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Exército americano investiga zika

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JOSUE DECAVELE/REUTERS

Vírus está longe de ser única ameaça pouco conhecida transmitida por insetos. Americanos estudam novas pragas

Dois departamentos de investigação biológica ligados ao Exército americano estão a estudar o vírus zika em vários locais do mundo e, embora não tenham uma presença oficial no Brasil, estão a colaborar com as autoridades daquele país no combate da epidemia. “As capacidades e os recursos do Governo dos Estados Unidos estão a responder rapidamente para definir uma vacina”, explicou ao Expresso Debra L. Yourick, diretora do Serviço de Educação Científica e Comunicações Estratégicas do Walter Reed Army Institute of Research (WRAIR).

O Instituto de Investigação Médica de Doenças Infecciosas (USAMRIID, na sigla em inglês), organismo tutelado pelo Exército norte-americano, é parceiro do WRAIR nesta missão. Autointitula-se o “berço da defesa biológica médica” e, criado em plena Guerra Fria, agrega investigadores que estudam ameaças como o antrax, o botulismo, o ébola e outras febres hemorrágicas e também estuda insetos capazes de transmitir novas doenças, como o zika.

Andrew Haddow, entomologista que trabalha para o USAMRIID na parceria com o WRAIR, é neto de Alexander Haddow, o investigador que isolou pela primeira vez o zika num macaco, em 1947. Pesquisador na mesma área que o avô, estuda vírus transmitidos por espécies crípticas de insetos (que apresentam mutações genéticas). “Estão por todo o mundo, mas detetá-las é um desafio”, respondeu ao Expresso quando confrontado com a possibilidade de existirem mosquitos ainda desconhecidos e que representem ameaças à população mundial.

Criado em 1969, o instituto tem liderado pesquisas para encontrar soluções médicas, em primeiro lugar para defender os soldados norte-americanos de ameaças biológicas. Vacinas, medicamentos, meios de diagnóstico e conteúdo informativo são continuamente produzidos pela instituição, que, em associação com o Centro de Controlo de Doenças (CDC) e a Organização Mundial de Saúde, tenta estabelecer parâmetros de identificação de agentes biológicos relevantes, como espécies novas de mosquitos.

Na página do USAMRIID na internet, é explicado ainda que a colaboração com empresas privadas do sector farmacêutico ou organismos públicos norte-americanos como o Departamento de Saúde ou de Segurança Interna são um objetivo da instituição, de forma a desenvolver produtos de defesa das populações e das Forças Armadas daquele país. Um dos produtos que resultou desta aliança foi a recente vacina contra a dengue.

Com uma equipa de 62 pessoas, entre civis e militares, o WRAIR dedica-se a produzir estudos laboratoriais detalhados sobre grupos de insetos transmissores de viroses de dimensões epidemiológicas. Graças a este trabalho, o número de espécies de mosquitos identificadas no Museu de História Natural dos Estados Unidos passou de 200 mil em 1961 para cerca 1,5 milhões. É, a nível mundial, a maior base de dados deste tipo, com fins de investigação biológica. O Brasil também colabora com o WRAIR na identificação de agentes transmissores de doenças como a malária, a dengue e na investigação de novos tipos de repelentes.

Há milhares de anos vírus como o zika circulam entre macacos e outros animais em florestas tropicais. Quando são transmitidos para os seres humanos, muitos destes vírus continuam a ser pouco interessantes para os cientistas, por causarem sintomas pouco expressivos, semelhantes a síndromes gripais. Até que surtos de maior expressão sejam noticiados. Desde que o zika foi isolado, mais de 300 doenças contagiosas foram reportadas em populações, que nunca antes tinham sofrido exposição a estes vírus e outras doenças ressurgiram, depois de já terem sido consideradas erradicadas.