeno ditador" em casa. Há é claro, que fazer por isso.

Aqui ficam dez conselhos essenciais do pedagogo para os pais:

1- Desfrutem dos vossos filhos. O tempo passa a correr
2- Deem-lhes segurança
3- Mantenham contacto com eles
4- Digam-lhes que os amam, e deixem-se amar
5- Mantenham contacto com a natureza, acampem
6- Pratiquem desporto
7- Sorriam, e riam-se de vocês mesmos
8- Relativizem os problemas
9- Sejam agradecidos
10- Ensinem as crianças a apreciar a beleza - de um quadro, de uma flor. Ensinem o gosto pelas coisas bonitas.

  • “Guarda no bolso uma bofetada para o teu filho. Uma só”

    Javier Urra, pedagogo e psicólogo que cuida de crianças problemáticas, escreveu um novo livro. Em Portugal, falou-nos do trabalho que desenvolve em Madrid com jovens em conflito com os pais. “O Pequeno Ditador Cresceu” é a obra que atualiza o 'bestseller' ”O Pequeno Ditador” (de 2007), que vai na 17ª edição