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O que leva o mundo a comprar menos smartphones?

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TAMBÉM A APPLE... Estimativas revelam que, pela primeira vez, a venda trimestral de iPhones deve registar uma quebra

HANNIBAL/REUTERS

A venda de computadores pessoais atingiu a pior quebra de vendas de sempre no último trimestre de 2015. Nesses três meses foram vendidos apenas 71,9 milhões de PC. Uma quebra de 10,6% quando comparado com o período homólogo. A consultora IDC lá vai dizendo que a culpa é da crise que afeta a economia mundial (em particular, a chinesa) e que as convulsões no Médio Oriente também não ajudam.

Sim, mas a verdade é que o nível de estagnação que atingimos tem como principal responsável a própria indústria do hardware (o fabrico dos componentes) e do software (a produção de aplicações). E é fácil de explicar. Recordo-me de entrar para a universidade e de comprar o meu primeiro computador pessoal (digno desse nome). A “torre” esbranquiçada e ruidosa esteve à altura dos encargos menos de ano e meio. Uma nova versão do sistema operativo Windows e a consequente evolução de outras aplicações que utilizava foram demais para as capacidades daquele computador. Efeito imediato? No meu caso, investir em novos componentes. Abrir a caixa e mudar o processador e colocar mais memória. Dois anos depois acabei mesmo por trocar de máquina. Afinal, o computador ficava mais lento sempre que era lançada uma nova versão dos softwares que mais utilizava.

Este binómio hardware-software em que o segundo puxava pelo primeiro acabou há uns bons três anos. Em 2013 a Microsoft lançava o Windows 8.1 e a Intel respondia com processadores de baixo consumo com desempenhos que mais do que respondiam às necessidades do software. Acabava aí, definitivamente, a necessidade de mudar de computador de dois em dois anos. Essa taxa de renovação passou para a barreira dos 4/5 anos. Tanto para o consumo como para as empresas.

A situação piorou quando, o ano passado, a Microsoft lançou o Windows 10. Ofereceu-o a quem tivesse versões legais desse sistema desde a 7. Ou seja, milhões de potenciais compradores de novos computadores deixaram de ter “desculpa” para investir numa nova máquina – uma nova versão do Windows era sempre motor para acelerar as vendas de computadores pessoais.

Por isso, não é de estranhar que os valores de vendas de PC sejam, hoje, tão baixos. O único gatilho que pode acelerar este mercado é a migração das empresas para o Windows 10. Algo que pode acontecer este ano e que aí, sim, vai levar ao investimento em novas máquinas – o segmento empresarial passou de três para cinco anos o período de substituição de computadores. A Microsoft tentou, o ano passado, forçar esta migração com o final do suporte ao Windows XP – que era a versão do Windows mais utilizada nas empresas – mas sem grandes resultados.

Aliás, outro ponto fulcral para a não aquisição de um novo PC é a falta de inovação. Não há, realmente, nada que nos motive a mudar de máquina. Ponto.

O mesmo drama nos smartphones

Não é só nos computadores pessoais que as consequências do hardware ter suplantado (em muito) as necessidades do software se fazem sentir. Os fabricantes tiveram o mesmo choque de realidade na venda de tablets. Depois de um início fulgurante com o lançamento do iPad e com a geração de todo um novo mercado (o iPad saiu em 2010), as vendas atingiram um pico em 2013 (78,6 milhões de unidades), para fecharem o ano passado nos 48,7 milhões de unidades. São valores da empresa Statista. A verdade é que as versões mais recentes dos sistemas operativos para dispositivos móveis já não trazem aquilo a chamamos “killer features” que justifiquem a atualização. Aliás, nem os sistemas, nem as próprias apps que correm hoje, todas, em dispositivos com dois anos.

Também neste segmento, a inovação é escassa. Depois dos sensores biométricos e da promessa dos pagamentos eletrónicos simples (que só dão um ar da sua graça nos EUA e na Coreia do Sul), não há nada - repito, nada… - que justifique a troca do tablet que temos em casa.

Tudo isto era expectável pelos fabricantes, mas no meio deste cenário dantesco os smartphones continuavam a ser a tábua da salvação. Utilizadores por todo o mundo passaram os últimos três anos a trocar telemóveis por smartphones. Mas, também neste segmento, a falta de inovação está a fazer estragos.

Depois da Samsung ter admitido que a diminuição na procura deste tipo de dispositivos vai ter um impacto negativo nos seus resultados financeiros, foi agora a vez da Apple ser confrontada com a redução das encomendas de componentes e com estimativas que revelam que, pela primeira vez, a venda trimestral de iPhones deve registar uma quebra – as vendas de iPhones, quando comparadas com o período homólogo, cresceram apenas 0,4% no período de Natal. Aliás, a consultora IDC prevê que, na Europa, o crescimento deste segmento nos próximos três anos seja de uns pálidos 2% a 3%. Para o resto do mundo, os valores situam-se entre os 8% e os 5%. Depois de taxas de crescimento de 40%... estes números não são animadores.

O que falta aos smartphones? O último grande motivo para a renovação foi uma imposição tecnológica: as redes 4G. Foram muitos os que quiseram navegar nas velocidades mais rápidas da Internet Móvel e, por isso, tiveram de mudar de telefone. À parte disso, estamos perante inovações estéticas ou de maior desempenho das câmaras. Muito pouco para justificar o investimento. Aliás, aqui como nos tablets, o software não tem forçado ao investimento em novo hardware. Por exemplo, há quem tenha um iPhone 4S (um telefone com quatro anos) e ainda o continue a utilizar, só tendo agora a necessidade de mudar.

A esperança de que o “resto do mundo” (tudo o que fica além da Europa e dos EUA) entrasse desenfreadamente no universo dos smartphones tem vindo a concretizar-se, mas não ao ritmo esperado pelos fabricantes. Sim, brasileiros, chineses e indianos estão a usar telefones inteligentes, mas estão a fazê-lo, agora, de forma gradual.

E a solução é…

O 5G (ligações ainda mais rápidas à Internet Móvel) pode ajudar a alguma atualização, mas não vai ser fulcral. Afinal, ainda há muito espaço para o 4G crescer e as velocidades permitidas nesta tecnologia são mais que suficientes para a maioria dos utilizadores. A Realidade Virtual (RV) é um dos potenciais motores para o crescimento destes três segmentos. A complexidade dos conteúdos obriga a novos dispositivos, com maiores capacidades de desempenho. Isto para que a experiência de imersão seja o mais realista possível. Os óculos destinados aos computadores pessoais exigem, na quase totalidade dos casos, um novo PC. Os requisitos mínimos para a utilização destes dispositivos são bastante elevados. Nos smartphones, a Realidade Virtual também vai ter impacto, mas mais suave (afinal, já é possível usar um iPhone ou um qualquer Android para ver conteúdos de RV).

Tendências como a Realidade Aumentada, a Domótica (ligação a sistemas eletrónicos domésticos) e a Internet das Coisas também vão ajudar à atualização, mas desengane-se quem está à espera de crescimentos de dois dígitos no mercado dos smartphones nos próximos anos. As tecnologias enumeradas têm um efeito muito mais lento no mercado. Ou seja, vamos querer mudar de smartphone por causa delas, mas todos o faremos a um ritmo muito pessoal. Afinal, todas estas tecnologias dependem de dispositivos terceiros. Para a RV é necessário comprar óculos; para a Realidade Aumentada também precisamos de óculos ou de um ecrã maior no dispositivo; na Domótica tem de investir-se em dispositivos para casa (para controlar o frigorífico à distância, por exemplo) e na Internet das Coisas tem de colocar-se sensores em “coisas” do dia a dia. Sejam uns ténis ou o ar condicionado, por exemplo.

Quer isto dizer que a solução para os fabricantes é apostar em novos segmentos de mercado que funcionem em paralelo com equipamentos que já o fazem. A Samsung está fazê-lo ao investir no fabrico de sensores (e pela sua integração na Eletrónica do Consumo) e a Apple, soube-se agora, tem uma equipa a desenvolver tecnologias para a Realidade Virtual e a sua entrada no mercado dos carros inteligentes parece quase confirmada. Ambas as empresas apostam, muito, no segmento dos wearables (relógios e pulseiras inteligentes, por exemplo) que começa agora a ganhar dimensão.

Diversificação com inovação. É este o binómio que os fabricantes devem, têm, de seguir nos próximos anos. Caso contrário, a estagnação instalada no mercado vai manter-se.